José Renato Rabelo – o histórico dirigente do PCdoB (Partido Comunista do Brasil) que nos deixou neste domingo (15/2), aos 83 anos – nasceu em 22 de fevereiro de 1942 em Ubaíra, Sudoeste do estado da Bahia. Iniciou a militância política no clima da sucessão presidencial que elegeria Juscelino Kubitscheck presidente e João Goulart, vice, em 1955. Foi quando tomou conhecimento da Juventude Estudantil Católica (JEC) e, no último ano de estudo, assumiu o cargo de secretário-geral do grêmio estudantil, aos treze anos de idade, na Escola Nossa Senhora das Mercês, em Santo Antônio de Jesus.

Mudou-se com a família para Salvador e ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA) em março de 1963. Em 12 e3 agosto de 1965, assumiu a presidência da União dos Estudantes da Bahia (UEB), num Congresso Extraordinário. Sua candidatura foi indicação de Haroldo Lima, que estava terminando o curso de engenharia quando ele chegou à Faculdade de Medicina.

Renato conheceu Haroldo na criação da Ação Popular (AP), em fevereiro de 1963, por um grupo do qual faziam parte também Aldo Arantes, que fora presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), e Péricles de Souza, seus companheiros e camaradas pela vida afora. Ele era da equipe de direção da Juventude Universitária Católica (JUC), a principal vertente da criação da AP.  

Como presidente da UEB, foi alvo de uma investida do interventor da ditadura militar na Bahia, Juraci Magalhães, em 4 de junho de 1966, e fugiu para Belo Horizonte para participar da organização do 28º Congresso da UNE, no qual foi eleito vice-presidente. Após o mandato, como dirigente da AP fez um curso político-militar na China e se integrou à produção no campo para organizar a resistência popular à ditadura, na região de Formosa e Trombas, local onde o Partido Comunista do Brasil liderou uma revolta camponesa na década de 1950.  

Na AP, foi um dos líderes do processo de criação da Ação Popular Marxista-Leninista (APML), que se incorporou ao PCdoB em 1973. Ele e Haroldo Lima selaram a incorporação numa reunião com João Amazonas e Pedro Pomar. Ambos, além de Aldo Arantes, se integraram ao Comitê Central e à Comissão Executiva do Partido. Outros dirigentes da APML também passaram a integrar o Comitê Central.

Formulador teórico e organizador

Em junho de 1974, Renato assumiu a tarefa de organizar uma rede para dar retaguarda a eventuais sobreviventes da Guerrilha do Araguaia. Sua ida para a região, por conhecê-la dos tempos da AP, foi sugestão de João Amazonas. Em pleno debate sobre os caminhos do PCdoB após a Guerrilha, deixou o país, junto com Amazonas, para cumprir tarefas no exterior. Na China, receberam a notícia da Chacina da Lapa, em 16 de dezembro de 1976, quando a ditadura assassinou e prendeu dirigentes do PCdoB.

Impedidos de voltar ao Brasil, estabeleceram-se em Paris, França, onde estava o histórico dirigente comunista Diógenes Arruda Câmara e estabeleceram uma direção provisória do Partido. Renato conviveu intensamente com Amazonas nesse período. Foram se conhecendo mutuamente, na convivência e nas responsabilidades da direção. “O Amazonas fez uma certa descoberta em relação a mim e eu fiz uma descoberta maior ainda em relação a ele”, afirmou.

Retornaram ao Brasil com a anistia de 1979, iniciando uma nova fase de estruturação do PCdoB. Renato assumiu tarefas organizativas, entre elas a formação de entidades juvenis, em especial a Viração e a União da Juventude Socialista (UJS). Destacou-se também na luta pelo fim da ditadura militar e pela legalização do PCdoB. Iniciou, então, a trajetória de formulador teórico, organizador e dirigente do Partido. No 6º do PCdoB, em 1983, elaborou importantes documentos de avaliações conjunturais e organizativas.

Foi, também, ativo participante da elaboração programática do Partido, iniciada no 7º Congresso, em 1988, e avançada no 8º Congresso, em 1992, chegando à coordenação dos trabalhos do Programa Socialista para o Brasil, aprovado na 8ª Conferência, em 1995.

Em 2009, Renato liderou o trabalho de pesquisa e reflexão teórica que promoveu um novo salto de qualidade no pensamento programático dos comunistas. O 12º Congresso, realizado em 2009, aprovou um novo Programa, preservando os fundamentos do anterior e avançando ao delinear rumo e caminho para a revolução brasileira. O rumo é o socialismo e o Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento (NPND), o caminho.

