Foto: Juvenal Balán

O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) defendeu o fortalecimento da unidade internacional dos povos e das forças progressistas no enfrentamento ao imperialismo, ao fascismo e às ameaças à soberania das nações. A posição foi apresentada por Ana Prestes, secretária de Relações Internacionais do Comitê Central do PCdoB, durante o 24º Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários (EIPCO), realizado em Havana, Cuba, no último sábado (8).

Em seu pronunciamento Ana Prestes abordou a crise do capitalismo, a emergência de uma ordem mundial multipolar, as ofensivas dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe, a situação na Palestina, a defesa de Cuba e da Venezuela e os desafios políticos enfrentados pelo Brasil. A dirigente também ressaltou a necessidade de ampliar a solidariedade internacionalista e a unidade das forças democráticas, populares, antifascistas e anti-imperialistas. Leia abaixo a íntegra do pronunciamento.

Estimados camaradas do Partido Comunista de Cuba, heroicos anfitriões deste encontro,

Representantes das delegações internacionais de diversos países e partidos irmãos,

Camaradas,

Trago a todos e todas a mais calorosa e fraterna saudação do Partido Comunista do Brasil, o PCdoB. Agradecemos profundamente a oportunidade de estar aqui, na vibrante e resistente Havana, para compartilhar nossas reflexões sobre o momento histórico que atravessamos e reafirmar nossos compromissos internacionalistas inabaláveis. Estar em Cuba é, por si só, um ato de solidariedade e de resistência. Daqui, saudamos, no centenário do seu nascimento, o legado deste gigante da humanidade, Fidel Castro Ruz, cujo exemplo e pensamento nos alentam e orientam.  Repudiamos com veemência a escalada genocida do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelo imperialismo estadunidense contra a Ilha da Liberdade, agora combinado com inaceitáveis ameaças de agressão militar. A resistência de Cuba é a resistência de todos os povos que lutam por soberania e justiça. Cuba não está só!

Camaradas, vivemos um momento de profunda transição geopolítica e de agravamento da crise sistêmica e estrutural do capitalismo. O sistema capitalista, comandado por uma oligarquia financeira parasitária, evidencia de forma clara o seu esgotamento histórico. Ele não tem a oferecer à humanidade senão a estagnação econômica, a precarização brutal das relações de trabalho, a devastação ambiental e a marcha rumo à barbárie. A financeirização da economia global atingiu níveis assombrosos, com o estoque de capital fictício superando de longe a produção real de riquezas. Esse deslocamento gera instabilidade constante, concentra a riqueza nas mãos de uma ínfima minoria e produz crises recorrentes que penalizam os trabalhadores e os países da periferia do sistema.

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Vemos também como as imensas possibilidades abertas pela revolução tecnológica e científica chocam-se brutalmente com as amarras das relações de produção capitalistas. Sob o controle estrito dos monopólios e das gigantes corporações digitais, as chamadas big techs, as inovações tecnológicas têm servido para intensificar a exploração da classe trabalhadora. Essa superexploração é frequentemente disfarçada sob o falso manto do “empreendedorismo”, que retira direitos e joga milhões na informalidade. Além disso, essas plataformas consolidaram um poderoso sistema digital ideológico. Elas atuam como verdadeiras armas de guerra híbrida, disseminando desinformação, manipulando consciências e fomentando o ódio, o racismo e o neofascismo em escala global.

No entanto, a história não está paralisada. A transição para um mundo multipolar é uma realidade incontornável. Assistimos ao declínio relativo e progressivo da hegemonia dos Estados Unidos, marcado por sua desindustrialização, por impasses estratégicos, por erosão da sua capacidade de liderança moral e por crônicos problemas econômicos. Em nítido contraste, presenciamos a ascensão de novos polos dinâmicos de poder. Destacamos aqui o papel fundamental da China socialista, que demonstra ao mundo a superioridade de um sistema voltado para o desenvolvimento nacional e o bem-estar de seu povo. Destacamos também o acelerado progresso do Vietnã. Os povos da Coreia Popular e da República Popular Democrática do Laos igualmente seguem firmes no rumo da construção socialista. O Sul Global ergue-se com força renovada para reivindicar seu direito inalienável ao desenvolvimento autônomo. O socialismo reafirma-se no século XXI como a única alternativa viável à lógica destrutiva do capital.

Diante da perda de sua primazia, o imperialismo estadunidense, agora sob a liderança agressiva de Donald Trump, reage com enorme violência. Para tentar reverter a marcha inexorável da história, os Estados Unidos recorrem à força bruta, ao protecionismo extremado, às sanções ilegais e ao belicismo. A política externa de Washington busca esvaziar os espaços multilaterais e impor sua vontade unicamente pela chantagem.

Repudiamos a escalada criminosa de agressões no Oriente Médio. O mundo assiste horrorizado, mas não passivo, ao genocídio do povo palestino na Faixa de Gaza e nos territórios ocupados, promovido pelo Estado terrorista de Israel com o respaldo direto dos Estados Unidos. Condenamos de forma veemente essa limpeza étnica. Exigimos o reconhecimento pleno de um Estado Palestino soberano e independente, com capital em Jerusalém Oriental. Os palestinos não se dobram e não se rendem. Merecem, de todos os humanistas e de todos os países livres, o mais ativo apoio em sua justa luta.

