Plenária de Negras e Negros com Lula

Em uma plenária virtual marcada por urgência política, a Secretaria Nacional de Combate ao Racismo do PCdoB reuniu virtualmente, nesta quinta (6), dirigentes, parlamentares e militantes de todo o país para definir a estratégia eleitoral do Partido rumo a outubro de 2026. Sob coordenação de Edson França, secretário nacional da pasta, e de Júlio Vieira, coordenador nacional da Unegro, o encontro articulou duas frentes consideradas indissociáveis: a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a construção de uma bancada negra comunista no Congresso Nacional.

A reunião, que contou com a presença da presidente interina do PCdoB, Nádia Campeão, do secretário sindical Nivaldo Santana e de candidatas e candidatos de diversos estados, ocorreu em um contexto que as lideranças classificaram como de “eleição com significado internacional”. A meta é dobrar a bancada de parlamentares federais pelo Partido, com protagonismo expressivo de quadros negros.

Homenagem a Lejeune: o intelectual que preparava biografias de comunistas negros

O encontro foi aberto sob o peso de uma perda recente. Edson França, emocionado, comunicou o falecimento do militante Lejeune Mirhan — conhecido entre os mais antigos como “Mato Grosso” —, intelectual marxista, internacionalista e dedicado à causa da revolução. Segundo França, poucos dias antes de morrer, Lejeune havia ligado para ele preparando um livro de biografias de intelectuais marxistas negros e pedira que o secretário escrevesse a apresentação da obra.

“Ele tinha uma preocupação sincera com a justiça social, com a revolução, com a emancipação dos povos”, afirmou França, ao propor que a plenária fosse dedicada à memória do camarada. Nádia Campeão, que militou ao lado de Lejeune desde os tempos de movimento estudantil em Piracicaba, no interior paulista, anunciou que a Direção Nacional emitiria nota oficial sobre a trajetória do militante, nascido em Mato Grosso do Sul, mas forjado na luta política em São Paulo.

“A maior homenagem que podemos fazer ao Lejeune é manter a luta anti-imperialista, em especial a defesa da Palestina. Derrotar Netanyahu, derrotar Trump. É a maior homenagem à memória de camaradas como ele”, declarou a presidente interina.

Eleição de 2026 transcende fronteiras, alerta Nádia Campeão

Em sua análise conjuntural, Nádia Campeão sustentou que o pleito presidencial de outubro próximo ultrapassa o significado de uma disputa doméstica. Para ela, a ofensiva do imperialismo estadunidense, intensificada desde a eleição de Donald Trump, busca reconverter a América Latina em “quintal” dos Estados Unidos por meio de pressão econômica, ingerência eleitoral e fomento a correntes de extrema direita.

“Está em curso uma ofensiva muito forte do imperialismo contra os povos, contra nações que eles querem subordinar, contra progressistas, democratas, contra os comunistas”, afirmou. Nádia citou a recente eleição na Colômbia, vencida por um candidato com dupla cidadania — colombiana e estadunidense —, como exemplo da estratégia de infiltração política.

Nesse cenário, a reeleição de Lula é apresentada como um contraponto de soberania. “O Lula vem se contrapondo a essa ofensiva do Trump, não só defendendo o Brasil, mas em todos os espaços internacionais. Ele já publicou artigos corajosos no New York Times e no Washington Post“, lembrou a dirigente, ao convocar a militância para os próximos 60 a 90 dias de campanha.

Olívia Santana e o desafio de dialogar com as periferias evangélicas

Participantes da plenária virtual

Uma fala contundente da noite foi a da deputada estadual baiana Olívia Santana, candidata a deputada federal. Ao saudar a plenária, ela alertou para a necessidade de superar uma “visão idealista” da negritude brasileira, frequentemente associada apenas ao candomblé, ao samba e à capoeira, e reconheceu que ampla parcela da população negra está organizada em igrejas neopentecostais — hoje, segundo ela, um dos principais vetores de captação de votos pela extrema direita.

