México, 1970: quando o Brasil transformou futebol em arte e venceu o tempo
Eles entravam em campo vestidos de amarelo e, enquanto elevavam o futebol ao status de arte, carregavam igualmente o peso de um país partido ao meio. A Seleção Brasileira que venceu brilhantemente a Copa do Mundo de 1970 protagonizou um evento esportivo inesquecível – mas também um acontecimento político.
Dentro de campo, aquele Mundial foi o instante em que o esporte alcançou um novo patamar. O futebol jogado no México, especialmente pelo Brasil, sintetizou uma forma singular de beleza coletiva. A conquista em definitivo da Taça Jules Rimet ocupa um território raro, quase mitológico, em que a Seleção Brasileira transformou improviso em método, arte em estratégia e alegria em disciplina tática.
Fora das quatro linhas, vivia-se o momento mais sanguinário da ditadura militar (1964-1985). O título representou as contradições profundas desse Brasil que sorria diante das telas enquanto a tortura corria nos porões do regime. Os militares tentaram sugar o brilho da conquista para si, mas não conseguiram por completo. O tri pertencia à rua, aos bares e à ginga que a ditadura tentava extirpar.
O caminho para a Copa
Antes da sinfonia, a Seleção Brasileira quase tropeçou na própria partitura. A caminhada para o México começou antes da Copa e foi carregada de drama, política e ideologia. O Brasil havia fracassado no Mundial de 1966. Pelé foi caçado em campo. Garrincha desapareceu da cena. O futebol brasileiro parecia velho diante da organização europeia e saía traumatizado da Inglaterra.
Em fevereiro de 1969, a CBD (Confederação Brasileira de Desportos) surpreendeu ao anunciar o jornalista João Saldanha, ex-técnico do Botafogo, para comandar a seleção. Homem de língua afiada, dedo em riste e temperamento intempestivo, Saldanha era militante do PCB (Partido Comunista Brasileiro). Nelson Rodrigues o alcunhou de “João sem Medo”.
Foi, de fato, sem medo que ele reorganizou a Seleção Brasileira e a tirou do atoleiro. Com um futebol ofensivo e vistoso, classificou o Brasil para o Mundial com uma sequência impecável de seis vitórias em seis jogos nas Eliminatórias, feito raro até para potências sul-americanas. O ataque deslanchou, com 23 gols. Tostão virou cérebro ofensivo. Jairzinho ganhou confiança. Pelé recuperou protagonismo. Gérson passou a reger o meio-campo com passes diagonais. Os 11 titulares ficaram conhecidos como “as feras do Saldanha”.
Mas o comandante das “feras” ostentava um problema insolúvel para a ditadura: a autonomia. Avesso a interferências, o técnico não aceitava palpites nem da CBD, nem do governo. Na véspera da convocação final, em reunião com a comissão técnica, especulou cortar Pelé, então atormentado por lesões e cobrado pela imprensa. Os cartolas e os militares viram heresia.
A gota d’água veio num embate direto com o regime. Um emissário do presidente Emílio Garrastazu Médici sugeriu convocar Dario, o Dadá Maravilha, para “atender a um pedido do povo”. Quando um repórter gaúcho questionou Saldanha sobre o pedido do general-ditador, a resposta atravessaria décadas, mas lhe custaria o cargo:
“Eu e o presidente – ou o presidente e eu – temos muitas coisas em comum. Somos gaúchos. Somos gremistas. Gostamos de futebol. E nem eu escalo ministério, nem o presidente escala time. Você está vendo que nós nos entendemos muito bem.”
Era uma afronta simbólica num país mergulhado desde o final de 1968 no Ato Institucional Número 5 (AI-5). O Brasil sob Médici tinha o “milagre econômico” e o auge da repressão política. Enquanto índices de crescimento ganhavam destaque na propaganda oficial, presos políticos eram torturados nos porões do regime. O governo entendia perfeitamente a potência do futebol como instrumento de coesão nacional. Ganhar a Copa significava produzir um país imaginário: harmonioso, vencedor, unido e moderno.
Saldanha ficou inconveniente demais. A menos de três meses para o Mundial-1970, entre pressões políticas do regime e frituras internas, a CBD o demitiu. Oficialmente, ele caiu por divergências técnicas e problemas de saúde. Extraoficialmente, era impossível para os militares permitir que a grande epopeia nacional tivesse como líder um comunista indomável.
A campanha épica
Quem assumiu a seleção foi Mário Jorge Lobo Zagallo, que aceitava as regras do jogo, mesmo as que não estavam escritas. A troca ainda provoca debates. Há quem veja injustiça histórica com Saldanha. Há quem diga que Zagallo deu ao time equilíbrio definitivo. Os dois argumentos são verdadeiros ao mesmo tempo.
Zagallo entendia futebol como poucos. Tinha a experiência do bicampeonato mundial como jogador e uma inteligência tática muito acima do seu tempo. Herdou um elenco extraordinário e fez dele uma arquitetura quase perfeita, que desafiava a lógica posicional do futebol. A formação brasileira parecia impossível até no papel: Felix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo e Gérson; Jairzinho, Pelé, Tostão e Rivellino.