O imperialista é poderoso, mas está longe de ser invencível. Estados Unidos e Israel vêm colhendo derrotas constrangedoras em sua guerra contra a República Islâmica do Irã e os ataques contra o Líbano têm recebido eficaz resposta das forças do eixo da resistência.

Na Europa, a contínua expansão da Otan para o Leste alimenta a guerra por procuração na Ucrânia, demonstrando a recusa do Ocidente em aceitar uma arquitetura de segurança compartilhada. O regime abertamente neonazista de Zelensky enfrenta crises seguidas e mesmo com apoio milionário está fadado à derrota.

Na América Latina e no Caribe, nossa região, a ofensiva imperialista ganha contornos de um neocolonialismo aberto. A famigerada Doutrina Monroe foi renovada e é aplicada com o apoio servil de governos e forças de extrema direita locais. O anticomunismo mais rasteiro, de inspiração fascista, retorna praticamente com a mesma roupagem da época da guerra fria, servindo como pretexto para as ameaças, cercos e agressões.

Denunciamos o criminoso ataque à Venezuela bolivariana, que resultou na morte de venezuelanos e cubanos e culminou com o sequestro absurdo do legítimo presidente Nicolás Maduro e da deputada Cília Flores. Ao presidente Maduro, a Cília Flores, ao povo venezuelano e aos combatentes que pereceram neste ataque infame, nossa solidariedade militante e nossa homenagem eterna.

O objetivo claro de Washington é anular qualquer esforço de integração latino-americana e submeter nossos países à condição de Estados títeres. Eles têm os olhos cobiçosos voltados para as nossas imensas riquezas naturais e buscam barrar nossa articulação com os novos polos do mundo multipolar.

O Brasil, pelo seu peso econômico e político, é um alvo estratégico prioritário dessa ofensiva. O governo de Donald Trump, atuando em conluio direto com a extrema direita brasileira, liderada pelo clã Bolsonaro, ataca abertamente a soberania do nosso país. Impõem tarifas extorsivas, chantageiam nossa economia e tentam interferir de forma inaceitável em nossas instituições. O objetivo central dessa investida é impedir que o Brasil exerça seu papel de Estado soberano, defensor da integração solidária da América Latina e da conformação de novas relações internacionais, baseadas no respeito à noção básica de que cada povo tem direito de escolher livremente seu modelo de democracia e de desenvolvimento.

Mas eles encontram e encontrarão firme resistência. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem reagido com altivez, defendendo a democracia e a soberania nacional.

No Brasil, o PCdoB atua na linha de frente dessa batalha histórica, contribuindo com a reconstrução do país, e, ao mesmo tempo, estamos nas ruas, mobilizando a classe trabalhadora para defender a nação, derrotar definitivamente os traidores neofascistas e assegurar um novo ciclo de desenvolvimento. Sabemos perfeitamente que a eleição presidencial de outubro de 2026 terá uma dimensão tático-estratégica decisiva. De um lado, estará a ampla frente em defesa da democracia, da reindustrialização e da integração regional; do outro, o neofascismo antinacional, financiado pela oligarquia financeira e a serviço direto do imperialismo estadunidense. Derrotá-los nas urnas e nas ruas é a nossa missão central.

Camaradas, a memória histórica do século 20 nos ensina uma lição que não podemos esquecer: o fascismo nunca deve ser subestimado. Ele é o recurso extremo e autoritário do capitalismo em crise profunda. Quando as forças progressistas se fragmentam, o autoritarismo avança. Para enfrentá-lo com sucesso, é fundamental construir uma ampla e sólida unidade das forças democráticas, patrióticas e populares em cada um de nossos países. E, no plano internacional, é imperativo fortalecer os laços de solidariedade e a cooperação ativa das forças antifascistas e anti-imperialistas.

E para nós, comunistas, a luta pela defesa do meio ambiente e o enfrentamento corajoso da crise climática são partes inseparáveis da luta anti-imperialista. Não haverá salvação para o planeta sob a lógica da maximização do lucro capitalista; a verdadeira sustentabilidade exige um desenvolvimento com justiça social e novas relações de produção.

Camaradas, a nossa força reside na nossa unidade. A defesa intransigente da paz mundial, a proteção urgente do nosso planeta comum, a luta implacável contra o fascismo e o combate diário ao imperialismo são bandeiras que convergem e se unificam na grande jornada pela emancipação dos trabalhadores e de todos os povos oprimidos.

O socialismo não é uma relíquia do passado. O socialismo, rumo ao comunismo, ressurge no horizonte do século XXI não apenas como uma necessidade histórica urgente diante da crise civilizatória, mas como uma construção real, pujante e vitoriosa. É a única via capaz de harmonizar o formidável desenvolvimento das forças produtivas com a mais ampla justiça social, a verdadeira democracia e o equilíbrio ambiental.

Sigamos firmes na luta, com a certeza de que estamos do lado certo da história. A transição de hegemonia nunca é pacífica, mas a vitória, inevitavelmente, pertence aos povos que ousam lutar e que não se rendem!

Viva a inquebrantável solidariedade internacionalista dos trabalhadores e dos povos!
Viva a luta incansável pela paz e contra o imperialismo!
Viva o Socialismo e o comunismo!
Viva Fidel, viva a heroica Cuba e seu povo indômito!
Venceremos! Muito obrigada.

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Edição: Bárbara Luz