O atual ciclo de ofensivas — que inclui o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, o genocídio em Gaza e a tentativa de domínio sobre a Groenlândia — não é fruto de impulsos isolados, mas de uma estratégia deliberada para conter o declínio da hegemonia dos EUA diante da ascensão da China

A Plenária Municipal do PCdoB São Paulo reuniu mais de 230 militantes nesta quinta-feira (22) para debater “Os Ataques de Trump contra a América Latina e o Mundo”, em um encontro virtual marcado por uma leitura estrutural da crise internacional. 

Estiveram presentes os presidentes estadual do PCdoB, Rovilson Britto, e municipal, Alcides Amazonas. A exposição central coube ao secretário nacional de Formação e Propaganda do Partido, Adalberto Monteiro, que situou o cenário global como um período de transições, rupturas e acontecimentos simultâneos, geradores de instabilidade, incerteza e ameaças crescentes à paz.

Monteiro fez uma análise contundente da conjuntura internacional, qualificando o governo de Donald Trump como expressão do “neofascismo” norte-americano. Segundo ele, o atual ciclo de ofensivas — que inclui o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, o genocídio em Gaza e a tentativa de domínio sobre a Groenlândia — não é fruto de impulsos isolados, mas de uma estratégia deliberada para conter o declínio da hegemonia dos EUA diante da ascensão da China. 

“O trumpismo é neofascismo”, afirmou, repetindo a frase para enfatizar que se trata de um projeto político sustentado por bases materiais e ideológicas, com apoio de setores da classe trabalhadora estadunidense e global.

Declínio dos EUA e ascensão multipolar: o mundo em ruptura

Diante do declínio relativo dos EUA, a extrema direita tornou-se o instrumento político para tentar reverter perdas estratégicas, combinando ações militares, sanções econômicas e uma intensa guerra digital conduzida por big techs.

Além dos conflitos armados e do apoio a guerras e intervenções, como no Oriente Médio, Monteiro destacou a dimensão ideológica dessa ofensiva, com o uso das plataformas digitais como ferramentas de dominação e manipulação da opinião pública.

A primeira chave interpretativa apresentada foi a crise estrutural do capitalismo, descrita como um sistema em decadência, incapaz de responder às necessidades sociais e responsável pelo agravamento das desigualdades de classe, gênero e raça. Mesmo em crise, argumentou-se, o capitalismo segue subordinado ao neoliberalismo e à lógica da financeirização, expressa no rentismo global e em políticas de juros elevados.

O dirigente destacou que vivemos não apenas uma transição, mas uma “ruptura histórica” na ordem mundial. Enquanto os EUA recuam em credibilidade — evidenciado pelas fraturas expostas na OTAN durante o Fórum Econômico de Davos —, alianças como os BRICS ampliados e a Iniciativa Cinturão e Rota, com mais de 100 países, constroem alternativas baseadas no multilateralismo e no desenvolvimento compartilhado. 

“A última vez que houve mudança de hegemonia foi do Reino Unido para os EUA — dois regimes capitalistas. Agora, o rival é a China socialista. Isso torna a contradição inconciliável”, explicou. Nesse contexto, a ofensiva militar, digital e diplomática de Washington visa impedir que o mundo escape ao seu controle unipolar.

China, multipolaridade e o retorno do socialismo ao debate global

O avanço econômico, tecnológico e diplomático da China, assim como de outros países socialistas, foi apresentado como fator de revalorização do socialismo enquanto alternativa concreta ao capitalismo em crise. Iniciativas como a Nova Rota da Seda, a ampliação dos BRICS e parcerias na Ásia, África e América Latina foram caracterizadas como movimentos de resistência ao imperialismo e de promoção do desenvolvimento compartilhado.

Esse contraste, segundo Monteiro, torna-se cada vez mais visível para os povos do mundo: de um lado, a agressividade e o unilateralismo dos Estados Unidos; de outro, a defesa do multilateralismo, da cooperação e da paz por parte da China e seus aliados.

América Latina sob mira: Venezuela como aviso, Brasil como alvo central

A plenária dedicou atenção especial à América Latina, descrita como “zona de domínio absoluto” segundo a nova Estratégia de Defesa Nacional dos EUA. O ataque à Venezuela — culminado no sequestro de Maduro e Cilia Flores — foi interpretado como um “aviso” aos demais países da região. “É um sinal claro: quem se aliar à China ou à Rússia será punido”, afirmou o secretário. 

A plenária ressaltou que a nova estratégia de defesa dos Estados Unidos recoloca a América Latina e o Caribe como área de domínio prioritário, visando controlar riquezas naturais, mercados e impedir parcerias soberanas com China e Rússia. Países como Venezuela, Cuba, México e Colômbia foram citados como alvos diretos de pressões, sanções, ameaças e intervenções.

O Brasil, pela sua dimensão econômica, importância geopolítica e orientação externa soberana, foi apontado como alvo central dessa ofensiva. Na avaliação do partido, qualquer retrocesso político no país teria impactos regionais profundos, favorecendo a estratégia neocolonial estadunidense.

A ofensiva também se manifesta politicamente: governos de extrema direita já foram eleitos no Chile, Honduras, Argentina e Paraguai, enquanto cinco países — incluindo Colômbia e Brasil — enfrentarão eleições decisivas em 2026.

Contra a farsa do “Conselho da Paz” e pela solidariedade real

A plenária também rejeitou iniciativas como o chamado “Conselho da Paz” proposto por Trump em Davos — descrito como “uma farsa cínica”, sem representação palestina e com poder de veto exclusivo do próprio Trump. A análise criticou a iniciativa, vista como tentativa cínica de esvaziar organismos multilaterais, em especial a ONU.

“É uma tentativa de substituir a ONU por um clube privado do imperialismo”, criticou o secretário, reafirmando a necessidade de o Brasil manter sua tradição diplomática baseada na não intervenção e no multilateralismo.

Eleições e a centralidade da disputa política no Brasil

Como conclusão política, a plenária enfatizou que a principal contribuição das forças democráticas e populares brasileiras para a luta pela paz e pela soberania dos povos é a reeleição do presidente Lula. Um eventual retorno da direita e da extrema direita ao poder, alinhadas a Trump e às políticas imperialistas, foi caracterizado como uma vitória estratégica dos Estados Unidos na região.

Diante desse cenário, o dirigente foi enfático: “A maior contribuição que podemos dar à luta pela paz, soberania e cooperação internacional é a reeleição do presidente Lula.” Ele contrastou o programa patriótico, anti-imperialista e democrático de Lula com a postura dos candidatos de direita, que “se orgulham de ser vassalos de Trump” e apoiaram os ataques à Venezuela. 

“Se o Brasil cair nas mãos de um governo títere dos EUA, a regressão será continental — e global”, alertou. A vitória de Lula, portanto, não é apenas uma disputa eleitoral, mas um ato de defesa da autonomia nacional e da integração latino-americana.

Ao contrário, a continuidade de um governo com orientação patriótica, democrática e anti-imperialista permitiria ao Brasil seguir exercendo um papel relevante de articulação regional e internacional, em defesa do multilateralismo, da cooperação entre os povos e de uma nova ordem mundial menos subordinada aos interesses do imperialismo estadunidense.

Adalberto convocou os presentes a fortalecer a articulação regional entre Brasil, México, Colômbia, Uruguai e até Canadá, para construir uma frente comum contra a ofensiva neocolonial. “Estamos diante de uma batalha histórica — e o PCdoB estará na linha de frente.”

(por Cezar Xavier)