Foto: Ricardo Stuckert / Flickr Lula Oficial

A recuperação do emprego e da renda está entre os principais resultados do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Desde 2023, o Brasil criou 4,9 milhões de empregos formais, reduziu o desemprego e registrou aumento do rendimento médio. Para o PCdoB, os avanços devem servir de ponto de partida para uma nova etapa, capaz de ampliar esses ganhos e fazer com que a melhora dos indicadores econômicos se traduza de forma mais permanente na vida dos trabalhadores.

Essa é a perspectiva apresentada pelo Partido na contribuição ao programa de governo para as eleições de 2026, reunida no documento Rumos Soberanos para uma Nova Arrancada do Desenvolvimento. Entre as propostas estão a retomada de uma política permanente de valorização do salário mínimo, a ampliação da proteção social, medidas voltadas a trabalhadores de diferentes modalidades, políticas de crédito, renegociação de dívidas, investimento público e uma tributação mais progressiva. A reindustrialização aparece como parte dessa estratégia mais ampla de desenvolvimento.

Mais empregos e uma nova agenda para o trabalho

Os números ajudam a dimensionar a mudança. Segundo o Novo Caged, em maio de 2026 foram abertas 72.960 vagas com carteira assinada. O saldo acumulado no ano chegou a 767.326 postos, levando o estoque de vínculos formais a 47,9 milhões. Nos 12 meses até maio, foram criados 973.285 empregos, com os serviços na liderança, seguidos por construção, agropecuária e indústria.

A melhora também aparece na taxa de desemprego e na renda. No trimestre encerrado em novembro de 2025, a desocupação ficou em 5,2%, o menor patamar da série histórica iniciada em 2012. O país tinha 103,2 milhões de pessoas ocupadas e 5,6 milhões de desempregados. A informalidade recuou para 37,7%, enquanto o rendimento médio real habitual chegou a R$ 3.574, alta de 4,5% em um ano.

Para Nivaldo Santana, secretário sindical nacional do PCdoB, os resultados mostram uma mudança importante no cenário econômico e social, mas não encerram os desafios do mercado de trabalho.

“Durante o atual mandato o governo Lula conseguiu importantes indicadores econômicos e sociais positivos. De uma forma geral, mesmo com as vicissitudes da conjuntura internacional, a economia teve crescimento, a inflação permaneceu controlada e houve aumento do emprego formal e taxas pequenas de desemprego.”

A proposta do Partido parte justamente da necessidade de fazer essa recuperação chegar de forma mais permanente à renda. O documento defende a garantia legal de reajuste real anual do salário mínimo e a manutenção do piso como indexador dos benefícios previdenciários e assistenciais e do Bolsa Família. Também aponta a necessidade de elevar de forma consistente o investimento público para induzir o crescimento econômico e melhorar a renda dos brasileiros.

A valorização do trabalho, na avaliação do PCdoB, também passa pela proteção de quem não está no modelo tradicional de emprego. O documento propõe atualizar a CLT para contemplar trabalhadores de plataformas digitais, pejotizados e submetidos ao trabalho intermitente, além de incluir trabalhadores precarizados e contratados como pessoa jurídica na Previdência Social, com contribuição proporcional e acesso a benefícios. A redução da jornada para 5×2 também integra a proposta.

Nivaldo Santana aponta a precarização como um dos obstáculos que permanecem.

“É preciso superar a precarização do trabalho promovida pela reforma trabalhista do governo Temer, criar uma nova política de geração de empregos de maior qualidade e com melhores salários e regulamentar todas as modalidades de trabalho, inclusive aquelas mediadas por plataformas digitais.”

Crédito e proteção para novas formas de trabalho

A agenda de emprego e renda também alcança trabalhadores que dependem do próprio negócio, de veículos ou de plataformas para obter renda. Em 2026, foram criadas linhas de financiamento para entregadores comprarem motocicletas, motonetas, ciclomotores, bicicletas e bicicletas elétricas utilizadas na atividade profissional. O financiamento prevê prazo de até 48 meses, dois meses de carência e taxas diferenciadas para homens e mulheres.

Para motoristas de aplicativo e taxistas, o programa Move Brasil – Táxis e Aplicativos instituiu uma linha de crédito de até R$ 30 bilhões para financiar veículos novos de até R$ 150 mil. Mulheres podem ter juros menores e prazos mais longos, e as categorias também foram incluídas entre as que podem utilizar o Fundo Garantidor para Investimentos.

Os microempreendedores individuais também foram contemplados. O Projeto de Lei Complementar nº 186/2026 propõe elevar o limite anual de faturamento do MEI para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028, além de permitir a contratação de até dois empregados.

O crédito, ao mesmo tempo, aparece como instrumento para sustentar pequenos negócios. O documento do PCdoB defende que bancos públicos atuem de forma mais ativa para reduzir o custo dos financiamentos para micro, pequenas e médias empresas e que o BNDES amplie seu papel como fonte de crédito de longo prazo.

Desenrola reduz o peso das dívidas

A renda das famílias, porém, não depende apenas de quanto entra no orçamento. O endividamento compromete parte significativa dos ganhos e tornou a renegociação de dívidas uma das políticas com efeito mais direto sobre a capacidade financeira de famílias e pequenos negócios.

O primeiro Desenrola Brasil, lançado em 2023, renegociou R$ 53 bilhões ao longo de dez meses. A segunda edição, iniciada em maio de 2026, alcançou R$ 44,7 bilhões em crédito renegociado em menos de três meses — 84% de todo o volume da primeira rodada. Desse total, R$ 20,9 bilhões correspondem a pessoas físicas e R$ 23,2 bilhões ao Desenrola Empresas, voltado a MEIs, microempresas e empresas de pequeno porte.

