Foto: Lucas Chen

Com a campanha eleitoral em desenvolvimento, é importante reforçar um dos elementos centrais da organização partidária, especialmente de um partido comunista: o primado da ação militante! A militância, conjunto de filiados ao PCdoB que atuam de forma organizada e de acordo com os princípios programáticos e estatutários, se desenvolve no cotidiano nas diversas frentes de luta. Sem militância ativa, integrada às organizações partidárias, das organizações de base aos comitês que as dirigem, é praticamente impossível pensarmos em uma vida partidária minimamente saudável, conectada com a massa proletária e setores progressistas da sociedade, nas suas múltiplas dimensões. Sem militância, disputas eleitorais, para nós, são extremamente mais difíceis do que já são, dado o enfrentamento com as forças do capital que predominam nessas disputas.

Ao longo da história do movimento comunista internacional, e do próprio PCdoB nestes mais de cem anos de existência, muito já foi escrito, debatido, estudado sobre o papel do militante comunista. De Marx e Engels a Lênin, passando por todos os grandes teóricos revolucionários e construtores de partido e do pensamento sobre a ação revolucionária, cada um a seu tempo deu contribuições relevantes. Entre nós, aqui no Brasil, temos um legado histórico de grande importância sobre a estratégica atividade militante no seio do nosso Partido. Reverencio a memória de cada um desses camaradas que se puseram a pensar e realizar a árdua tarefa de construir o Partido no cotidiano do povo brasileiro nas suas diversas etapas históricas.

Mas há uma frase que está fortemente gravada entre nós, militantes mais antigos do PCdoB, repetida ao longo das décadas: “ser comunista é uma opção cotidiana”, cunhada por um dos nossos maiores quadros do trabalho organizativo, o camarada Diógenes Arruda Câmara. E é aqui, exatamente nessa afirmação, que quero construir o conjunto do raciocínio daqui para frente. Afinal, o que é ser comunista cotidianamente, especialmente nestas primeiras décadas do século 21? E como exercer essa militância no dia a dia das nossas vidas profundamente impactadas por um largo e complexo conjunto de reorganização do trabalho, do movo de vida e de nos relacionarmos com parentes, amigos e colegas de trabalho? Como potencializar isso em períodos eleitorais?

Começo por aquilo que nos é mais comum e simples de compreender, até porque estamos ancorados exatamente nessa experiência secular de efetivação da ação militante, desde que o grandioso Lênin e outros teóricos revolucionários do início do século 20 formularam o que chamamos genericamente de “forma leninista de partido”. Nessa chave teórica, de modo bem simples, militante é toda pessoa que adere ao Partido a partir da concordância com seu Programa e Estatuto e atua em uma das suas organizações de base, ou células, como eram mais conhecidas no passado.

A partir desses elementos básicos, e à luz dos debates e avaliações internas sobre a contribuição dos militantes, coletiva e individualmente falando, as pessoas assumem papéis diversos na estrutura partidária, tornando-se dirigentes dessas bases, dos comitês aos quais elas estão vinculadas, ocupando ainda tarefas de representação do partido nas diversas frentes de luta, inclusive na frente institucional, na condição de candidatos e, sendo eleitos, como parlamentares, membros de poderes executivos, mas também como dirigentes e entidades diversas do movimento sindical e social. No PCdoB, em especial, cunhamos nas últimas décadas um conjunto de tarefas primordiais para a nossa militância, a famosa conjugação de quatro verbos: militar, estudar, contribuir (financeiramente) e divulgar as ideias do Partido.

Aqui, portanto, é absolutamente fundamental entendermos que a militância comunista não se dá “apenas” na participação das reuniões do organismo no qual atua e na presença em atividades diversas da luta política (reuniões, passeatas, protestos, comícios, panfletagens etc.). E já é muita coisa, não é mesmo? Especialmente em períodos de eleição como o que estamos vivendo, porque o ritmo fica frenético na disputa pelo voto popular. Eleições, em qualquer lugar do mundo no qual a luta de classes é aguda, repleta de contradições, são momentos de superconcentração dessas lutas em um curto espaço de tempo, porque é nelas que as forças políticas disputam o controle sobre o Estado fora dos momentos revolucionários ou de guerras internas. Voltamos então à “opção cotidiana” do camarada Diógenes Arruda.

