Goiânia sedia, nesta quarta-feira (29), o relançamento de Alma em Fogo – Memórias de um Militante Político, a autobiografia de Aldo Arantes. O evento, na Livraria Palavrear, precede a Convenção Eleitoral do PCdoB-GO, que na sexta (31) deve confirmar a pré-candidatura do autor ao Senado. Aos 87 anos, Aldo segue em atividade, e o livro ganha nova vida às vésperas das eleições gerais de 2026.

Aldo Arantes tem cerca de sete décadas de vida pública. Alma em Fogo cobre a maior parte dessa trajetória. Publicado originalmente em 2013 pela Editora Anita Garibaldi e pela Fundação Maurício Grabois, o livro entrega ao leitor um testemunho de primeira mão e de enorme valor histórico, através do depoimento de um dos protagonistas do Brasil contemporâneo.

O autor foi presidente da UNE no início dos anos 1960, fundador da Ação Popular (AP), dirigente do PCdoB, preso e torturado pela ditadura, deputado constituinte e, mais tarde, secretário de Meio Ambiente de Goiás e formulador da política ambiental de seu partido. A autobiografia acompanha esse percurso sem cair na armadilha da autopromoção. Ao contrário, transforma a experiência individual em fio condutor para narrar episódios marcantes. O título, inspirado em versos de Goethe, reflete o espírito do autor: agir com convicção integral.

Seu grande mérito está nessa perspectiva. Em vez de construir um relato centrado em sua figura, Aldo insere sua trajetória nas lutas coletivas de sua geração. O leitor acompanha a efervescência da juventude católica dos anos 1950, a ascensão do movimento estudantil, a atuação decisiva na Campanha da Legalidade ao lado de Leonel Brizola e a criação da UNE Volante.

Se a primeira parte do livro transmite entusiasmo, a segunda mergulha no período mais dramático da vida de Aldo. O capítulo sobre o golpe militar de 1964 e a vida clandestina é o coração de Alma em Fogo. A ditadura interrompeu brutalmente um ciclo de esperanças e abriu um período de perseguição implacável. A obra detalha o nascimento da Ação Popular, a resistência à ditadura, os anos de clandestinidade, a incorporação da AP ao PCdoB, a prisão após a Chacina da Lapa, a campanha pela Anistia e a redemocratização. São páginas em que a memória pessoal se encontra com a história política do país.

Essa parte mais densa do livro descreve os 11 anos em que Aldo viveu na clandestinidade e quase três na prisão. Em 1976, foi capturado na Chacina da Lapa e submetido a torturas no DOI-Codi. De dentro do cárcere, escreveu uma carta-denúncia entregue ao então presidente da OAB, Raymundo Faoro, e publicada pelo jornal O Globo em 1977 – um dos primeiros documentos a expor publicamente a violência do regime. Com a anistia, em 1979, retornou a Goiás e foi eleito deputado federal.

Ao mesmo tempo, a obra preserva um tom profundamente humano. Aldo narra as dificuldades da clandestinidade, a dor provocada pela repressão, a prisão de companheiros e familiares e o impacto da ditadura sobre sua própria vida. Tais passagens afastam qualquer romantização da resistência e revelam o custo pessoal enfrentado por milhares de brasileiros que lutaram contra o regime.

Outro aspecto que distingue o livro é sua capacidade de dialogar com diferentes momentos históricos. Os capítulos dedicados à Assembleia Nacional Constituinte de 1987/1988 mostram a intensa disputa em torno da reforma agrária, dos direitos sociais e da democratização das instituições. Aldo foi o único constituinte goiano avaliado com nota máxima pelo Diap.

Já a parte final da obra revela um autor menos memorialista e mais ensaísta. Na década de 1990, em meio a discussões sobre os desafios da esquerda após o fim da União Soviética e do bloco socialista, Aldo combate os governos neoliberais de Collor e FHC. Mais tarde, já nos anos 2000, dedicou-se à pauta ambiental, coordenando a formulação da política de “desenvolvimento sustentável soberano” do PCdoB e defendendo a incorporação da questão ambiental ao projeto socialista. A transição entre esses dois registros amplia o alcance da obra e mostra um dirigente disposto a atualizar permanentemente sua reflexão política.

Como toda autobiografia, Alma em Fogo apresenta a perspectiva de seu protagonista. O leitor encontrará interpretações firmes sobre acontecimentos históricos e uma defesa consistente das posições políticas construídas ao longo de décadas de militância. Essa característica, longe de diminuir o livro, reforça seu valor como documento histórico. Trata-se do testemunho de alguém que participou diretamente de acontecimentos decisivos da vida nacional.

Naturalmente, o tempo também impõe limites. Por ter sido lançado em 2013, o livro não alcança os acontecimentos dos anos seguintes: o golpe contra Dilma Rousseff, a ascensão da extrema direita e o retorno de Lula à Presidência da República. Tampouco registra a continuidade da atuação intelectual e política de Aldo Arantes, que inclui a idealização e a coordenação-geral da Associação dos Advogados pela Democracia (ADJC), além da publicação de mais cinco livros, como autor ou organizador.

Essa lacuna, porém, apenas reforça a atualidade do livro. Seu relançamento convida novas gerações a conhecerem uma trajetória marcada pela coerência política, pela defesa da democracia, da soberania nacional e dos direitos do povo brasileiro. Mais do que a autobiografia de um dirigente comunista, a obra preserva a memória de uma geração que enfrentou a ditadura, ajudou a reconstruir a democracia e continua oferecendo referências para pensar o Brasil.

Alma em Fogo é o depoimento de quem esteve na linha de frente. Aldo Arantes emerge das páginas como um homem que não se curvou à tirania, não se corrompeu pelo poder e nunca perdeu a fé na causa popular. Sua “alma em fogo” segue acesa. O relançamento do livro e a pré-candidatura ao Senado provam que essa caminhada, longe de terminar, retorna às suas origens para seguir adiante.

FICHA TÉCNICA

Alma em Fogo – Memórias de um Militante Político

Autor: Aldo Arantes | 492 páginas | Editora Anita Garibaldi / Fundação Maurício Grabois (2013) | Prefácio: Haroldo Lima | Posfácio: Roberto Amaral