A aguardada visita do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à China começou nesta quinta-feira (14) sob forte simbolismo diplomático e uma mensagem clara emitida pelo líder chinês, Xi Jinping: a relação entre as duas maiores potências do planeta deve ser guiada pela cooperação, e não pela confrontação. Ainda que a pauta econômica tenha dominado a preparação do encontro, a questão de Taiwan concentrou as atenções internacionais no primeiro dia da visita.

Xi recebeu Trump em Pequim com todas as honras de Estado. Os dois líderes visitaram o Templo do Céu, símbolo da longa continuidade histórica da civilização chinesa. Em seguida, eles participaram de um banquete no Grande Palácio do Povo, sede das principais cerimônias políticas da China.

Segundo a agência estatal Xinhua, Xi reiterou durante o encontro uma posição histórica de Pequim: “A relação China-EUA é a relação bilateral mais importante no mundo atual. Devemos fazer com que funcione e nunca estragá-la”. O líder chinês acrescentou que “os dois países têm a ganhar com a cooperação e a perder com a confrontação”.

Taiwan no centro da disputa

As declarações ocorreram em meio às crescentes tensões sobre Taiwan, ilha que é parte inseparável do território chinês. Embora a conversa tenha ocorrido a portas fechadas, diversos veículos internacionais relataram que Xi advertiu Trump sobre os riscos de uma “má condução” do tema taiwanês. O The New York Times destacou que, após o alerta chinês sobre Taiwan, os dois líderes manifestaram um tom positivo e cooperativo.

A questão taiwanesa permanece como uma das feridas abertas da geopolítica contemporânea. Após a vitória da Revolução Chinesa, liderada por Mao Zedong em 1949, o governo derrotado do Kuomintang se refugiou em Taiwan sob proteção militar dos EUA. Desde então, Pequim sustenta o princípio de “uma só China”, segundo o qual Taiwan é uma província chinesa temporariamente separada.

Washington reconhece formalmente esse princípio, conforme a Proclamação de Xangai, de 1972: “Os chineses de ambos os lados do Estreito de Taiwan sustentam que há apenas uma China e que Taiwan é parte da China”. Meio século depois, Pequim segue cobrando que Washington honre o que assinou, dado que os EUA mantêm apoio político e militar à ilha, alimentando tensões. Para a China, o tema transcende a política externa, já que se trata de soberania nacional, integridade territorial e memória histórica.

Armadilha

Foi nesse contexto que Xi evocou a chamada “Armadilha de Tucídides”, conceito popularizado pelo cientista político norte-americano Graham Allison, com base na obra do historiador grego Tucídides. A expressão sugere que conflitos se tornam mais prováveis quando uma potência emergente desafia uma potência dominante, como ocorreu entre Atenas e Esparta na Antiguidade. Allison analisou 16 casos históricos similares nos últimos 500 anos. Em 12 deles, o resultado foi conflito armado.

Ao perguntar se China e EUA serão capazes de “superar a Armadilha de Tucídides” e criar outro paradigma para as relações entre grandes potências, Xi procurou sinalizar que as divergências não precisam inevitavelmente desembocar em confronto militar. Longe das câmeras, porém, o líder chinês foi direto ao ponto: Taiwan é o assunto mais importante nas relações China-EUA.

Xi foi ainda mais explícito ao afirmar que “independência de Taiwan” e paz através do Estreito são tão irreconciliáveis quanto fogo e água. O líder chinês instou o lado norte-americano a exercer “cautela extra” ao lidar com a questão. Segundo a Xinhua, Xi transmitiu essa posição com firmeza, mas sem romper o tom diplomático que marcou todo o encontro.

Vista aos EUA

Trump, por sua vez, correspondeu. Em seu discurso no banquete, o presidente norte-americano reconheceu que os dois lados tiveram conversas positivas e construtivas – e que ambos os países devem fortalecer a cooperação para criar um futuro melhor para o mundo. E foi além: chamou Xi de “grande líder” e a China de “grande país”, declarando ter “enorme respeito” pelo povo chinês.

Nesse ponto, o comportamento de Trump contrastou com setores mais agressivos de Washington. O secretário norte-americano de Estado, Marco Rubio, afirmou que a política dos EUA para Taiwan permanece “inalterada” e advertiu a China contra qualquer tentativa de reunificação pela força. Mas suas declarações soam mais como reflexo pavloviano da retórica da Guerra Fria do que como análise política sofisticada.

O próprio Trump adotou um discurso marcado pela cordialidade e pelo pragmatismo. Durante um brinde oficial, tratou Xi como “amigo” e formalizou um convite para visita aos EUA. “É uma honra para mim estender um convite a você, senhora Peng, para nos visitar na Casa Branca em 24 de setembro, e estamos ansiosos por isso”, declarou Trump, dirigindo-se à primeira-dama chinesa, Peng Liyuan.

Estabilidade global

Xi disse ter a expectativa de trabalhar com Trump para definir o curso e conduzir o “gigantesco navio” das relações sino-americanas, de forma que 2026 dê continuidade ao passado e abra caminho para o futuro. Segundo Xi, as equipes econômicas e comerciais dos dois países produziram “resultados geralmente equilibrados e positivos” na mais recente rodada de conversações comerciais da véspera.

A Armadilha de Tucídides foi um aviso, mas as imagens desta quinta-feira em Pequim sugerem que o risco tende a ser evitado. No primeiro dia da visita, ao menos publicamente, prevaleceu a ideia defendida por Xi Jinping: a de que a estabilidade global depende mais da coexistência entre China e EUA do que da lógica da confrontação permanente.