“Temos uma visão muito idealista do que é a negritude brasileira. Existe uma ampla parcela de negras e negros organizados nos movimentos religiosos cristãos, sobretudo neopentecostais. Temos que desenvolver nossa capacidade de dialogar com esse segmento, com as periferias, com as esperanças e expectativas do nosso povo”, afirmou.

Olívia também destacou a articulação da direita baiana para conter seu crescimento eleitoral em Salvador. “A direita já está colocando candidaturas que não existiam para tirar voto. O carlismo já está vindo para cima”, relatou. Ainda assim, projetou otimismo: Lula pediu à militância baiana que amplie de 4 para 5 milhões de votos de vantagem no estado.

A deputada defendeu ainda a formação de uma bancada negra comunista robusta: “Se essas quatro candidaturas principais — a minha, a da Rejane no Rio, a da Dani Balbi, a da Dayana no Rio Grande do Sul e a do Orlando em São Paulo — saírem vitoriosas, teremos uma bancada negra comunista na Câmara. A negrada tem que chegar bonita, chegar grandona”.

Rejane Almeida e a enfermagem como trincheira racial

Do Rio de Janeiro, a deputada e candidata federal Rejane Almeida, enfermeira de formação, trouxe o recorte de classe e raça da categoria: mais de 80% são mulheres e 68% são negras e negros. Ela relatou a dificuldade de enfrentar o bolsonarismo no estado e a importância de a legenda ter migrado de uma candidatura estadual para uma federal, alterando a correlação de forças local.

“É fundamental trabalhar de forma coesa nessa frente que deu certo, para que a gente possa reeleger Lula. O governo brasileiro está passando por um processo muito difícil, principalmente no Congresso”, disse.

Juventude, Unegro e a construção nos territórios

A plenária também abriu espaço para novas vozes. Júlia Monteiro, de 20 anos, da Baixada Santista e da União da Juventude Socialista (UJS), falou da importância de a juventude ocupar espaços centrais de decisão e vinculou a luta antirracista à soberania nacional. “Esse debate racial está intrinsecamente ligado à população negra e às nossas contribuições para a reeleição do presidente Lula”, declarou.

Representantes estaduais da Unegro em Santa Catarina, Minas Gerais e Bahia reforçaram a necessidade de políticas de letramento racial, ações afirmativas e presença nos territórios periféricos. Pedro Henrique, presidente da Unegro de Pouso Alegre (MG), defendeu a regulamentação das redes sociais, o fim da escala 6×1 e a criminalização da misoginia como pautas centrais da campanha.

Ivana, militante no Rio de Janeiro, fez um apelo pragmático: “A gente precisa garantir ações expressivas em territórios periféricos. Cada estado chama de uma forma — favela, morro, bairro. É importante lembrar onde os nossos estão. E esses territórios estão tomados pelas igrejas neopentecostais, colocando nossos irmãos e irmãs pretas para votar na direita fascista”.

Comitês pró-Lula e a reta final

Ao encaminhar os próximos passos, Edson França anunciou a constituição de comitês de negras e negros pela reeleição de Lula em todo o país, articulados à campanha das candidaturas proporcionais do partido. A orientação é conectar a militância antirracista à estrutura de campanha, com atenção especial ao Nordeste — onde o PCdoB busca ampliar a votação já expressiva de 2022 — e ao Sudeste, onde o objetivo é reduzir a diferença em relação à extrema direita.

Nivaldo Santana, que em seu mandato como deputado estadual foi autor de diversas propostas legislativas sobre igualdade racial, reforçou a dimensão institucional da luta. A plenária também referendou o funcionamento do SOS Racismo e a importância de fortalecer o Ministério da Igualdade Racial em um eventual novo governo Lula.

A reunião terminou com um chamado à mobilização de rua: na sexta-feira seguinte e na terça-feira de reabertura da Câmara, estão previstas manifestações nas capitais pela jornada 6×1 e em defesa dos direitos da classe trabalhadora. “Viva o povo negro, viva a classe trabalhadora”, encerrou um dos oradores, sintetizando o tom de uma noite que misturou luto, memória e determinação eleitoral.