“Renato foi um político com P maiúsculo. Militante exemplar; dirigente competente; formulador político destacado.” A definição de Ronald Freitas, membro do Comitê Central do PCdoB, sintetiza o sentimento que hoje percorre as fileiras comunistas e democráticas do país diante da partida de Renato Rabelo. Sua história se confunde com a própria trajetória da resistência democrática e popular no Brasil nos últimos 65 anos.

Ronald, que o conheceu ainda nos anos 1960 na Juventude Universitária Católica da Bahia, também registrou: “Relembrar essa trajetória, em um momento tão sofrido como esse, é difícil. A emoção embarga o raciocínio. Mas precisamos frisar: “Os que aqui ficam, devem se espelhar no exemplo de Renato e dar continuidade à luta pela qual ele dedicou a vida. A luta por um Brasil: soberano, independente, desenvolvido e socialmente mais justo, condição para que possamos obter a emancipação do proletariado e do povo dos grilhões do capital”.

Um líder que atravessou gerações…

Renato iniciou sua militância ainda adolescente, no movimento estudantil baiano. Defendeu a posse de João Goulart em 1961, enfrentou o golpe de 1964 como presidente da União dos Estudantes da Bahia e, na clandestinidade, tornou-se vice-presidente da UNE. Viveu a repressão, a luta armada, o trabalho político no interior do país, o exílio na França após a Chacina da Lapa e a reconstrução partidária depois da Guerrilha do Araguaia.

Integrou a Ação Popular (AP), que se incorporaria ao PCdoB em 1972. Tornou-se membro do Comitê Central e ajudou a reorganizar o Partido em meio à brutal repressão. No exílio, manteve viva a estrutura partidária, articulando a resistência internacional até retornar com a Anistia, em 1979, disposto a reconstruir a organização sob a liderança de João Amazonas.

Mas Renato não foi apenas um combatente: foi um dirigente estratégico. Nivaldo Santana, secretário Sindical Nacional do PCdoB, destacou: “Sua capacidade de desenvolver a teoria marxista aplicada à realidade brasileira e sua grande sagacidade política, capaz de combinar a amplitude política sem descuidar dos objetivos estratégicos do Partido.”

Essa combinação foi decisiva quando assumiu a responsabilidade de liderar o PCdoB após a morte de Amazonas. Coube a ele preservar a linha histórica do Partido e projetá-lo para novos tempos. Esteve à frente em momentos decisivos: celebrou vitórias democráticas, como a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, e enfrentou com coragem o golpe de 2016 contra a presidenta Dilma Rousseff. Sua voz foi firme na denúncia do impeachment sem crime e na defesa intransigente da democracia.

Como bem frisou Rovilson Britto, presidente estadual do PCdoB de São Paulo: “Seu amor pela pátria, sua generosidade e sua capacidade de ensinar formou uma geração de lutadores”. Nas mesma linha, o vereador pelo PCdoB/Campinas, Gustavo Petta, afirmou, Renato se construiu “íntegro, coerente, justo e revolucionário. Liderava pelo exemplo e pela capacidade.”

Também com forte emoção e ciente do papel de Rabelo para o Brasil, a artista e deputada estadual pelo PCdoB/SP, Leci Brandão lembrou: “Renato é e sempre será uma referência de pensamento, de dignidade e de compromisso real e concreto com o povo brasileiro.”

Renato Rabelo atravessou ditadura, clandestinidade, exílio, reconstrução democrática, vitórias e golpes. Liderou com firmeza e serenidade. Formou gerações. Deixou método, pensamento e exemplo.

Jamil Murad, dirigente do PCdoB e ex-deputado federal, se soma aos que sabem do valor da contribuição de Renato Rabelo: “Foi um dos mais importantes quadros da história recente do Partido Comunista do Brasil. Presidente do PCdoB entre 2001 e 2015, exerceu sua liderança com firmeza política, profundo compromisso ideológico e dedicação integral à causa socialista. Militante desde a juventude até os 84 anos, manteve coerência entre pensamento e ação, contribuindo de forma decisiva para a reorganização partidária, para o fortalecimento da linha política e para a construção da Frente Ampla que garantiu cinco vitórias presidenciais a Lula e Dilma”.

Jamil lembra que ao lado de João Amazonas, integrou o núcleo dirigente responsável por preservar e projetar o Partido em momentos decisivos da vida nacional, sempre pautado pela ética, pela simplicidade e pelo espírito coletivo.

Ao ressaltar esse espírito coletivo e solidário de Renato, Claudia Rodrigues, presidenta da UBM da Cidade de São Paulo e vice-presidenta do PCdoB paulistano, reafirma que sua liderança se expressa na capacidade de orientar, dialogar e formar novos quadros, com atenção às tarefas estratégicas e aos desafios concretos da militância. Recorda sua atuação nos processos de unificação partidária e na condução da presença comunista no governo federal, sempre com clareza política e responsabilidade histórica. “Sua partida representa uma perda significativa para o Partido e para o campo democrático, mas seu legado permanece vivo na prática, na organização e na convicção de que o socialismo com características brasileiras é um horizonte possível e necessário”, reconhece Claudia.

Sempre atento e confiante

Na 22ª Conferência do PCdoB-SP, em setembro de 2025, já como presidente de honra da Fundação Maurício Grabois, reafirmou:

“Recebo com honra e espírito coletivo esta homenagem. (…) Em tempos de ataques à democracia, reafirmo minha confiança na força do nosso projeto e na coragem do nosso povo. (…) Mesmo enfrentando limitações de saúde, sigo atento, comprometido e confiante nas novas gerações.”

Renato parte fisicamente, mas permanece como referência moral, política e de luta. Seu exemplo continua a nos guiar. Sua luta segue viva.

Renato Rabelo, presente — hoje e sempre.

(Edição: André Cintra)