Entre as famílias, mais de 1,13 milhão de operações foram registradas nos primeiros dias da nova edição, envolvendo aproximadamente R$ 10 bilhões em dívidas. Foram 449 mil quitações à vista, com desconto médio de 85%, e outras 685 mil renegociações por meio do Fundo Garantidor de Operações. O Desenrola Fies registrou ainda 34 mil contratos renegociados, com descontos médios de 80%.

Nos pequenos negócios, o programa havia renegociado, até 14 de maio de 2026, cerca de R$ 5,5 bilhões em 41 mil operações. O Pronampe respondeu por R$ 5,1 bilhões e 31 mil operações, enquanto o ProCred registrou 9.703 operações, no valor de R$ 396 milhões.

Os resultados ganham dimensão diante do endividamento das famílias: segundo dados do Banco Central reunidos na apuração, as dívidas chegaram a 49,9% da renda, enquanto mais de 80 milhões de brasileiros conviviam com algum tipo de dívida.

A experiência das renegociações reforça, assim, a importância atribuída pelo PCdoB ao crédito como instrumento de desenvolvimento. Ao lado do fortalecimento dos bancos públicos e do BNDES, o partido defende condições que permitam reduzir o custo do financiamento e ampliar o acesso de pequenos negócios ao crédito de longo prazo.

Menos imposto para quem ganha menos

Outra mudança que afeta diretamente a renda veio do Imposto de Renda. Desde janeiro de 2026, trabalhadores que recebem até R$ 5 mil mensais passaram a ter isenção. Para quem ganha entre R$ 5 mil e R$ 7 mil, foi criado um desconto parcial. A medida beneficia cerca de 10 milhões de brasileiros; somadas às alterações promovidas em 2023 e 2024, cerca de 20 milhões de pessoas deixaram de pagar o imposto desde o início do terceiro mandato de Lula.

A mudança para as faixas de menor renda veio acompanhada de maior tributação sobre os rendimentos mais altos. O governo criou uma tributação mínima para pessoas com renda superior a R$ 600 mil por ano que recolhem alíquota efetiva inferior a 10%. Para rendimentos anuais a partir de R$ 1,2 milhão, a alíquota chega a 10%.

O PCdoB defende aprofundar essa lógica com uma tributação progressiva e proporcional à renda e ao patrimônio dos detentores de grande riqueza. Para o partido, a mudança deve reduzir o peso dos impostos sobre trabalhadores e pobres e ampliar a contribuição de quem concentra renda e patrimônio.

Nivaldo Santana defende que a reforma alcance também os ganhos financeiros, lucros e dividendos.

“O Brasil precisa de uma reforma tributária que desonere o trabalho e os pobres, diminua os impostos sobre a produção e taxe de forma mais significativa os ganhos financeiros, lucros e dividendos, em uma palavra, cobrar mais dos ricos e menos dos pobres.”

A arrecadação, na avaliação do dirigente, também deve contribuir para financiar políticas públicas e investimentos.

“Uma política tributária progressiva cumpre o papel de assegurar recursos para o financiamento da economia e para elevar o bem-estar social.”

Desenvolvimento para sustentar os avanços

A proposta do PCdoB parte, portanto, de uma melhora já observada no emprego e na renda, mas procura criar condições para que esses resultados se mantenham e avancem. É nesse ponto que o investimento público ganha importância. O documento defende sua elevação consistente para induzir o crescimento econômico e melhorar a renda, além de reforçar o papel do Estado no planejamento e na coordenação do desenvolvimento.

A política de crédito também está ligada a essa estratégia. O partido propõe fortalecer o BNDES e os bancos públicos e defende mudanças na política macroeconômica, incluindo juros mais baixos e a incorporação do pleno emprego entre os objetivos do Banco Central. Na avaliação do PCdoB, a redução consistente da taxa básica é condição para ampliar investimentos produtivos, acelerar a geração de empregos e sustentar o crescimento.

É nesse projeto que a indústria aparece como instrumento para sustentar a melhora do mercado de trabalho. O PCdoB considera que a dependência da exportação de produtos primários e o processo de desindustrialização limitam a produtividade, o valor agregado da produção e a criação de empregos qualificados. Por isso, propõe uma política industrial voltada à transformação produtiva, ao aumento da participação da indústria de transformação no PIB e ao estímulo a serviços de maior intensidade tecnológica.

Para Nivaldo Santana, a transformação produtiva passa por um novo ciclo de industrialização. “O Brasil precisa ser vanguarda no desenvolvimento da ciência, tecnologia e inovação, explorar seus notáveis recursos, como minerais críticos e terras raras, para inaugurar um novo ciclo de industrialização.”

A transformação produtiva, na avaliação do dirigente, está diretamente ligada à qualidade dos empregos e à capacidade de elevar salários. “Um crescimento econômico robusto só se viabiliza com indústria forte, com empregos de qualidade, salários mais elevados e uma pauta de exportação mais diversificada, com ênfase em produtos com alto valor agregado.”

Para o PCdoB, a próxima etapa é fazer com que a recuperação do emprego e da renda alcance mais trabalhadores e se sustente no longo prazo. A proposta combina valorização real do salário mínimo, proteção para diferentes formas de trabalho, apoio a MEIs, entregadores e motoristas de aplicativo, renegociação de dívidas e uma tributação mais progressiva. O partido defende que essas medidas sejam acompanhadas de investimento público, crédito mais acessível e uma economia capaz de gerar empregos de maior qualidade e salários mais altos.