A eleição e o “risco Petrobras”: direita e 3ª via ameaçam privataria

Em processo de desmonte desde o golpe de 2016, a Petrobras já está na pauta dos pré-candidatos à Presidência da República. Jair Bolsonaro (PL) – que tentará a reeleição – não é único nome na disputa que promete a privatização da mais estratégica empresa brasileira e ameaça seu futuro. Levantamento do Valor Econômico aponta que a terceira via também deixa a companhia em risco com projetos que remetem à privataria neoliberal.

O jornal avalia as reações dos principais pré-candidatos aos novos reajustes nos preços do diesel e da gasolina – um desdobramento da nefasta política de preços da Petrobras, adotada ainda no governo Temer e agravada com Bolsonaro. Também são analisadas as ideias dos concorrentes ao Planalto sobre o “papel social” da empresa.

“A Petrobras tem 68 anos e foi gerida, ao longo da história, por grupos de diferentes pensamentos econômicos. É uma empresa de economia mista, controlada pela União, mas tem 63,25% do capital com outros investidores”, descreve o Valor. “A dicotomia entre buscar a lucratividade e atender aos interesses públicos está refletida no próprio estatuto da petroleira, que diz que é regida pelas normas de direito privado, mas pode, desde que ressarcida, assumir compromissos ‘em condições diversas às do setor privado’.”

Só em 2021, a Petrobras pagou R$ 27 bilhões em dividendos à União. Mas esses números escondem o custo social da política de preços, com a escalada inflacionária de combustíveis. Por tudo isso, a batalha da Petrobras segue viva nos marcos políticos e eleitorais de 2022.

Segundo o Valor, apenas Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Ciro Gomes (PDT) falam em acabar com a política de preços, que provocou uma inflação descontrolada dos combustíveis e prejudicou o conjunto do povo brasileiro. Eles também se manifestam abertamente contrários à venda da empresa.

Lula foi além e chegou a dizer, conforme o Valor, “que privatizações – como as da Eletrobras e de ativos da Petrobras – podem ser revistas”. E emendou: “que pessoas sérias, ao tentarem comprar empresas públicas brasileiras privatizadas, levem em conta que a gente vai mudar de governo e vai rediscutir isso”. O governo Lula (2003-2010) foi o responsável pela descoberta do pré-sal, fator que alavancou a empresa. Mas, para o petista, a criminosa operação Lava-Jato “quase quebrou a Petrobras”.

Ciro tem usado as redes sociais para postar vídeos sobre suas propostas para a Petrobras. Nas palavras do Valor, o ex-ministro “enxerga a petroleira como indutora do desenvolvimento econômico. O pedetista prometeu, inclusive, recomprar ações de investidores privados, a fim de dar viés mais estatizante à direção da petroleira”. Na visão de Ciro, cabe à Petrobras investir mais em refino e petroquímica, “para reduzir dependência do País das importações”.

A lógica vale para a política de preços, definida como “criminosa” pelo pedetista. “No caso do diesel, ele propõe uma política de preços que reflita a média dos custos de produção da Petrobras, o preço do diesel no golfo do México e o preço de exportação do diesel brasileiro”.

Em contrapartida, extrema-direita, direita e centro deixam claro que vão ao pleito de mãos dadas com o mercado – e de costas para o povo brasileiro. Confira abaixo o “risco Petrobras” dessas pré-candidaturas:

Jair Bolsonaro (PL)

De acordo com o Valor, o presidente “tenta se esquivar do custo político da alta dos combustíveis alegando não ter controle sobre os preços da estatal. Ao reagir ao reajuste de 8% no diesel e de 4,8% na gasolina neste mês, o presidente disse que, ‘se pudesse, ficava livre da Petrobras’. Em novembro, ele havia chamado a estatal de ‘monstrengo’ e falado sobre o interesse de desestatizá-la. A pauta, porém, não avançou”. O jornal lembra que, em 2021, Bolsonaro chegou a adotar um discurso mais nacionalista e popularesco para justificar a mudança na presidência da Petrobras. Cínico, “para justificar a cobrança de um ‘olhar mais social’ por parte da petroleira, recorreu ao famoso slogan do ‘O Petróleo é nosso’, que remete à campanha pela criação da Petrobras, nos anos 1950.”

Sérgio Moro (Podemos)

Até as pedras de Maringá sabem que, se dependesse de Moro, a campanha eleitoral de 2022 teria como mote exclusivo o combate à corrupção. Mas, na impossibilidade de que o pleito seja um “samba de uma nota só, o ex-juiz da criminosa Lava Jato e ex-ministro bolsonarista já sinalizou à privataria. “Moro se posicionou a favor de aprofundar a agenda de privatizações, embora tenha dito, no fim de 2021, que o caso da Petrobras requer estudos”, resume o Valor. Já sobre a política de preços, Moro titubeou. Em suas redes, ele prometeu “mudar a ‘realidade desastrosa’ da inflação no País”. Mas, enquadrado pelas distribuidoras – com as quais se reuniu em dezembro –, recorreu à embromação: “é preciso pensar na redução dos preços ‘de forma definitiva, sem gambiarras’, via melhorias na logística e com simplificação tributária”. Não convenceu ninguém.

João Doria (PSDB)

Com governos medíocres à frente da Prefeitura de São Paulo e do governo paulista, o tucano ensaia o slogan eleitoral de “pai da vacina”, numa referência a seu pioneirismo na imunização contra a Covid-19. Defensor da privataria ampla, geral e irrestrita, o governador “fala abertamente sobre o assunto” no caso da Petrobras: ele propõe “uma modelagem na qual a estatal seja dividida e privatizada, na sequência, em fatias, de forma a evitar um monopólio privado”. Para controlar a inflação, sua receita é a “a criação de um fundo de estabilização, para amortecer os movimentos de alta”, a ser financiado pela iniciativa privada. Como o setor já chiou, convém esperar recuos de Doria.