Nesse período, Renato destacou-se também na luta política como ativo protagonista da união da esquerda e de sua ampliação no combate ao projeto neoliberal na década de 1990 e nas vitórias e governos dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Choque com a morte de João Amazonas

Sua presença no cenário político se agigantava à medida que as bandeiras democráticas, populares e progressistas exigiam abnegação e desprendimento. No Congresso do PCdoB, em 1997, disse: “A categoria construção partidária se constitui de três partes: a política como fator orientador, a ideológica como fator aglutinador, a orgânica como fator realizador.”

Em dezembro de 2001, no 10º Congresso, Renato assumiu a presidência do Partido. Amazonas dizer que ele era um bom camarada, que vinha se destacando no Partido e procurando seguir suas tradições de luta. A morte de Amazonas, na tarde de 27 de maio de 2002, foi duramente sentida ele. “Eu raramente choro, mas chorei”, disse sobre quando recebeu a notícia quando estava tarefa partidária em Cuba. “Foi um choque muito grande”, afirmou.

Sua presença nos principais acontecimentos dos governos Lula e Dilma foi marcante. Com sua conduta sóbria e combativa, conquistou respeito admiração de ambos, assim como das forças políticas que participaram daqueles governos. No Partido, também conquistou autoridade por sua densidade intelectual e capacidade organizativa, fazendo dos comunistas brasileiros uma representativa força política no cenário político nacional, também respeitada entre amplas organizações revolucionárias de outros países.

Foi, também, um entusiasmado defensor da criação da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB). No ato político de abertura do Congresso de fundação da central, em 12 de dezembro de 2007, em Belo Horizonte, alertou para o agravamento da crise, da qual as principais vítimas eram os trabalhadores, como ocorre no capitalismo.

Nesse período de acumulação de forças, o PCdoB aumentou a sua representatividade, elegendo, em 2010, quinze deputados federais e dezoito estaduais, além da senadora Vanessa Grazziotin, no Amazonas. Com Vanessa, o PCdoB passou a ter dois senadores – Inácio Arruda fora eleito em 2006 pelo Ceará. Em 2014, o PCdoB elegeu dez deputados federais, vinte e cinco estaduais e o governador do Maranhão, Flávio Dino.

Sobre o encerramento de seu ciclo na presidência do Partido, quando, em 2013, propôs Luciana Santos para substituí-lo, declarou: “Foi uma das atitudes mais serenas e mais justas que tomei. Não foi uma corrida de revezamento.” De fato, foi um processo de pacientes consultas e de debates no âmbito da direção do Partido, que guarda semelhança com a sua indicação para presidente do Partido por Amazonas. “O PCdoB forjou uma corrente revolucionária, preservando a identidade comunista”, disse. “Teve a maturidade de rejuvenescer e renovar a luta pelo socialismo.”

Renato também foi ativo internacionalista e anti-imperialista, participando de debates e elaborações em fóruns internacionais. Visitou organizações revolucionárias em diferentes regiões do planeta e recebeu diversas lideranças, fortalecendo laços de amizade e cooperação, em especial com a China, Cuba e Vietnã.

Um sopro de inspiração

Na presidência da Fundação Maurício Grabois, Renato também teve intensa produção. Organizou atividades com outras fundações partidárias, produziu documentos e apresentou ideias para enfrentar a onda reacionária e golpista que se levantou no país e levou a extrema direita ao governo, com Jair Bolsonaro na Presidência da República, eleito em 2018.

No 15º Congresso, em 2021, declarou “É nossa tarefa de primeira ordem reunir um amplo espectro de forças políticas democráticas em torno de um objetivo comum: derrotar Bolsonaro e criar as condições para iniciar um programa de reconstrução nacional, com bases democráticas, que permita a implantação de um novo projeto de desenvolvimento para o país.”

Uma de suas últimas grandes tarefas foi a participação na elaboração de sua biografia, Vida, ideias e rumos, lançada em 2025, em longas conversas com o autor, Osvaldo Bertolino. É um amplo painel de sua trajetória, descrita em 848 páginas, com apresentações de Lula e Dilma, Prefácio de Luciana Santos e Posfácio de Adalberto Monteiro, secretário nacional de Formação e Propaganda do PCdoB.

No Prefácio, Luciana escreveu: “Conhecer a história de Renato é fundamental para quem quer entender o PCdoB e sua influência na construção do legado histórico nacional. Além disso, é um sopro de inspiração que renova nossa energia nesse trabalho cotidiano de transformar o mundo e construir oportunidades iguais para toda a gente.”

Adalberto, no Posfácio, escreveu: “Quando uma árvore, por seu porte, por suas raízes profundas, por inúmeras floradas e iguais colheitas proporcionadas, por tantas sementes dela germinadas, desponta-se em uma alta floresta, vem de quem a enxerga a indagação de quanto disso e daquilo ela teve de enfrentar e vencer para adquirir aquela presença destacada, valorizada, naquela paisagem por si só rica e diversa.”

Viva Renato Rabelo!

Viva o PCdoB!

(Edição: André Cintra)