Classificação de PCC e CV como terroristas pelos EUA levanta alertas sobre soberania e ingerência
A decisão do Departamento de Estado dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas globais, anunciada na quinta-feira (28) e com vigência a partir da próxima sexta-feira (5), gerou reação firme do governo brasileiro e dos comunistas.
A medida é interpretada por lideranças políticas do Partido como uma manobra intervencionista articulada para influenciar as eleições brasileiras de 2026.
Para a presidenta interina do PCdoB, Nádia Campeão, “o narcoterrorismo é uma ponta de lança para que os EUA possam interferir unilateralmente na soberania dos países da América Latina como resposta ao declínio de sua hegemonia”. Segundo ela, a decisão, em pleno ano eleitoral, tem o objetivo imediato de oferecer ajuda política ao clã Bolsonaro.
Campeão aponta que a iniciativa atendeu a um pedido direto de Flávio Bolsonaro, que busca escapar de investigações como as do Banco Master e contornar a derrota política com a aprovação do fim da escala 6×1. “O comitê eleitoral dos Bolsonaros está nos Estados Unidos, comandado por Trump e Marco Rubio. O caráter antinacional e de traidores da pátria está mais do que claro”, afirma a dirigente.
Sobre os efeitos práticos, a presidenta do PCdoB avalia que a medida é contraproducente. Ao substituir a cooperação policial pelo viés militar e de inteligência, retira-se o foco do trabalho efetivo de investigação realizado pela Polícia Federal.”Isso prejudica o combate ao crime, pois dificulta a cooperação entre as polícias brasileiras e norte-americanas, que é o que vinha dando certo”, ressaltando que a denominação estrangeira não altera a legislação brasileira, que exige motivação política, ideológica ou religiosa para o enquadramento como terrorismo.
A secretária de Relações Internacionais do partido, Ana Prestes, corrobora essa visão ao defender que “o Brasil deve reagir defendendo sua soberania, suas instituições e sua própria legislação”, uma vez que o intervencionismo dos Estados Unidos no processo eleitoral torna-se cada vez mais evidente. Reforçando a análise, o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) adverte que “a lei norte-americana autoriza ataques físicos, atos de guerra, contra o território de países em que tais organizações atuam”, responsabilizando a família Bolsonaro por qualquer ato de agressão externa contra o Brasil.
A reação do governo e a soberania nacional
Durante agenda em Sergipe nesta sexta-feira (29), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a postura externa e a articulação da oposição, sendo enfático ao rejeitar o tratamento dispensado ao Brasil. “Não aceitamos ser tratados como moleque ou republiqueta. Isso aqui não é um país qualquer”, declarou o presidente.
Lula diferenciou o combate ao crime organizado da rotulagem política imposta por Washington: “Comando Vermelho e PCC são terroristas para as comunidades brasileiras, e vamos combatê-los aqui dentro. Eles não são os terroristas que o Trump quer. E nós queremos os terroristas brasileiros que estão lá”, disse, se referindo aos criminosos procurados pelo Brasil que se escondem nos EUA.
Mais cedo, em nota oficial, o governo brasileiro se manifestou com tom diplomático, afirmando que a cooperação internacional contra o crime é bem-vinda, especialmente no combate à lavagem de dinheiro, mas que qualquer pretexto para intervenção direta em território nacional permanece inaceitável.