Na medida em que somos militantes, esse exercício da atividade partidária muitas vezes fica limitado pelos papeis que cumprimos no bojo do sistema capitalista, especialmente na condição de força-de-trabalho, formal ou informal, CLT ou precarizada, dada a necessidade de exercermos as jornadas para garantir a sobrevivência básica. O raciocínio vale também pra outras formas de relações sociais que desenvolvemos, que vão do estudo formal às relações sociais mais amplas, para bem além da luta cotidiana. Um dos maiores desafios da Frente de Organização do Partido é exatamente conseguir garantir que as pessoas consigam atuar organizadamente conciliando as atividades diversas que são fundamentais para travar a luta – novamente, especialmente nestes períodos eleitorais insanos – conjugando esses diversos aspectos da vida de cada pessoa.

Um saudoso dirigente comunista da cidade de São Paulo, o camarada Neleu Alves, operário metalúrgico, com quem muito aprendi, dizia em tom jocoso que “alguns acham que o PCdoB tem uma tropa de militantes acantonada em algum quartel revolucionário, que movemos para lá e para cá conforme as necessidades”. Dizia isso para expressar algo que parece óbvio, mas não é: militar é um ato amplo para bem além das “caixinhas” organizativas que temos na estrutura partidária. Logo, o papel da frente de organização, e de outras frentes partidárias que movimentam o trabalho militante, especialmente as de propaganda/comunicação, é estabelecer orientações adequadas para que cada militante do Partido atue onde estiver, no tempo que tiver disponível. E essa ação cotidiana, essa opção cotidiana como afirmava Diógenes Arruda, no nosso tempo ganhou uma dimensão, digamos, maior alcance do que o círculo íntimo, familiar, e o do trabalho cotidiano, nos quais passamos objetivamente a maior parte do nosso tempo.

O advento das redes sociais e dos aplicativos de comunicação, como tudo na vida no capitalismo, traz em si inúmeras contradições, que não abordarei aqui e você que está lendo já conhece bem. Logo, fico no elemento que pode e deve contribuir para que sejamos militantes não apenas nos momentos de atividades presenciais. Hoje, cada um de nós pode militar também desenvolvendo a luta de ideias nas redes sociais, produzindo conteúdos conectados com a linha política do PCdoB, distribuindo os principais conteúdos partidários, disseminando nosso pensamento avançado, de defesa do Socialismo, bem como na divulgação das nossas candidaturas neste momento eleitoral chave. A militância não apenas como reafirmação cotidiana, mas, acima de tudo, como ação cotidiana.

Em campanhas eleitorais, como é natural e próprio dos processos desse tipo no capitalismo, nossas candidaturas contratam pessoas para trabalharem integralmente por um curto período de tempo. Com poucos recursos de Fundo Eleitoral, evidentemente nossas condições de competir com outras máquinas partidárias muito mais robustas nesse quesito são muito limitadas. E sob qualquer hipótese nossas campanhas devem se bastar a esse movimento de fazer campanhas com pessoas contratadas. É absolutamente fundamental que a militância assuma proeminência nas ações eleitorais, combinando a possibilidade cada um nas inúmeras atividades presenciais com o uso intensivo das redes sociais e aplicativos de comunicação, panfletando de modo geral, as propagandas das nossas candidaturas, compartilhando conteúdos digitais.

Militantes, conforme o grau de interação com o partido, têm argumentação mais poderosa, manejando de modo habilidoso a conjugação da defesa das nossas bandeiras gerais com as especificidades das candidaturas. Conseguem travar de modo mais profundo o embate com a extrema-direita e dialogar com o eleitorado de modo positivo. Mas é preciso exercitar esse potencial. Nas ruas, nas redes. Muitas vezes, boas postagens ou compartilhamentos dos materiais do partido, das campanhas, têm um alcance maior do que a clássica panfletagem de rua. Novamente, é preciso exercitar a prática. Em fevereiro deste ano, no Encontro Nacional de Organização, foram lançadas as conclamações: “nenhum militante fora da campanha eleitoral” e “cada organização de base deve ser um comitê de campanha”. Do PCdoB, das nossas candidaturas, de Lula, e das nossas chapas nas eleições estaduais.

A campanha está em curso e espero que você, militante do PCdoB, que está lendo estas linhas, já esteja plenamente integrado a ela. Se estiver, hora de ir um pouco além, dedicarmos nem que seja algumas horas da semana a mais. A luta vale a pena. O Partido precisa de cada um de nós como comandantes dessa batalha histórica. O Brasil precisa do PCdoB!

* Altair Freitas é secretário nacional de Organização do PCdoB