PCdoB amplia perfil político de conferência antifascista em Porto Alegre
O Fórum Nacional dos Movimentos Sociais do PCdoB reuniu-se nesta terça-feira (24) para discutir a participação do Partido na 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, marcada para março, em Porto Alegre (RS).
A reunião contou com intervenções iniciais da secretária de Relações Internacionais, AnaPrestes, e do dirigente Raul Carrion, seguidas de debate e encaminhamentos. O objetivo foi “situar politicamente o Fórum” sobre o caráter e as implicações da conferência, que acabou ampliando seu escopo temático para o combate ao imperialismo.
Participaram representantes de diversas frentes: movimento sindical, juventude, entidades do movimento negro, mulheres e outras organizações da sociedade civil vinculadas ao campo progressista.
Por que participar?
Em sua intervenção, Ana Prestes contextualizou a origem da conferência — iniciativa articulada no Rio Grande do Sul por forças políticas como PT e PSOL — e explicou que, inicialmente, houve debate interno sobre a conveniência da participação.
Sua posição foi favorável desde o início. “Se o encontro trata do antifascismo, que é uma das nossas bandeiras centrais, precisamos estar presentes”, sintetizou.
A orientação defendida foi clara: garantir presença política qualificada — espaços de fala nas mesas, visibilidade programática e intervenção nas redes — mesmo diante de restrições materiais.
A ex-vereadora Jussara Cony relatou que o evento enfrenta limitações financeiras — a prefeitura de Porto Alegre é bolsonarista, o governo estadual tem perfil neoliberal e o apoio federal é restrito — o que exige esforço militante para garantir hospedagem, infraestrutura e mobilização.
Para potencializar a presença digital, a orientação é transformar intervenções nas mesas — serão nove ou dez, segundo os organizadores — em conteúdo para redes sociais, com cortes e ampla circulação. A conferência também coincide com o período de aniversário de 104 anos do PCdoB.
Antifascismo como eixo estratégico
Ana situou a conferência dentro de um cenário internacional marcado pela ofensiva da extrema-direita. Citou a força do bolsonarismo no Brasil e os riscos de retorno da ultradireita ao governo federal.
Segundo ela, o antifascismo não é apenas uma palavra de ordem, mas um eixo estruturante da atuação do Partido no plano internacional. O PCdoB participa de articulações como o Fórum Antifascista promovido pelo Partido Comunista da Federação Russa, iniciativas venezuelanas de caráter internacional e espaços multilaterais como o Foro de São Paulo.
A participação do PCdoB na 1ª Conferência Internacional Antifascista, portanto, não foi tratada como evento isolado, mas como parte de uma estratégia mais ampla de disputa política no plano internacional.
Nesse contexto, a conferência em Porto Alegre seria oportunidade de:
- Projetar posições do partido no debate global;
- Ampliar conexões com organizações estrangeiras;
- Reforçar campanhas de solidariedade internacional;
- Atrair novos militantes e simpatizantes.
Porto Alegre e o simbolismo político
Ana sublinhou o peso simbólico de Porto Alegre, cidade que sediou a primeira edição do Fórum Social Mundial, em 2001.
O legado do Fórum Social Mundial, segundo ela, reforça o caráter internacionalista do encontro e amplia seu poder de atração. Em um contexto de tensões globais, disputas geopolíticas e radicalização da direita, eventos com esse perfil tendem a ganhar maior centralidade.
A dirigente também mencionou o impacto de medidas do governo de Donald Trump, especialmente na política externa e comercial, como fator de mobilização política no continente.
Solidariedade a Cuba entra na pauta
Embora a conferência antifascista fosse o tema central, Ana Prestes propôs que o Fórum também compartilhasse informes sobre a campanha de solidariedade a Cuba, diante do agravamento das dificuldades econômicas na ilha.
Segundo ela, há duas frentes principais de atuação:
- Pressão política para ampliar o apoio do governo brasileiro;
- Mobilização material via arrecadações organizadas por entidades como Cebrapaz, UNE e CTB.
Ela relatou reunião virtual com mais de 60 partidos e organizações internacionais, na qual dirigentes cubanos destacaram o dia 21 de março como data de mobilização internacional. A orientação é organizar presença solidária — “por mar ou por ar” — em Havana.
Países como México, Brasil, Colômbia e Uruguai estariam entre os prioritários na articulação diplomática.
De evento restrito a articulação anti-imperialista
A intervenção de Raul Carrion, integrante da Comissão Organizadora da conferência, contou com um relato de caráter político e organizativo: explicar como o perfil inicial do evento foi alterado a partir da atuação do PCdoB.
