A Conferência Antifascista encerrou neste domingo lendo a Carta de Porto Alegre com ampla contribuição de quadros comunistas

A 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, realizada entre 26 e 29 de março em Porto Alegre, teve na atuação das lideranças do PCdoB um dos eixos centrais de articulação política e teórica, num esforço coordenado de intervenção política, formulação estratégica e construção de alianças amplas. Deputados, dirigentes nacionais, sindicalistas e militantes do partido protagonizaram intervenções em todas as mesas, conectando a luta antifascista ao combate ao imperialismo, à defesa da soberania popular e à construção de um projeto socialista para o Brasil e o mundo.

Em um ambiente marcado pela convergência de movimentos sociais, partidos e intelectuais, o Partido buscou reafirmar seu papel histórico na organização da resistência democrática e popular.

A diversidade das intervenções — que reuniu parlamentares, dirigentes sindicais, intelectuais e militantes — expressou uma linha comum: a necessidade de articular a luta antifascista com agendas estruturais como soberania nacional, desenvolvimento e justiça social.

Leia a cobertura completa da Conferência: Carta de Porto Alegre propõe unir os povos contra o imperialismo e o fascismo
Ana Prestes: “As bombas que caem no Irã são destinadas a todos nós”
Feminismo e antirracismo são eixos centrais na luta antifascista
Vânia Marques: reforma agrária e agroecologia são saída para crise climática
Ana Prestes destaca unidade e solidariedade a Cuba e Venezuela
“Fascismo está no DNA do imperialismo”, afirma Socorro Gomes
Luta contra o fascismo só vence com as massas, diz Daiana Santos
Fórum de Autoridades abre Conferência Antifascista com articulação de 40 países
Defesa da educação, ciência e tecnologia é parte central da luta contra o fascismo
Socialismo é alternativa concreta na luta contra o imperialismo e a ultradireita 
Conferência Antifascista alerta para ameaças do bolsonarismo e do imperialismo
Sindicalistas conclamam trabalhadores a lutar contra a opressão fascista
Marcha antifascista toma ruas de Porto Alegre em defesa da soberania dos povos
Conferência Antifascista inicia com mesa em apoio à resistência do Irã

Parlamentares: denúncia e enfrentamento institucional

As falas da deputada Daiana Santos (RS) e do vereador Giovani Culau (Porto Alegre) destacaram o papel das instituições na contenção do avanço da extrema direita. Ambos enfatizaram a importância da ação parlamentar articulada com as ruas, denunciando retrocessos em direitos civis e sociais.

O vereador defendeu a centralidade da luta climática, já que “os povos periféricos são os mais atingidos pelos desastres gerados pelo sistema”.

Daiana sublinhou o impacto do racismo estrutural e da desigualdade no fortalecimento de projetos autoritários, enquanto Culau apontou para o cotidiano das cidades como espaço central de disputa política, onde se materializam tanto os ataques quanto as resistências.

Daiana marcou presença em múltiplos momentos da conferência. Na abertura do Fórum de Autoridades, alertou que “não existe democracia com o avanço da extrema-direita, com ódio e o ataque aos direitos políticos do nosso povo”. Durante a marcha antifascista, sintetizou: “Soberania de verdade é comida na mesa, segurança e defesa da classe trabalhadora”.

Em sua intervenção na mesa sobre ação institucional, Daiana reforçou que “a luta institucional só ganha força e vai ter o peso necessário quando ouvir as massas”. Para ela, “não vamos avançar contra esse fascismo se não tivermos essa compreensão dessa relação direta com a luta, que está no dia a dia”. A parlamentar encerrou convocando à reeleição do presidente Lula como parte da luta global contra o fascismo.

Movimento sindical e popular como eixo estratégico

A intervenção do presidente da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil) Adilson Araújo reforçou o papel do movimento sindical na construção de uma frente ampla contra o fascismo. Ao lado da presidenta da Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares) Vânia Marques Pinto, destacou-se a centralidade do trabalho e da questão agrária como dimensões estruturantes da crise contemporânea.

