Trump rifa María Corina e admite que EUA querem recolonizar a Venezuela
Outubro de 2025. María Corina Machado – a principal opositora interna do governo de Nicolás Maduro – aproveita os holofotes de seu Prêmio Nobel da Paz para fazer mais um aceno ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump: “Dedico este prêmio ao povo sofredor da Venezuela e ao presidente Trump por seu apoio determinado à nossa causa!”.
No mesmo dia, sem nem sequer se lembrar do nome da golpista venezuelana, o titular da Casa Branca declarou numa coletiva: “A pessoa que recebeu o Prêmio Nobel hoje me ligou e me disse: ‘Estou aceitando isso em sua homenagem, porque realmente você merecia’. Foi algo muito amável da parte dela”.
Janeiro de 2026. Passados apenas 54 dias da troca de afagos, Trump trouxe Corina de volta à realidade. Horas depois de seu governo bombardear ilegalmente a Venezuela e sequestrar Maduro, o presidente norte-americano deixou claro que será a Casa Branca que vai dar as cartas num eventual regime pós-bolivariano.
“Acho que será muito difícil para ela ser a liderança. Ela não tem o apoio ou o respeito no país”, disparou Trump durante coletiva realizada neste sábado (3). “Vamos governar o país até que uma transição adequada possa ocorrer”, agregou o presidente norte-americano.
A entrevista serviu para escancarar o “modo Trump” de ser. Sua administração não difere da tradição imperialista dos Estados Unidos – mas o faz com uma sinceridade pouco usual.
Em primeiro lugar, Trump não deu prazo para uma eventual recolonização venezuelana. “Vamos administrar o país até que seja possível realizar uma transição segura, adequada e criteriosa. Não queremos permitir que outra pessoa assuma o controle e que a situação volte a ser como foi por tantos anos. Portanto, vamos governar o país até que uma transição segura, adequada e criteriosa possa ocorrer”.
Só faltou acrescentar para qual país, exatamente, a tal transição deveria ser “segura, adequada e criteriosa”. Como se não estivesse claro, Trump insistiu: “Estamos lá agora e vamos permanecer até que a transição adequada possa ocorrer”. O governo venezuelano, por meio da vice-presidenta, Delcy Rodríguez, reagiu: “Nunca seremos colônia de outro país”.
Trump enfatizou, em outro trecho de sua coletiva, que a democracia não era a prioridade da invasão. Nem mesmo o combate ao narcotráfico – um pretexto que a Casa Branca vinha alardeando nos últimos meses para justificar a mudança no regime. Antes mesmo de ser questionado por repórteres, o presidente dos EUA admitiu que a cobiça pelas reservas venezuelanas de petróleo estava na raiz da ofensiva militar.
“Como todos sabem, o setor de petróleo na Venezuela foi um fracasso total por um longo período. Eles produziam quase nada em comparação com o que poderiam estar produzindo”, discursou Trump. “Vamos levar nossas grandes empresas petrolíferas – as maiores do mundo – para investir bilhões de dólares, consertar a infraestrutura destruída e voltar a gerar riqueza para o país.” Mas a ideia é fazer quem “grande novamente” – a Venezuela ou os Estados Unidos?
Quando um repórter lhe perguntou se as Forças Armadas dos Estados Unidos desembarcariam nos Estados Unidos, Trump reforçou a mensagem: “Vamos ter presença na Venezuela no que diz respeito ao petróleo, porque precisamos levar nossa expertise. Então, talvez seja necessário algum tipo de presença, não muita. Vamos retirar uma quantidade tremenda de riqueza do solo”.
O futuro de Maduro e da primeira-dama, Cilia Flores, é incerto. De acordo com Trump, o casal presidencial “em breve enfrentará todo o peso da justiça americana e será julgado em solo americano” – ou, mais precisamente, em Nova York. Antecipando-se ao Poder Judiciário local, o presidente estadunidense bravateou: “Em um tribunal, as provas esmagadoras de seus crimes serão apresentadas. Eu vi o que temos. É algo ao mesmo tempo horrível e impressionante que isso tenha sido permitido por tantos anos”.
A ideia da “América para os americanos” – ou do renascimento da Doutrina Monroe – ficou para a parte final de seu discurso: “Por décadas, administrações anteriores (dos Estados Unidos) negligenciaram essas ameaças. Sob a administração Trump, estamos reafirmando o poder americano em nossa região”.
Trump não quer prepostos. María Corina Machado e outros opositores serviram como “idiotas úteis” para desgastar o regime bolivariano e dar um verniz supostamente popular a um golpe de Estado. Após a captura de Maduro, Corina ousou dizer: “Chegou a hora de a soberania popular e a soberania nacional governarem nosso país. Vamos pôr ordem, liberar os presos políticos, construir um país excepcional e trazer nossos filhos de volta para casa”. Faltou combinar com a Casa Branca.


