Nádia Campeão durante o Seminário Nacional de Educação Popular | Foto: Tiago Alves

Com a participação de dirigentes partidários, educadores, lideranças de movimentos sociais e militantes de mais de vinte estados, o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) realizou, em formato híbrido com sede em São Paulo, o Seminário Nacional de Educação Popular. Ao longo de dois dias de debates, os participantes discutiram os desafios da formação crítica, o fortalecimento da Rede Ocupa, o papel dos cursinhos populares na reconstrução dos vínculos com o povo brasileiro e a educação popular como instrumento estratégico para o trabalho de base e a transformação social.

A atividade foi aberta pelo secretário adjunto nacional de Juventude do PCdoB, Rafael Leal, que deu as boas-vindas aos participantes presenciais e virtuais e destacou a importância do encontro para consolidar uma política nacional de educação popular articulada aos desafios organizativos do partido. “Estamos diante de uma oportunidade de sistematizar experiências, aprender com a prática acumulada em todo o país e fortalecer uma ferramenta estratégica para ampliar nossa presença nos territórios e nossa relação com o povo brasileiro”, afirmou.

A programação teve início com uma mesa de caráter político e estratégico, reunindo a presidenta nacional em exercício do PCdoB, Nádia Campeão, e o secretário nacional de Juventude, Gustavo Petta. Os dirigentes situaram a educação popular no centro da reflexão estratégica que o partido vem realizando sobre a necessidade de fortalecer sua presença social e ampliar os vínculos políticos com as classes populares.

Para Gustavo Petta, a Rede Ocupa representa uma das mais importantes experiências organizativas construídas pelo PCdoB nos últimos anos e aponta para novas possibilidades de atuação de massas. “A Rede Ocupa já é uma das experiências mais importantes construídas pelo partido nos últimos anos. Precisamos pensar coletivamente como atuar a partir dessa rede nacional de cursinhos populares, porque a educação popular está ligada ao protagonismo das classes populares e à luta por transformações sociais, políticas e econômicas.”

Nádia Campeão relacionou o debate à experiência política recente do país e à necessidade de aprofundar o enraizamento popular das forças progressistas. “Não aproveitamos plenamente o ciclo dos governos Lula e Dilma para construir vínculos políticos mais sólidos com o povo brasileiro. A experiência do golpe mostrou essa fragilidade. Por isso, iniciativas como os cursinhos populares são fundamentais para reconstruir nossa presença nas comunidades e fortalecer a consciência crítica da população.”

Em um segundo momento, dedicado à elaboração teórica e ao aprofundamento do debate sobre a educação popular, a mesa “Os comunistas e a educação popular: história e atualização da nossa política”, foi mediada por Lucas Pinheiro, pedagogo e coordenador da Rede Ocupa no Amazonas, e reuniu Madalena Guasco, coordenadora da Comissão Nacional de Educação do PCdoB, e Yan Ivanovich, ex presidente da UBES e atualmente integrante da coordenação da Rede Nacional de Cursinhos Populares (CPOP) projeto do Ministério da Educação.

Madalena recuperou a participação histórica dos comunistas brasileiros em experiências educacionais desenvolvidas ao longo de décadas, desde as escolas operárias e campanhas de alfabetização até iniciativas culturais e populares voltadas à formação crítica da população. “A educação popular faz parte da história do Partido Comunista do Brasil. Ela não existe para recrutar pessoas para o partido, embora isso possa ser uma consequência. Sua função principal é democratizar o acesso ao conhecimento e disputar consciências em uma sociedade marcada pelo individualismo e pela fragmentação.”

Yan Ivanovich apresentou um panorama da expansão dos cursinhos populares e das políticas públicas voltadas à democratização do acesso ao ensino superior. “A Rede Ocupa já reúne mais de uma centena de cursinhos em todo o país e talvez seja a maior inovação organizativa do PCdoB nas últimas décadas. Nosso desafio é garantir acesso ao conhecimento e, ao mesmo tempo, estimular a juventude a compreender criticamente a realidade em que vive.”

O segundo dia do seminário foi aberto pela mesa “Aprendendo para não errar: as experiências exitosas dos comunistas na educação popular”, mediada por João Neto, historiador e coordenador do cursinho popular de Niterói (RJ). O debate reuniu Thaís Berg, da Rede Ocupa, Débora Irineu, coordenadora do Cursinho Popular Professora Clarice, na Bahia, e Samuel Oliveira, do coordenador da Rede Ocupa SP.