Ambos defenderam que o enfrentamento ao neofascismo passa necessariamente pela reorganização das bases sociais, com fortalecimento de sindicatos, movimentos camponeses e organizações populares.

Vânia denunciou a concentração fundiária no Brasil: “Apenas 23% das terras agricultáveis estão ocupadas por agricultores familiares; os outros 77% estão no monopólio do latifúndio”. Defendeu a agroecologia como caminho para produzir em equilíbrio com a natureza e alertou para a conexão entre negacionismo climático e ascensão fascista. “Derrotar o fascismo é a principal arma para avançar no combate ao negacionismo climático”, afirmou.

O líder sindical enfatizou: “Só temos dois caminhos: o socialismo ou a barbárie”. Defendeu a reeleição de Lula como “necessidade estratégica” e convocou à “radicalidade consequente” contra neofascismo e imperialismo.

Formulação política e memória histórica

Dirigentes históricos como o ex-deputado estadual Raul Carrion, a presidenta nacional do PCdoB Nádia Campeão e a dirigente do Cebrapaz Socorro Gomes trouxeram uma dimensão estratégica e histórica ao debate.

Suas intervenções resgataram experiências anteriores de enfrentamento ao fascismo e ao imperialismo, conectando-as ao cenário atual. A ênfase recaiu sobre a necessidade de unidade internacional e de reconstrução de um projeto político capaz de enfrentar tanto a ofensiva conservadora quanto as contradições do capitalismo global.

Raul Carrion, ex-deputado e dirigente do PCdoB-RS, foi um dos articuladores centrais da conferência. Sua atuação simbolizou o esforço de unidade na diversidade que marcou o evento.

Socorro Gomes, ex-presidenta do Conselho Mundial da Paz, denunciou que “no DNA do imperialismo está o fascismo”. Citando o genocídio na Palestina e os ataques ao Irã, afirmou: “O imperialismo impõe terror inaudito para saquear riquezas e dominar povos. A saída é a luta dos povos, não tem outra”. Alertou ainda para a ofensiva estadunidense na América Latina, citando acordos que transformam Paraguai e Panamá em bases militares.

Nádia Campeão, presidenta em exercício do PCdoB, traçou um panorama histórico do fascismo no Brasil, desde a Ação Integralista até o bolsonarismo contemporâneo. “O bolsonarismo é uma expressão contemporânea dessa corrente neofascista no Brasil, com nacionalismo exacerbado, caráter racista, anticomunismo visceral e culto à violência para justificar a repressão”, afirmou. Para ela, “estão profundamente combinadas a luta pela democracia e pela soberania e contra o fascismo”, destacando a reeleição de Lula como eixo central do enfrentamento em 2026.

Como sintetizou Nádia Campeão: “A história nos indica que é preciso ter uma ampla frente antifascista, democrática e anti-imperialista para a gente vencer. E podemos vencer porque vencemos em 2022 e 2023”.

Juventude, comunicação e internacionalismo

Uma nova geração de quadros também teve destaque. Amanda Harumy, da Comissão de Relações Internacionais, a presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE) Bianca Borges e o presidente da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes) Hugo Silva enfatizaram o papel da comunicação, das redes e da disputa de narrativas.

Bianca afirmou: “Não existe soberania para o nosso país sem educação, ciência e tecnologia”. Alertou para os ataques da extrema-direita às universidades e defendeu que “a universidade que queremos é aquela que promova a emancipação, que se volte para pensar os desafios da nossa sociedade”. Hugo Silva, da Internacional da Educação, reforçou a necessidade de proteger professores e educadores dos ataques da extrema direita, citando as campanhas contra a “ideologia de gênero” como instrumentos de desmobilização da educação pública.

Amanda compartilhou relato da missão de solidariedade a Cuba. “Cuba vive uma guerra sem bombas, mas com feridos e mortos”, afirmou, destacando apagões de 13 a 14 horas que impactam saúde, educação e transporte. “Placas solares já cobrem 50% da necessidade energética diária da ilha. Cada campanha conta”, disse, convocando à reativação das campanhas de solidariedade.

