Feminismo hoje é o tema do novo livro de Manuela d’Ávila

Manuela d'Ávila (PCdoB-RS) e remessa do novo livro

Foto: reprodução/facebook

A ex-deputada Manuela d’Ávila (PCdoB-RS) lança neste mês ‘Por Que Lutamos? Um Livro Sobre Amor e Liberdade’. Com a obra editada pela Planeta, busca dialogar com meninas e jovens. “Meu esforço é que descolem o tema (feminismo) do meu nome. Muitas meninas e jovens mulheres têm dúvidas básicas. Queria responder a elas”, afirmou em entrevista ao Universa (UOL).

Na conversa, a comunista falou dos desafios de sua carreira: uma mulher com 15 anos na política. Lembrou mudanças que viveu no período e destacou desafios que ainda devem ser enfrentados.

Ela comentou a avalanche de fake news que precisou enfrentar durante à campanha de 2018 – concorreu como vice-presidenta na chapa encabeçada por Fernando Haddad (PT) – e as novas mentiras no caso do contato de hackers que teriam vazado diálogos de integrantes da Lava Jato ao site The Intercept. Manuela diz ter pedido investigação completa sobre as mentiras que circulam na internet. E completou: “Também pedi à Polícia Federal, na segunda-feira (7), autorização para disponibilizar para o público as mensagens, para mostrar quem falou com quem, quantas vezes. A PF tem todas as minhas conversas com o hacker, entreguei o celular para eles periciarem. O teor é altamente abonador. Aconteceu o que eu disse em nota oficial: fizeram contato comigo, passei o contato do Glenn Greenwald, não sei quem é a pessoa.”

Sobre o futuro, garantiu ainda não saber se vai concorrer à prefeitura de Porto Alegre, onde desponta nas pesquisas em primeiro lugar: “É uma probabilidade. Minha maior preocupação é que meu campo esteja unido em uma única candidatura.”

Publicado pela Editora Planeta, Por que lutamos? será lançado neste mês em São Paulo (28/10), Rio de Janeiro (29/10) e Belo Horizonte (30/10).

Leia a íntegra da entrevista a seguir:

Universa: O seu segundo livro, Por Que Lutamos?, traz uma explicação didática do movimento feminista atual. É uma tentativa de driblar a resistência ao tema e a desinformação?

Manuela d’Ávila: É um livro para meninas e mulheres jovens que querem se engajar ou saber quem nós somos e não se sentem à vontade para perguntar. Acho que a maioria das pessoas é pouco atenciosa com a ignorância dos outros – isso em todas as áreas. Me preocupa muito que a gente simplesmente assimile que uma parte das pessoas é contra nós e não tentemos reverter isso. E também como falamos com as pessoas que não se identificam conosco e com pessoas que se identificam, mas que se afastam por não dominar conceitos e teorias que já assimilamos. Acham que feministas são mulheres que odeiam. Mas somos mulheres que defendem: a aceitação do corpo gordo, a divisão de trabalho doméstico, a igualdade econômica.

O livro traz explicações de alguns termos comuns no feminismo, como “mansplaining”, situação em que um homem tenta explicar a uma mulher um assunto que ela domina. Já passou por isso?

Sim. Pessoas da política, mas que nunca foram candidatas, ainda tentam me ensinar sobre eleições. Eu passei por sete. Até hoje, querem me ensinar a ler pesquisa eleitoral. É básico, um domínio que qualquer pessoa que concorre a uma eleição tem.

Qual o maior acerto e o maior erro do feminismo brasileiro atual?

O maior acerto é a unidade das mulheres na defesa da ocupação do espaço público. Sei que as mulheres na política ainda sofrem, mas tenho a sensação de que existe uma vigília coletiva que ultrapassa as barreiras dos partidos. Não tem isso de “não é do meu partido, então vou fazer vista grossa”.

A reação das pessoas à minha participação no programa Roda Viva, na campanha de 2018, foi um marco para o jornalismo [Manuela foi interrompida 62 vezes, e o programa foi criticado porque, no caso de entrevistados homens, as interrupções não passavam de dez]. Antes, talvez até reforçassem que eu não era impositiva o suficiente. Mas, se eu levantasse a voz, era “olha ali a histérica”. Hoje, as pessoas não aceitam mais esse tratamento às mulheres. Isso é fantástico.

Sobre o erro: acho que a gente tem que fazer um esforço para um feminismo popular. Precisamos unificar os sentimentos que se identificam com a maior parte das mulheres, com o cotidiano da realidade brasileira. No feminismo popular, a pauta do aumento de creches tem que ter prioridade. A questão da segurança pública também, se não as mulheres vão continuar enterrando seus filhos.

