O documentário Anistia 79 foi o grande vencedor da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que se encerrou no sábado (31), no Cine-Tenda, na cidade histórica de Tiradentes, em Minas Gerais. Nessa edição, a mostra – considerada “o maior evento do cinema brasileiro contemporâneo em formação, reflexão, exibição e difusão realizado no país – exibiu 137 filmes nacionais, de 23 estados.

A vitória de Anistia 79 vem no rastro do sucesso de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, confirmando a boa safra de filmes ambientados na ditadura militar (1964-1985). Embora não fosse favorito, o longade Anita Leandro recebeu tanto dos Troféus Barrocos – o do júri oficial Prêmio Carlos Reichenbach de Melhor Longa da Mostra Olhos Livres) e o do júri popular (Melhor Longa da Mostra Tiradentes). Foi a primeira vez que uma mesma produção foi agraciada pelos dois júris numa mesma edição da Mostra Tiradentes.

O filme revive a Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, realizada por exilados brasileiros em Roma, na Itália, em junho de 1979. A diretora, Anita Leandro, conseguiu 90 minutos de gravação desse que foi “o maior encontro da esquerda brasileira fora do país”. Segundo os produtores, ao rememorar e celebrar a Conferência, o documentário “reacende o debate sobre a manutenção do aparato repressivo da ditadura e a impunidade dos torturadores”.

Anita – que também é professora de cinema na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) –, tem interesse particular em projetos sobre a repressão imposta pela ditadura brasileira. A cineasta já havia lançado, em 2014, Retratos de Identificação, que foi premiado em diversos festivais.

Já em Anistia 79, ela dá voz a nomes que resistiram à ditadura e participaram ativamente da luta por uma anistia “ampla, geral e irrestrita” a exilados, presos e perseguidos políticos. É o caso de Luiz Eduardo Greenhalgh, Hamilton dos Santos, Heloísa Greco, Branca Moreira Alves e Denise Crispim.

Anistia 79 é um monumento de resistência, mas também uma mensagem clara para o futuro, em termos de mensagem”, diz o crítico Francisco Carbone. “Mas o filme nunca se acomoda em ser apenas mensagem, documento ou História; esse é um registro que merece e precisava de revisão, o que a cineasta emprega ali com a destreza de quem não apenas conhece o material, como também entende tais vestígios perdidos em um tempo de dor. Se não deixa de doer e revoltar, pelo menos consegue tornar a experiência amplamente enriquecedora.”

A 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes foi realizada de 23 a 31 de janeiro de 2026. Cerca de 38 mil pessoas marcaram presença nos nove dias de programação gratuita, que incluiu uma exibição com debate de O Agente Secreto, no dia 31.