Segundo Carrion, a concepção inicial restringia o debate ao antifascismo sob a ótica de uma contraposição genérica entre “democracias” e “autocracias”, o que excluiria países como Cuba e Venezuela do campo democrático.
A decisão do PCdoB foi não se retirar, mas disputar o conteúdo político do encontro.
A mudança de eixo: antifascismo e soberania
Carrion relatou que o primeiro movimento do partido foi defender que não há debate consequente sobre fascismo sem abordar o imperialismo. A partir dessa intervenção, o nome do evento foi alterado, incorporando a expressão “pela soberania dos povos”.
Mais que uma mudança semântica, a alteração implicou reconfiguração da programação:
- Inclusão de mesa específica sobre o Brasil e a ameaça da ultradireita;
- Criação de mesa anti-imperialista;
- Inserção do tema dos trabalhadores;
- Ampliação da presença de representações de Cuba e Venezuela.
“O evento hoje é antifascista e anti-imperialista”, resumiu Carrion.
Ampliação da presença comunista
Se inicialmente o partido não teria representantes nas mesas principais, agora contará com nove ou dez intervenções distribuídas ao longo da programação.
Entre os destaques apresentados:
- Mesa sobre solidariedade e luta anti-imperialista, com participação de Socorro Gomes e convidados internacionais como representantes da Venezuela e de centros de pesquisa críticos ao imperialismo;
- Mesa sobre trabalhadores e enfrentamento ao neoliberalismo, com presença sindical;
- Debate sobre o Brasil e a ameaça da ultradireita, com participação de Nádia Campeão;
- Mesa sobre educação, ciência e tecnologia para a soberania, com participação da UNE e articulação para presença de quadros vinculados ao Ministério da Ciência e Tecnologia;
- Conferência sobre Palestina, com representação diplomática palestina e debatedores ligados à causa.
Carrion enfatizou que o evento prevê aprovação de uma “Carta de Porto Alegre” e, possivelmente, um plano de ação internacional antifascista e anti-imperialista — não como nova organização, mas como articulação entre iniciativas já existentes, como o Foro de São Paulo.
Jussara, por sua vez, relatou a realização de reuniões preparatórias em estados como São Paulo (dia 26, na capital) e Fortaleza. A orientação é estimular pré-conferências e atos de lançamento em outras regiões, ampliando a base social da iniciativa.
Também foi aprovada a realização de uma plenária virtual na semana anterior ao evento, reunindo todos os militantes confirmados. A referência evocada foi a experiência organizativa dos Fóruns Sociais Mundiais, nos quais reuniões diárias de coordenação garantiam coesão política.
Mesas autogestionadas: foco estratégico
Um dos pontos considerados estratégicos foi a proposição de duas mesas autogestionadas sob iniciativa comunista — atividades que dependem integralmente da mobilização dos próprios organizadores:
- Venezuela e Cuba, reforçando a solidariedade e o enfrentamento às sanções;
- Socialismo e alternativas ao imperialismo, reunindo partidos comunistas e fundações.
A disputa por locais e horários ocorre conforme a ordem de inscrição.
Ana Prestes foi enfática: mesas autogestionadas exigem público garantido, organização prévia e foco estratégico. A orientação é priorizar poucas iniciativas, evitando dispersão e esvaziamento.
Dimensão política do momento
A avaliação apresentada ao Fórum foi didática: se o partido não priorizar um evento com esse perfil, corre o risco de subestimar uma arena estratégica de disputa ideológica.
No debate subsequente, foram sugeridas medidas práticas:
- Circular nacional orientando a militância a participar;
- Mobilização prioritária nos estados do Sul e Sudeste, pela proximidade geográfica;
- Plenária virtual prévia com delegações do partido;
- Organização visual (bandeiras, materiais e possível estande);
- Produção de material próprio de comunicação para circular durante o evento.
Carrion acrescentou a proposta de um jornal ou boletim específico do PCdoB para distribuição na conferência, como instrumento de afirmação programática.
Disputar para transformar
A reunião evidenciou que a participação do PCdoB na conferência não é protocolar. Trata-se de uma estratégia de disputa política, que transformou um evento inicialmente limitado em espaço mais amplo de articulação anti-imperialista.
Ana Prestes ressaltou o respeito internacional acumulado por dirigentes do partido no processo preparatório, o que amplia a capacidade de influência política do PCdoB no encontro.
A síntese política da reunião aponta para uma estratégia ativa: disputar conteúdo, garantir visibilidade e transformar a Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos em palco de afirmação do projeto político comunista no cenário global contemporâneo.




