Os eleitores que mais relutam em decidir o voto são os que mais guardam um enorme poder em suas mãos. No estado de São Paulo, o eleitor indeciso tem perfis que podem favorecer a candidatura de Fernando Haddad (PT) ao governo do estado. 

O eleitor moderado, que costumava votar no PSDB, rejeita a candidatura bolsonarista de Tarcísio de Freitas (Republicanos), mas não sabe o que fazer agora. Com a estratégia certa, Haddad pode conquistar seu voto.

Outro dado favorável a Haddad é a rejeição crescente de Tarcísio. Entre um levantamento e outro, o bolsonarista “ganhou” 3 pontos de eleitorado que não votariam nele de forma alguma, provavelmente, efeito da campanha de segundo turno que o expõe mais.

O universo dos “eleitores voláteis” inclui os indecisos, ou seja, aqueles que não têm uma preferência, e os não convictos, que votaram em um candidato no primeiro turno, mas podem mudar no segundo. Somando tudo, os números podem chegar a até 18%. Veja como:

Embora Tarcísio mantenha uma vantagem entre 7 e 11 pontos, pela margem de erro da pesquisa estimulada DataFolha, os brancos e nulos somam 8% e 3% declaram não saber em quem votar. Quando não há sugestão de candidatos (pesquisa espontânea), o número de pessoas que não sabe em quem votar sobe para 18%. Uma quantidade de eleitores que pode decidir os rumos da eleição até dia 30. 

Ainda desse levantamento mais recente do DataFolha, da parcela que afirma ter candidato, 87% estão com o voto totalmente decidido e 13% admitem trocar de voto até o dia da eleição. Este índice é mais alto entre os mais jovens (25%) e entre os que pretendem votar em branco ou nulo (23%). O jogo é tenso: no primeiro turno, 10% dos eleitores decidiram entre a véspera e o dia da eleição.

Capital e interior

Detalhamentos como estes da pesquisa podem ser explorados pelas candidaturas. Como Haddad teve ampla vantagem na região metropolitana de São Paulo, o interior e o litoral são um campo vasto a ser desbravado. Tarcísio marca 40% na região metropolitana e 56% no interior, enquanto Haddad tem 48% na região metropolitana e 33% no interior.

Se errarem no tom de sua estratégia, os dois candidatos correm o risco de empurrar os “voláteis” para outro terreno minado: o da abstenção, que no primeiro turno alcançou quase 21,6% no estado, um número crescente a cada eleição e que pode aumentar no segundo turno.

A situação preocupa Haddad, já que o eleitor de baixa renda, que o prefere, é quem tem mais dificuldade de se locomover. Uma vitória para seu campo saiu na quarta-feira 19, com a autorização dada aos municípios pelo STF de liberar a catraca do transporte público no dia da votação, deixando a decisão final nas mãos dos 5.570 prefeitos do país. O prefeito da capital resiste a facilitar a mobilidade urbana.

No lado bolsonarista, por sua vez, a apreensão é com dois feriados prolongados, em 28 de outubro e 2 de novembro, com potencial de elevar as chances de que a parcela de renda mais alta, que tende à direita, prefira viajar a votar. 

As maiores cidades do interior estão no foco do petista, já que qualquer variação a seu favor tem maior impacto. Já foi a Presidente Prudente, onde teve 23,5% contra 59,4% de Tarcísio. Outro município no radar da campanha é Ribeirão Preto, sétima cidade mais populosa do estado. Tarcísio foi o mais votado na cidade, com 48,5% dos votos contra 32,1% de Haddad.

Para a campanha, é importante que Haddad mantenha o foco em cidades mais populosas e que sejam mais decisivas na apuração final no estado. As dez maiores cidades, em termos populacionais, correspondem a 42,6% do eleitorado no estado —só a capital representa 26,8%, segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

O trunfo Alckmin

Geraldo Alckmin (PSB), candidato a vice na chapa de Lula, tem percorrido o interior do estado para aumentar a vantagem do ex-presidente contra Bolsonaro e, de quebra, articular votos a favor de Haddad. Aliás, a estratégia o separou de Lula, que tem ido para fora de São Paulo, enquanto Alckmin concentra as agendas no estado.

Governador por três mandatos e meio, Alckmin tem ajudado a compor uma força-tarefa para melhorar o desempenho dos candidatos progressistas em São Paulo, virar a eleição de Lula no âmbito estadual e, consequentemente, a de Haddad para o governo. Desde o primeiro turno, Alckmin só saiu do estado para ir a Porto Alegre na quarta-feira (19). 

O ex-governador foi eleito três vezes ao governo estadual —na última vez, em 2014, ganhou no primeiro turno, com vitória em 644 dos 645 municípios. Seu apelo entre este eleitorado mais conservador perdeu força frente ao bolsonarismo desde 2018, mas pode atrair indecisos.

O pessebista esteve em Bauru, Mogi Mirim e algumas cidades na região do Vale do Paraíba. Embora tenha acompanhado Haddad em algumas viagens antes do primeiro turno, o plano agora é deixar Alckmin percorrer o interior paulista sozinho. 

As campanhas apontam para insatisfações no interior depois de mudanças tributárias impostas pelo então governador João Doria (PSDB) sobre alimentos e insumos agrícolas durante sua gestão. Haddad tem enfrentado estes temas com propostas para recuperação econômica destes segmentos.

Em janeiro de 2021, Doria decidiu revogar aumentos de ICMS anunciados anteriormente, inclusive a alta de zero para 13% da alíquota incidente sobre o uso de energia elétrica e os incrementos previstos para leite, carnes, peixes, hortifrutigranjeiros, farinha de mandioca e queijos, entre outros.

Agronegócio

Com uma das mais diversificadas agropecuárias do país, mas com destaque para a cana, o Estado só perde para Mato Grosso e Paraná em valor bruto da produção no setor no país. Segundo o Ministério da Agricultura, o VBP da agropecuária paulista deverá somar R$ 141,6 bilhões em 2022.

Alckmin também cumpre o papel de interlocutor para grupos específicos, como este empresariado do agronegócio. Nesta semana, gravou um vídeo de pouco menos de um minuto em que explica algumas propostas da chapa para o agronegócio e por que a atual gestão é financeiramente danosa para o setor. 

Médico de formação, na última terça-feira (18) ele se reuniu com representantes da saúde, entre médicos, servidores e empresários, para receber propostas de melhoria do SUS (Sistema Único de Saúde) e conversar com o setor privado. 

Enquanto no primeiro turno Alckmin fez algumas viagens pelo interior junto de Haddad, agora no segundo turno os dois não fizeram nenhuma incursão juntos, sem Lula, fora da Grande São Paulo —mas o objetivo é que façam mais na última semana de campanha.

Juntos, Alckmin e Haddad participaram de evento da Frente Ampla Pela Democracia, em 6 de outubro, e da missa em homenagem à Nossa Senhora Aparecida, no dia 12. 

No caso da missa, Haddad compareceu à paróquia do influente padre Rosalvino Viñayo, em Itaquera, zona leste da capital paulista, a convite de Alckmin. 

Só na última semana, Lula, Alckmin e Haddad foram juntos a eventos na capital, em São Bernardo do Campo, em Guarulhos e em Campinas. 

A campanha avalia que a presença de Alckmin já contribuiu para favorecer Lula em muitos municípios, comparado com a eleição de Haddad em 2018. Resta verificar até que ponto pode contribuir para reforçar a ligação entre o ex-governador e Haddad.

(por Cezar Xavier)