Com audácia, o técnico decidiu alinhar cinco camisas 10 originais em seus clubes, sem engarrafamento de talento. Pelé, o rei universal em sua última Copa, não precisava mais provar nada a ninguém, apenas coroar a trajetória. Tostão era o falso centroavante que antecipou em décadas a ideia do “9 móvel”. Rivellino, de bigode, canhota vulcânica e chute de três dedos, encarnava a malandragem que não se curva. Gérson, o “Rei do Rio”, o “Canhotinha de Ouro”, retinha a bola e ditava o tempo do jogo, esperando o momento exato em que a defesa adversária se partia para dar lançamentos precisos. E Jairzinho, uma locomotiva em campo aberto, parecia predestinado.
Havia, ainda, um detalhe quase literário: três canhotos geniais, Gérson, Tostão e Rivellino, conduziam a imaginação brasileira pela esquerda do campo, como se a própria geometria do futebol tivesse decidido inclinar-se para um lado. Os europeus criticavam a “frouxidão” do trio, sem entenderem que a pausa e a imprevisibilidade eram trunfos do Brasil.
O resultado foi um futebol que o uruguaio Eduardo Galeano mais tarde descreveria como uma obra de arte coletiva, onde a bola parecia procurar os pés dos poetas, e não o contrário. A Seleção Brasileira, escreveu Galeano, “jogava um futebol que vinha do samba e ia para o sonho”.
A Copa do México carregava outra singularidade histórica. Pela primeira vez em 40 anos de competição, cinco campeões mundiais estavam reunidos no torneio: Brasil (1958 e 1962), Uruguai (1930 e 1950), Itália (1934 e 1938), Inglaterra (1966) e Alemanha Ocidental (1954). Quatro chegaram às semifinais. Três deles, Brasil, Itália e Uruguai, podiam conquistar em definitivo a Taça Jules Rimet, honraria reservada ao primeiro tricampeão. Outro fator que contribuía para a qualidade da disputa era o número reduzido de seleções no Mundial, apenas 16, três vezes menos que as atuais 48 classificadas para a Copa de 2026.
Se 1954 foi a Copa da avalanche de gols (140 em 26 partidas, média de 5,38 gols por jogo), 1970 foi a Copa do mais alto nível técnico, com tantos gigantes em campo, fluidez, fair play e densidade estética. Alemanha e Itália fizeram a “Partida do Século” na semifinal. O Uruguai ainda assustava com os fantasmas de 1950. A Inglaterra de Bobby Charlton e Gordon Banks era a campeã mundial. E o Brasil, apesar de desacreditado, sobressaiu ao atravessar esse cenário.
A campanha brasileira no México foi um crescendo. Na estreia, vitória por 4 a 1 sobre a Tchecoslováquia. Pelé, vendo o goleiro Viktor adiantado, tentou marcar de longe, da meia-lua. A bola passou a dois palmos da trave, mas o lance entrou para a memória do futebol. Como aconteceria também na semifinal, ao receber um lançamento nas costas da defesa uruguaia e driblar o goleiro Mazurkiewicz sem tocar na bola. Carlos Alberto Torres, capitão daquela seleção, dizia que aquele drible foi melhor do que qualquer gol que ele havia visto.
Diante da Inglaterra, veio o jogo mais emblemático e falado da fase de grupos. Ali estavam, frente a frente, os campeões dos três últimos Mundiais. Num cabeceio de Pelé à queima-roupa, Gordon Banks fez a defesa mais famosa da história das Copas. O próprio Pelé gritou gol antes de a bola ser espalmada. Depois, parou, olhou e disse: “Meu Deus”. A frase foi registrada como parte do patrimônio oral do esporte. O Brasil venceu por 1 a 0, gol de Jairzinho.
O mundo começou a perceber que aquela seleção era tão talentosa quanto madura. Veio depois o 3 a 2 sobre a Romênia, com dois gols de Pelé. Se no papel o Grupo C parecia equilibrado, na prática o Brasil o transformou num recital. No mata-mata, contra o Peru de Didi, antigo ídolo brasileiro e agora treinador adversário, o Brasil venceu por 4 a 2, num jogo em que Tostão participou de três gols.
Na semifinal contra o Uruguai, o carrasco de 1950, a memória do Maracanazo pairava como nuvem antiga. Quando Cubilla abriu o placar para os uruguaios, parecia que um fantasma regressava do passado. Mas Clodoaldo empatou. Jairzinho virou. Rivellino fechou. Ainda restou tempo para Pelé desnortear Mazurkiewicz e perder um gol incrível.
O Brasil pisaria novamente numa final de Copa contra a Itália de Mazzola e Riva. Campeões europeus de 1968, os italianos traziam tradição, ferocidade defensiva e o embalo emocional da vitória épica sobre a Alemanha Ocidental por 4 a 3. Era uma seleção cascuda, experiente, sofisticada taticamente.
O jogo que mudou o esporte
A final em 21 de junho de 1970, diante de 107 mil pessoas no Estádio Azteca, é uma aula audiovisual de futebol. O Brasil sobrou. Pelé, em sua última aparição em Copas, jogou com a majestade de quem sabia que estava moldando a eternidade.
