O jornal O Estado de S. Paulo é uma referência no tabuleiro político brasileiro. Sua proximidade histórica com o empresariado paulista e com os círculos financeiros da Faria Lima lhe confere um papel singular: o de termômetro – e eventualmente porta-voz – do humor do capital privado. Não raro, os editoriais do Estadão expressam o pensamento liberal-conservador desse ecossistema financeiro, bancário e corporativo.

Por isso, o editorial “Isto é Flávio Bolsonaro”, publicado nesta quinta-feira (21), manda ao presidenciável do PL um recado difícil de ignorar. A tese central do texto é a de que o caso BolsoMaster não revelou um novo Flávio Bolsonaro, cuja trajetória já está marcada, há anos, por denúncias e relações nebulosas. O escândalo apenas reafirmou aquilo que parte do mercado já temia enxergar.

O estopim foi a descoberta das relações “fraternas e transacionais” entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, banqueiro protagonista do que o próprio Estadão chama de “o maior crime financeiro da história brasileira”. Numa Faria Lima obcecada por previsibilidade e credibilidade, o estrago foi imediato. A relação estreita entre senador e banqueiro funcionou como um marcador de risco regulatório para qualquer agente de mercado que ouse se aproximar.

O jornal reconhece que o caso não transforma Flávio em alguém pior do que já era, o que, paradoxalmente, torna o diagnóstico ainda mais grave. O problema não é o escândalo – mas, sim, o homem, o personagem público. Conforme o editorial, “a mendacidade é a própria natureza do clã Bolsonaro, que construiu sua trajetória política em cima de desinformação, logro e desfaçatez”.

O texto rompe com uma tradição de tolerância pragmática do mercado financeiro em relação ao bolsonarismo. Ao apostar em Jair Bolsonaro contra Fernando Haddad em 2018 e Luiz Inácio Lula da Silva em 2022, esses setores fizeram vista grossa a radicalismos políticos e institucionais. Agora, sem alternativas competitivas, resta ao mercado a desconfortável opção de apoiar Flávio Bolsonaro sob protesto.

O Estadão acerta ao comparar a lógica de funcionamento da família Bolsonaro à de uma “máfia”, na qual “a lealdade é a laços de sangue”. Mas exagera ao dizer que Flávio sabotou “a construção de uma chapa de oposição democrática à reeleição de Lula”. A grande imprensa nutria preferência por Tarcísio de Freitas. Porém, foi omissa e até complacente no processo de fortalecimento do bolsonarismo, que tragou ao menos 25% do eleitorado para a extrema direita.

À parte essa cumplicidade, o Estadão faz um questionamento frontal à viabilidade política, moral e institucional da candidatura. O jornal ecoa o que muitos executivos sussurram nos corredores envidraçados da Faria Lima. É um recado duríssimo vindo do coração do pensamento financeiro e corporativo.

O candidato tóxico

O timing do editorial torna o episódio ainda mais significativo. Nos últimos dias, a campanha de Flávio Bolsonaro iniciou uma operação explícita de contenção de danos junto ao empresariado paulista e ao mercado financeiro. O senador participou nesta quarta-feira (20) de encontros reservados com banqueiros, gestores e executivos ligados à Faria Lima, além de jantares com empresários dos setores de turismo, hotelaria e aviação.

A agenda foi anunciada com pompa nos bastidores bolsonaristas, mas o resultado foi constrangedor. A maratona de reuniões que deveria sinalizar força virou símbolo de fragilidade. Relatos publicados pela imprensa descrevem um ambiente marcado pelo receio de associação ao pré-candidato. De acordo com o jornal O Globo, alguns convidados passaram a evitar aparições públicas ao lado do senador.

O colunista Fernando Nakagawa, da CNN Brasil, aponta um cenário ainda mais revelador sobre o estado de espírito predominante na Faria Lima: faltaria a Flávio Bolsonaro um “fiador” econômico capaz de dar credibilidade técnica à sua pré-campanha.

A comparação implícita é inevitável. Em 2018, Jair Bolsonaro chegou à reta decisiva da eleição amparado pela presença de Paulo Guedes, que funcionava como tradutor político do programa desejado pela Faria Lima. O economista, com seu ultraliberalismo de carteirinha e seu trânsito consolidado nos círculos financeiros, era o avalista ideológico e técnico da candidatura. A Faria Lima não precisava gostar de Bolsonaro – bastava confiar em Guedes.

Guedes oferecia ao mercado algo que o bolsonarismo puro jamais conseguiu fornecer sozinho: previsibilidade econômica, interlocução técnica e um programa relativamente claro de privatizações, ajuste fiscal e desregulamentação. Flávio Bolsonaro não dispõe de nada parecido. Sua agenda econômica resume-se, até aqui, a promessas genéricas de desburocratização e redução de impostos. “Governar o Brasil não está nos seus planos”, emenda o Estadão.

Sem adulto na sala

O jornal verbaliza uma impaciência que já circulava de maneira difusa nos bastidores da Faria Lima. A mensagem implícita é que parte relevante do establishment econômico começa a enxergar a candidatura de Flávio Bolsonaro como um fator de risco reputacional e de instabilidade política.

O mercado financeiro já provou que pode fechar os olhos para a grosseria, para aventuras populistas e até para a falta de sofisticação intelectual, desde que haja compromisso claro e estável com o rentismo. Ao que tudo indica, a crise BolsoMaster corroeu esse pilar. Em tom exasperado, o editorial do jornal da Faria Lima se transforma em advertência extrema: “O Brasil não pode mais ficar à mercê dos interesses particulares de uma única família”.

Até pouco tempo atrás, muitos agentes econômicos ainda operavam com a ideia de que o bolsonarismo poderia voltar ao poder, desde que viesse acompanhado de algum “adulto na sala” da economia. Agora, cresce a percepção de que o entorno político da família Bolsonaro se tornou fonte permanente de turbulência, escândalos e improvisação. “Bolsonaro e sua grei não geraram nada de bom para o País, só ressentimentos e destruição de consensos mínimos entre concidadãos”, diz o Estadão.

O editorial é a expressão pública mais contundente desse mal-estar, ao vocalizar um sentimento que já começa a ultrapassar o terreno das conversas reservadas: o de que Flávio Bolsonaro pode ter deixado de ser uma aposta confiável para parcelas importantes do capital financeiro brasileiro. O editorial devastador desta quinta-feira é um sinal – e o sinal é vermelho.