Protagonismo feminino

Liége Rocha, do Conselho Internacional do FSM e da FDIM, enfatizou o papel histórico das mulheres na resistência. “A luta de ideias não se dá só na academia, é no dia a dia: no ponto de ônibus, na escola, no local de trabalho, olho no olho”, afirmou, citando a expressão de Chávez: “Não somos velhos, somos juventude acumulada”.

A presença da Danielle Costa, que atuou na Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial (Sepir) do Governo da Bahia, reforçou o debate sobre interseccionalidade, articulando feminismo, antirracismo e democracia como pilares da resistência. Ela destacou que “não dá pra falar de fascismo sem falar de racismo e misoginia”. Para ela, “opressões de raça e gênero não são pautas identitárias, são estruturantes do capitalismo”. Citou que “mais de 60% do feminicídio atinge mulheres negras” e convocou à superação de “falsas polêmicas” na esquerda.

Organização partidária e articulação política

Já a secretária de Relações Internacionais do PCdoB Ana Maria Prestes e a dirigente da União Brasileira de Mulheres (UBM) Liége Rocha contribuíram com análises sobre o cenário internacional, destacando a reconfiguração geopolítica e o avanço de forças conservadoras em escala global.

Ana relatou experiência recente na caravana “Comboio Nuestra América” a Cuba. “É uma situação realmente de guerra. Tem feridos, tem todas as restrições que uma guerra impõe ao povo”, sustentou. Conectou os ataques ao Irã com o sofrimento de palestinos, libaneses, cubanos e venezuelanos: “As bombas que caem no Irã são destinadas a todos nós”. Defendeu pressão sobre governos, especialmente os de esquerda, para romper o bloqueio a Cuba, especialmente no envio de combustível.

A atuação de Ricardo Abreu de Melo, diretor na Fundação Mauricio Grabois, evidenciou o papel organizativo do partido na conferência, contribuindo para a articulação entre delegações e para a consolidação de uma agenda comum.

Sua intervenção destacou a importância da disciplina política e da construção coletiva como instrumentos fundamentais para enfrentar a fragmentação das forças progressistas.

“Alemão” sustentou que “o neofascismo que emerge após a crise de 2007/2008 repete a lógica dos anos 1930: diante de uma crise estrutural de acumulação, busca-se reorganizar a hegemonia através de um movimento de massas reacionário e irracionalista”. Para ele, “é preciso desde já iniciar um novo processo de acumulação de forças na luta ideológica e na organização popular, especialmente entre os jovens”.

Síntese: protagonismo e desafios

O balanço da participação do PCdoB na conferência aponta para um protagonismo consistente, sustentado por três eixos principais:

  • Unidade ampla contra a extrema direita
  • Centralidade das lutas sociais (trabalho, terra, direitos)
  • Articulação internacionalista

Ao mesmo tempo, as intervenções revelaram desafios persistentes: ampliar a capacidade de mobilização, disputar hegemonia cultural e construir alternativas concretas ao modelo econômico vigente.

A participação das lideranças do PCdoB na Conferência Antifascista de Porto Alegre demonstrou a capacidade do partido de articular análise teórica, militância de base e articulação internacional. Das intervenções sobre reforma agrária e agroecologia às denúncias do cerco imperialista a Cuba e Venezuela; da defesa intransigente dos direitos das mulheres e da população negra à convocação à unidade eleitoral para 2026, o PCdoB reafirmou seu compromisso com um projeto anticapitalista, ecossocialista, feminista e antirracista.

Como sintetizou a Carta de Porto Alegre, aprovada ao final do evento: “Derrotar os fascismos e o imperialismo é tarefa urgente de nossa época”. Para o PCdoB, essa tarefa passa pela construção de uma frente ampla, pela mobilização popular e pela firmeza na defesa da soberania dos povos. Em tempos de ofensiva global da extrema-direita, a conferência de Porto Alegre reafirma que a resistência também se internacionaliza — e que a luta continua.

Em Porto Alegre, o PCdoB não apenas participou — atuou como vetor de articulação política, reafirmando sua estratégia de combinar resistência imediata com projeto de transformação estrutural. (por Cezar Xavier)