Foi o Rei que abriu o placar com uma cabeçada monumental, subindo sobre Burgnich como se permanecesse suspenso no ar. Boninsegna empatou após um erro defensivo brasileiro. Gérson fez 2 a 1 com um chute de fora da área, de esquerda, com devastadora precisão. Jairzinho ampliou (e, com esse gol, tornou-se o único jogador a marcar em todas as partidas de uma Copa).
Então, após uma sequência de toques, veio o quarto gol, talvez o gol mais famoso da história das Copas. Clodoaldo driblou quatro italianos no meio-campo. Rivellino abriu pela esquerda. Jairzinho prendeu a defesa. Pelé recebeu e, sem olhar, rolou para Carlos Alberto chegar em velocidade, batendo no canto do goleiro Albertosi. “Não foi um gol, foi um manifesto”, resumiu Eduardo Galeano.
O Brasil venceu por 4 a 1, concluiu uma campanha tão perfeita quanto a das Eliminatórias (novamente com seis vitórias em seis jogos) e ficou com a Taça Jules Rimet. Ela seria roubada em 1983 e nunca mais encontrada, mas isso é tema para outra crônica.
Aos 29 anos, Pelé se tornou o primeiro (e, até hoje, único) atleta tricampeão mundial, despedindo-se das Copas como figura planetária, no pico absoluto de sua carreira. Era a Copa da redenção: em 1966, ele havia sido sistematicamente derrubado e a seleção foi eliminada ainda na fase de grupos. Quatro anos depois, no calor do México, ele estava mais sábio, paciente e preciso. Fez quatro gols no torneio, distribuiu assistências com uma generosidade calculada e participou diretamente de lances eternos. Em muitos sentidos, 1970 encerra a era clássica de Pelé e inaugura sua dimensão definitiva de mito.
Eric Hobsbawm considerou aquela Copa o primeiro grande espetáculo global da televisão. Segundo o historiador britânico, o futebol se firmou como um fenômeno de identidade coletiva global, uma linguagem universal da modernidade – e a Seleção Brasileira de 1970 foi sua expressão mais acabada. O timaço liderado por Pelé forjou uma imagem internacional de Brasil.
A ditadura – que patrocinava a seleção com ufanismo forçado – tentou ao máximo se apropriar dessa imagem para capturar o sentimento nacional. O jingle Pra Frente Brasil transformou patriotismo num hino de unificação falsa, em que o esquadrão canarinho era cortina de fumaça para censura, perseguição política, violência institucional e assassinatos. Médici aparecia nas fotos segurando um radinho de pilha para ouvir os jogos, construindo a imagem do presidente-torcedor. Os jogadores carregavam a pressão de representar a alegria nacional e, ao mesmo tempo, servir de vitrine para um regime autoritário.
Após a conquista, a propaganda oficial explorou ainda mais exaustivamente o time. Parte da esquerda brasileira tratou o Mundial como produto da manipulação militar e se recusou a comemorar o tri. Era um erro compreensível, mas, ainda assim, um erro. O futebol jogado pela Seleção Brasileira no México pertencia ao povo muito antes de ser associado ao regime.
A imagem que o mundo viu não era de soldados com armas nas mãos, mas de malabaristas com a bola nos pés. Nenhuma ditadura produz espontaneamente um passe de Gérson. Nenhum governo fabrica a inteligência de Tostão. Nenhum aparelho repressivo inventa a alegria torta do drible de Rivellino. Nenhum slogan estatal cria Pelé. A ditadura tentou sequestrar o tricampeonato politicamente, mas não conseguiu sequestrar sua beleza.
Ironicamente, o time que a ditadura queria como vitrine era composto por homens que, em sua maioria, nada tinham de militares, ordeiros ou dóceis. Tinham, sim, ginga, improviso, beleza imprevisível. Eram, em campo, tudo aquilo que os militares temiam fora dele.
Mais de meio século depois, a Seleção de 1970 permanece como parâmetro quase impossível. Quando alguém fala em “futebol arte”, normalmente está falando daquele time, mesmo sem perceber. A ideia de que jogar bem é uma obrigação moral tanto quanto marcar gols tem sua certidão de nascimento naquela campanha brasileira. Da mesma maneira, a projeção do Brasil como pátria criativa da bola nasce ali em escala mundial.
Não que as seleções campeãs em 1958 ou 1962 fossem menos técnicas. Mas o Mundial-1970 foi o primeiro a ser transmitido em cores para o mundo inteiro, o primeiro a existir visualmente na memória coletiva global. O Brasil de 1970 foi o espelho mais generoso que o país já ofereceu de si mesmo ao mundo: inventivo, alegre, coletivo sem ser uniforme, brilhante sem ser frio.
Outras seleções brasileiras venceram Copas depois disso. Nenhuma jogou com tamanha abundância estética. O time tricampeão resolveu uma contradição rara no futebol: ganhar e encantar ao mesmo tempo. Enquanto certas equipes vencem torneios, a lendária Seleção Brasileira de 1970 venceu o tempo.