Seu primeiro mandato político foi há 15 anos, como vereadora em Porto Alegre. Em Brasília, entrou há 12, como deputada federal, quando o índice de mulheres no Congresso era de 8% — hoje é de 15%. O que mudou de lá para cá?

Talvez eu seja uma das poucas que podem testemunhar a diferença entre hoje e 15 anos atrás. Fiquei oito anos sendo chamada de musa em Brasília. Era a “musa com cérebro”. Quando fui reeleita, dobrei minha votação e não tinha espaço nenhum para falar sobre trabalho. Um colunista disse que eu “estava na praça” porque era uma mulher solteira. Usaram uma foto minha com decote e a legenda “de peito aberto para enfrentar o capitalismo”. Quando reclamava disso, ouvia: “Deixa de ser chata, quem que não quer ser musa? Pare de reclamar”. Na época eu sofria sozinha. Hoje tem até nome: violência política. Não há mais espaço para isso.

Seu nome já aparece em primeiro lugar nas pesquisas de intenções de voto para a prefeitura de Porto Alegre no ano que vem. Confirma a candidatura?

Não sei se vou concorrer. É uma probabilidade. Minha maior preocupação é que meu campo esteja unido em uma única candidatura.

Em 2016, você também estava em primeiro lugar nas intenções de voto para prefeita de Porto Alegre, mas não quis se candidatar para cuidar de sua filha, Laura, então com cinco meses. Foi uma decisão difícil ou óbvia?

Foi óbvia. Foi difícil porque sou militante e estar em primeiro lugar na pesquisa mexia com responsabilidades, as pessoas depositam esperança no candidato. Mas, na política, não somos imprescindíveis, o que é diferente da minha relação com Laura. Foi muito importante para o que consegui construir com ela.

E deixar de concorrer à Presidência em 2018 para ser vice de Fernando Haddad: difícil ou óbvio?

Manuela: Foi difícil porque sabia que seria incrível que o partido tivesse a primeira candidata mulher à Presidência. Era um momento de afirmação de mulheres de esquerda no nosso país. E sabia que isso cumpriria um papel. Mas, ao mesmo tempo, foi natural porque sempre defendemos a unidade. Desde o lançamento da candidatura, queríamos construir a unidade para derrotar Bolsonaro, mas, infelizmente, a única unidade foi essa.

Você foi um dos grandes alvos de fake news durante a campanha presidencial de 2018. A Justiça chegou a ordenar ao Facebook a derrubada de 33 links ligando seu nome a notícias falsas. Qual foi a pior?

Pegaram um vídeo de uma entrevista minha em que eu dizia que as pessoas que não são cristãs, como eu sou, têm o direito de ter sua prática religiosa respeitada. Mas pegaram essa fala e parecia que eu estava dizendo “pessoas que não são cristãs, como eu”, como se eu não fosse. Um padre de Brasília propôs minha excomunhão da Igreja Católica. Fui a uma missa de Dia das Crianças, e o padre dessa missa começou a receber ameaças. Foi horrível. É muito cruel alguém mentir sobre fé. Depois consegui pela Justiça Eleitoral que fosse proibido veicular o vídeo.

Seu nome voltou a aparecer em fake news por causa do contato com um dos hackers que vazou os diálogos da Lava Jato ao site The Intercept. Tomou alguma medida em relação a isso?

Rolaram fake news, várias, e já pedi investigação de todas. Também pedi à Polícia Federal, na segunda-feira (7), autorização para disponibilizar para o público as mensagens, para mostrar quem falou com quem, quantas vezes. A PF tem todas as minhas conversas com o hacker, entreguei o celular para eles periciarem. O teor é altamente abonador. Aconteceu o que eu disse em nota oficial: fizeram contato comigo, passei o contato do Glenn Greenwald, não sei quem é a pessoa.

Em 2011, como presidente da Comissão de Direitos Humanos na Câmara, você pediu ao PP, então partido de Jair Bolsonaro, que o substituísse por outro deputado porque “ninguém na comissão se sentia bem ao lado de uma pessoa que não defende direitos humanos”. Hoje ele é o presidente do país.

Continuo não me sentindo bem ao lado dele. Depois disso, eu pedi a cassação dele, mas uma parte grande do Congresso disse que nós não deveríamos valorizá-lo, dar atenção. Acho que essa parte errou. Devemos ser exemplares na punição de quem comete crimes, como foi o de racismo que ele cometeu contra a Preta Gil [em 2011, Bolsonaro disse, no programa humorístico CQC, que seus filhos não se apaixonariam por uma mulher negra “porque foram muito bem educados”. Bolsonaro foi condenado e cabe recurso]. Mas nos dá o aprendizado de que devemos enfrentar a nossa história.