A Secretaria Nacional de Combate ao Racismo do PCdoB emitiu nota na qual rechaça a manifestação de racismo protagonizada deputada estadual Fabiana Bolsonaro (PL) na Assembleia legislativa de São Paulo.

A recente encenação da parlamentar, ao pintar o próprio corpo para simular uma identidade racial, diz o documento, “não pode ser tratada como um ato isolado; trata-se de uma manifestação consciente de um projeto político que instrumentaliza a opressão para produzir espetáculo, tensionar limites institucionais e mobilizar setores reacionários da sociedade”.

Leia a íntegra.

Nota do PCdoB sobre a manifestação de racismo na Alesp

A recente encenação protagonizada na Assembleia Legislativa de São Paulo pela Deputada Fabiana Bolsonaro (PL/SP), ao pintar o próprio corpo para simular uma identidade racial, não pode ser tratada como um ato isolado, trata-se de uma manifestação consciente de um projeto político que instrumentaliza a opressão para produzir espetáculo, tensionar limites institucionais e mobilizar setores reacionários da sociedade. No caso em tela intenciona, também, desqualificar a representação por fraude na autodeclaração racial à justiça eleitoral protocolada com assinaturas de 18 deputados(as) na Comissão de Ética da Alesp.

Para o PCdoB, a questão racial no Brasil não é uma abstração identitária que possa ser manipulada ao sabor da vontade individual. Ela é um fenômeno sociopolítico, produto histórico de um processo de formação social marcado pela escravidão, pela superexploração do trabalho e pela permanente marginalização da população negra nas estruturas econômicas, políticas e simbólicas do país. O racismo, portanto, não é apenas uma opinião ou uma performance: é uma engrenagem fundamental da reprodução das desigualdades de classe.

A prática de simular a negritude, historicamente associada ao blackface, carrega um legado de desumanização, caricaturização e negação da humanidade de pessoas negras. Ao resgatar esse gesto no interior de uma instituição pública, a parlamentar não apenas desrespeita a memória histórica das lutas do povo brasileiro, em especial da população negra, como também reafirma, ainda que sob o disfarce de “provocação”, uma lógica de poder que transforma uma dívida social em instrumento de disputa política.

Além disso, o episódio se insere em uma ofensiva mais ampla contra sujeitos historicamente oprimidos, articulando raça e gênero como campos de ataque visando vantagem política. A tentativa de deslegitimar identidades e experiências concretas, sobretudo de mulheres negras e pessoas trans, revela o esforço de desorganizar politicamente aqueles que, nas últimas décadas, têm tensionado as estruturas de exclusão e reivindicado participação efetiva na vida pública.

É preciso afirmar com clareza: não há crítica legítima à política identitária que se sustente na reprodução de práticas racistas. Não há debate honesto quando o ponto de partida é a negação da história e da materialidade das opressões.

O PCdoB repudia veementemente essa atitude e reafirma a necessidade de uma luta política que compreenda a importância da questão racial e de gênero na formação da classe trabalhadora brasileira. A emancipação não será construída pela negação dessas dimensões, mas pela sua incorporação crítica em um projeto coletivo de transformação social.

Diante disso, o PCdoB defende:

  • A responsabilização política e institucional de atos que reproduzam práticas racistas;
  • O fortalecimento das pautas do movimento negro e dos movimentos de mulheres e pessoas LGBTQIA+;
  • A construção de uma unidade de classe que não apague, mas enfrente as múltiplas determinações da exploração e da opressão no Brasil.

A luta contra o racismo e o patriarcado não é acessória: ela é parte constitutiva da luta contra o próprio sistema que os produz e reproduz.

Secretaria Nacional de Combate ao Racismo do PCdoB

São Paulo, 21 de março – Dia Internacional pela Eliminação do Racismo

(PL)