Delegações de movimentos sociais, partidos políticos e organizações progressistas de vários países se reunirão em Havana para uma conferência internacional de solidariedade a Cuba. O encontro ocorrerá em meio ao agravamento das dificuldades econômicas enfrentadas pela ilha devido ao bloqueio imposto pelos Estados Unidos.

A cientista política Ana Prestes, secretária de Relações Internacionais do Partido Comunista do Brasil, integrará a delegação brasileira.

Segundo ela, a conferência reunirá diferentes redes do campo progressista internacional, entre elas a Internacional Progressista e o Foro de São Paulo.

Por que o PCdoB vai para Cuba?

Para o PCdoB, a solidariedade a Cuba sempre foi uma prioridade política e internacionalista. No atual momento, no entanto, essa agenda ganha um caráter ainda mais urgente.

“O PCdoB está sempre conectado com o povo cubano, com o governo cubano e com o Partido Comunista de Cuba. Para nós isso sempre foi prioridade. Hoje é uma prioridade emergencial — a prioridade das prioridades”, afirma Ana Prestes.

Essa conexão histórica se traduz em ações concretas: articulação parlamentar via Grupo Parlamentar Brasil-Cuba, presidido pela deputada Alice Portugal (PCdoB-BA); campanhas de arrecadação; formação de brigadas internacionalistas; e denúncia sistemática do bloqueio em fóruns nacionais e internacionais.

Segundo ela, o agravamento do bloqueio torna ainda mais necessário fortalecer a mobilização internacional em defesa da soberania cubana.

Campanhas de ajuda humanitária

A jornada de solidariedade envolve também campanhas de arrecadação de medicamentos e equipamentos energéticos.

Entre os itens enviados estão alimentos básicos, produtos de higiene, analgésicos e painéis solares, destinados a aliviar os impactos da crise energética enfrentada pela ilha.

As placas fotovoltaicas têm sido consideradas estratégicas.

“Em alguns casos, elas já conseguem responder por cerca de 20% da geração de energia necessária”, explica Ana Prestes.

Bloqueio como guerra econômica: questão estratégica para a América Latina

Ana Prestes classificou o endurecimento do embargo por Donald Trump — com medidas que autorizam o confisco de navios que levem petróleo a Cuba — como parte de uma estratégia regional de cerco. “O aperto maior sobre Cuba faz parte de um foco do Departamento de Estado sobre a América Latina e o Caribe”, analisou, citando também as pressões sobre a Venezuela e acordos militares com países vizinhos.

Para ela, a luta contra o bloqueio a Cuba é estratégica para o Brasil: “Como potência política e exportador de petróleo, temos capacidade de ser solidário a Cuba de forma estratégica”. A articulação com o governo Lula para envio de combustível à ilha é uma das frentes prioritárias da campanha.

Juventude na linha de frente: formação política na “garganta do monstro”

“Essas experiências ajudam a compreender melhor a resistência de Cuba e o significado da luta pela soberania e pela justiça social”, afirma.

Além do caráter humanitário, as brigadas de solidariedade têm forte componente formativo. “Principalmente para a nossa juventude, é uma oportunidade de chegar na garganta do monstro”, afirmou Ana, referindo-se à experiência de visitar Cuba sob bloqueio e conhecer de perto a resistência de um povo que, mesmo com escassez, mantém serviços universais de saúde e educação.

A vivência em Cuba, segundo a dirigente, fortalece a consciência internacionalista e a compreensão de que “Cuba dá vacina a eles mesmos, mas continua trabalhando para o bem da humanidade”.

Pressão sobre governos: Brasil pode e deve enviar petróleo

A campanha também visa pressionar governos progressistas da região a enviarem combustível a Cuba. “É uma forma de pressionar os governos a mandarem combustível pra Cuba”, disse Ana, destacando que a escassez de petróleo já dura meses e prejudica transporte, saúde e produção de alimentos.

No Brasil, a articulação passa pelo fortalecimento do Grupo Parlamentar Brasil-Cuba e por audiências com setores do governo federal. “Toda semana é mês. Agora combustível zero, né? Já vai pra três meses”, alertou.

Flotilha internacional desafia bloqueio

Um dos momentos mais simbólicos da jornada será a chegada da flotilha Nuestra América a Havana. As embarcações sairão da região de Yucatán, no México, com ativistas e doações.

A iniciativa pretende denunciar o bloqueio e demonstrar que a solidariedade entre os povos pode superar o isolamento imposto à ilha.

Cuba não está só

Ao final da entrevista, Ana Prestes sintetizou o espírito da missão: “Todo ataque a Cuba é um ataque às causas mais justas da humanidade”. A viagem da delegação brasileira a Havana não é apenas um gesto de solidariedade — é um ato político de resistência ao imperialismo e de afirmação da soberania dos povos do Sul Global.

Enquanto o bloqueio dos EUA tenta estrangular a ilha, a resposta organizada da sociedade civil internacional prova que Cuba não está só. E que a solidariedade, quando se faz ação concreta, é também uma arma de libertação.

Calendário de luta e centenário de Fidel

A solidariedade a Cuba terá desdobramentos ao longo de 2026. Confira as principais datas:

13 de agosto: Celebração do centenário de Fidel Castro, com iniciativas em todo o país.

18 de março: Atividade na Assembleia Legislativa de São Paulo;

21 de março: Lançamento da Campanha Nacional de Arrecadação de Medicamentos e chegada da Flotilha Nuestra América a Havana;

26 a 29 de março: Conferência Internacional Antifascista, em Porto Alegre;

15 de abril: Marcha das centrais sindicais em Brasília, com articulação do movimento sindical pela solidariedade a Cuba;

1º de maio: Brigadistas internacionalistas participarão das comemorações do Dia dos Trabalhadores em Cuba, entregando medicamentos coletados;

26 de julho: Dia Nacional da Rebeldia Cubana, com atividades políticas e culturais no Brasil;