Em 2012, quando exercia seu segundo mandato de deputado estadual pelo PCdoB-PE, Luciano Siqueira concedeu um longo depoimento ao Projeto Marcas da Memória, da Fundação Maurício Grabois. O relato percorreu sua trajetória – da juventude no movimento estudantil e cultural do Recife à resistência à ditadura e à redemocratização.

A certa altura, Luciano foi instado a fazer um balanço de seus 40 anos no PCdoB – “e mais cinco na AP (Ação Popular)”, como fez questão de dizer. “Sou suspeito”, afirmou. “Mas eu digo a vocês, com toda sinceridade: a militância partidária, na minha vida inteira, tem sido uma fonte de felicidade, mesmo nos momentos mais difíceis”.

Nascido em Natal (RN) em 5 de setembro de 1946, Luciano Roberto Rosas de Siqueira completou 80 anos neste sábado (5). A data foi celebrada por diversos camaradas, como a presidenta interina do PCdoB, Nádia Campeão. “Luciano Siqueira é um dirigente comunista com enorme capacidade de defender ideias justas de uma maneira acessível, firme e convincente. É um educador político marxista refinado e muitíssimo respeitado no PCdoB e em Pernambuco”, declarou Nádia. “Seus 80 anos são um patrimônio da nossa luta pelo socialismo.”

Luciano despertou para a política na década de 1950, quando estudava no Colégio Estadual do Atheneu Norte-Riograndense. O estopim foi uma manifestação contra o aumento da tarifa de ônibus em Natal. Secundaristas do Atheneu iam de sala em sala para mobilizar os estudantes. Aos 11 anos, Luciano seguiu os colegas e aderiu ao protesto. A descoberta, diz ele, “foi uma coisa fantástica”. Apesar da repressão policial, os estudantes conseguiram revogar o aumento – e Luciano nunca mais saiu das ruas.

O dirigente

Quando tinha 14 anos, Luciano se mudou com a família para o Recife. Na capital pernambucana, aproximou-se do intenso ambiente político e cultural da época, participou do MCP (Movimento de Cultura Popular) e se vinculou à Ação Popular. Em seguida, ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco.

Mesmo tímido, despontou para o movimento estudantil. Em 1972, filiou-se ao PCdoB, em plenos anos de chumbo. A exemplo de outros militantes comunistas, Luciano foi perseguido, preso e torturado. Chegou a viver na clandestinidade e, mais tarde, conseguiu voltar ao curso de Medicina. Formado, optou pela saúde pública.

Sua atuação como médico, militante e dirigente do PCdoB-PE o levou, em 1982, a ser eleito deputado estadual com 13.866 votos. Como o PCdoB estava na ilegalidade, Luciano concorreu pelo PMDB, que abrigava candidaturas apoiadas pelos comunistas. No 6º Congresso do PCdoB, em 1983, tornou-se membro do Comitê Central. Após um mandato na Alepe (Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco) – e com o PCdoB já legalizado –, dedicou-se à construção partidária no estado. De 1981 a 2000, foi presidente do PCdoB-PE.

Aloisio Sergio Barroso – que também é médico e dirigente nacional do PCdoB – conheceu Luciano na década de 1980. “Ele sempre se destacou pela frequência e profundidade com que debatia as diretrizes partidárias”, afirma Barroso. Em sua opinião, Luciano “tem como traços marcantes a determinação, o entusiasmo e a alegria na condução dos compromissos partidários. Ele possui um espírito elevado e um otimismo – uma postura crítica, mas sempre construtiva, característica essencial aos comunistas.”

O gestor

No século 21, Luciano disputou sete pleitos. Foi eleito em seis: a vice-prefeito do Recife em 2000 e 2004, na chapa com João Paulo (PT); a vereador em 2008; a deputado estadual, em 2010; e novamente a vice-prefeito em 2012 e 2016, na coligação com Geraldo Julio (PSB). Mesmo quando perdeu, em 2006, na eleição ao Senado, o líder comunista fez bonito – ele conquistou mais de 835 mil votos e terminou na segunda colocação.

Quatro mandatos completos como vice-prefeito, somando 16 anos na função, garantem a Luciano um recorde nacional. Apenas três outros políticos – Luiz Bananeiro no Arujá (SP), João Pietrowiski em Boa Esperança (PR) e Edimarcos Antunes de Mello em Caxambu do Sul (SC) – igualam esse feito. Suas primeiras gestões no Recife coincidiram com os mandatos pioneiros de Luciana Santos na Prefeitura de Olinda. Foi um momento singular para o PCdoB-PE: pela primeira vez, o Partido ocupava posições centrais nos Executivos das duas principais cidades do estado.

“Luciano Siqueira tem uma trajetória marcada pela dedicação ao Brasil, à democracia e à formação de gerações de militantes do PCdoB. É um grande educador político, um dirigente comprometido com as lutas do nosso tempo”, afirma Luciana, hoje ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação. “Aos 80 anos, ele segue como uma referência para o nosso partido e para todos, que temos a oportunidade de aprender com sua experiência, seus conselhos e sua disposição permanente para a luta.”

O escritor

Além de médico e político, Luciano é escritor. Desde 2002, mantém uma coluna semanal no Portal Vermelho, para a qual já escreveu mais de 1.100 textos. As coletâneas O Vermelho É Verde-Amarelo e Como o Lírio Que Brotou no Telhado, publicadas pela Editora Anita Garibaldi, reúnem seleções desses artigos.

“Ele é dessas pessoas que gostam de ler e gostam de escrever – e escreve muito bem, por sinal. Luciano faz da luta de ideias a sua bandeira e o seu estandarte”, diz a poeta Cida Pedrosa, vereadora pelo PCdoB no Recife. “Luciano chegar aos 80 anos com a lucidez que ele tem é um presente para o Partido Comunista do Brasil e para o País, que pode ouvir suas ideias e debater com ele, que, antes de tudo, é um democrata. E digo mais uma coisa: Luciano, eu te amo.”

O jornalista e escritor pernambucano Urariano Mota é outro amigo que conhece Luciano há décadas. “Oitenta anos e ninguém diz!”, afirma. “Luciano tem sido um educador político de gerações – de jovens e menos jovens, de intelectuais e populares do Recife e de muitas cidades, nos textos que publica no Portal Vermelho. Ele é um militante que se destaca pela calma, pela cultura, pela ponderação e pela flexibilidade, que sabe acolher as divergências sem brigar com aspereza contra elas.” Em homenagem ao aniversariante, Urariano parodiou o poeta e conterrâneo Manuel Bandeira:

“Imagino Luciano entrando no céu:
– Licença, meu compa!
E São Pedro, bom na ação:
– Entra, Luciano. Você não precisa pedir licença.”

Aos 80 anos, Luciano continua a fazer aquilo que aprendeu ainda menino, nas ruas de Natal: participar da história. Para um comunista que define a militância como “uma fonte de felicidade”, poucas homenagens podem ser maiores do que reconhecer que sua trajetória ajudou a formar gerações – e segue formando.