As exposições apresentaram experiências concretas desenvolvidas em diferentes regiões do país, abordando temas como pedagogia histórico-crítica, acolhimento estudantil, permanência, gestão democrática, comunicação popular, organização comunitária e sustentabilidade dos projetos.

Thaís Berg destacou que o crescimento da Rede Ocupa foi resultado da articulação nacional dos cursinhos populares e da construção coletiva de um projeto político-pedagógico conectado às realidades dos territórios. “O crescimento da Rede Ocupa foi resultado do trabalho concreto realizado nos territórios. Antes de aparecer nas redes sociais, a experiência precisou construir vínculos reais com estudantes, educadores e comunidades.”

Débora Irineu apresentou a experiência do Cursinho Popular Professora Clarice e ressaltou a importância da construção de relações duradouras com os estudantes e com as comunidades. “Nosso desafio é transformar territórios em lugares de pertencimento. Quando conhecemos a realidade dos estudantes e construímos relações duradouras com a comunidade, conseguimos enfrentar a evasão e fortalecer a permanência.”

Samuel Oliveira destacou a importância da articulação entre educação popular, políticas públicas e organização social. “A educação popular ganha força quando articula políticas públicas, organização comunitária e luta por direitos, ampliando as oportunidades concretas para a juventude trabalhadora.”

Ao longo dos debates foram compartilhadas experiências desenvolvidas em estados como Bahia, Amazonas, Piauí, Paraná, Maranhão, Amapá, Rio de Janeiro, Pará, Rio Grande do Sul e São Paulo. As apresentações demonstraram o crescimento da Rede Ocupa, a diversidade de iniciativas existentes e o potencial dos cursinhos populares como espaços permanentes de formação, acolhimento e organização comunitária.

A terceira mesa do seminário, intitulada “Cursinho como base para atuação territorial dos comunistas”, foi mediada pelo professor Maurício Gomes Pereira, mestre em Educação e dirigente da UNEGRO de Mogi das Cruzes (SP). Participaram do debate o secretário nacional de Movimentos Sociais do PCdoB, André Tokarski, o secretário adjunto nacional de Juventude, Rafael Leal, e o secretário nacional de Combate ao Racismo, Edson França.

Ao abordar os desafios da atuação territorial, André Tokarski defendeu que os cursinhos populares devem ser compreendidos como espaços permanentes de organização popular e construção da consciência social. “O território não é apenas um espaço geográfico. É onde se constroem relações sociais, identidade e consciência. Os cursinhos populares podem se tornar centros articuladores da organização comunitária e da ação coletiva nos bairros e periferias.”

Rafael Leal destacou a necessidade de conectar educação popular, prática social e trabalho de base, defendendo que os resultados políticos devem surgir da presença cotidiana junto à população. “A disputa de ideias acontece quando o conhecimento crítico se materializa na vida cotidiana. O crescimento político do partido e a formação de novas lideranças serão consequência de uma presença real e permanente nos territórios.”

Edson França ressaltou a centralidade da educação popular no enfrentamento das desigualdades estruturais que marcam a sociedade brasileira. “Em uma sociedade marcada pelo racismo, pelo patriarcalismo e pelas desigualdades, a educação popular continua sendo uma ferramenta indispensável para ampliar a cidadania e elevar a consciência política do povo.”

Após as intervenções dos debatedores, os participantes tiveram a oportunidade de apresentar contribuições que convergiram para a necessidade de fortalecer o caráter territorial da Rede Ocupa, ampliar a integração entre os movimentos sociais, enfrentar o racismo e as desigualdades de gênero, desenvolver ações voltadas à alfabetização de jovens e adultos e consolidar mecanismos de acolhimento capazes de garantir a permanência estudantil.

Também foram debatidas iniciativas relacionadas à economia solidária, à geração de oportunidades para a juventude trabalhadora, à ampliação do acesso às políticas públicas de educação, ao acompanhamento dos estudantes após o ingresso na universidade e à construção de espaços comunitários capazes de articular formação crítica, cultura, cidadania, saúde e organização popular.

Ao final do encontro, os participantes defenderam a sistematização dos debates em uma cartilha nacional de educação popular do PCdoB e reafirmaram o compromisso de ampliar a Rede Ocupa, fortalecer os cursinhos populares e consolidar uma estratégia permanente de trabalho de base que combine formação crítica, atuação territorial e organização popular.

Mais do que discutir métodos pedagógicos, o seminário reafirmou a educação popular como um instrumento estratégico para reconstruir vínculos sociais, formar lideranças, disputar valores e ampliar a presença dos comunistas junto ao povo brasileiro.

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Fotos: Tiago Alves