Lula impõe maior revés a Trump e dá alento à esquerda na América Latina
Donald Trump estava invicto. Desde sua volta à Casa Branca, em janeiro de 2025, todos os candidatos latino-americanos apoiados pelo líder dos Estados Unidos na América Latina haviam vencido eleições presidenciais no continente.
O tufão conservador impulsionado por Trump ajudou a eleger Daniel Noboa, no Equador; Nasry “Tito” Asfura, em Honduras; José Antonio Kast, no Chile; Rodrigo Paz, na Bolívia; Laura Fernández, na Costa Rica; Keiko Fujimori, no Peru; e Abelardo de la Espriella, na Colômbia. Foram impressionantes sete vitórias em apenas 14 meses.
O presidente norte-americano também interferiu nas eleições legislativas de meio de mandato da Argentina. Em outubro de 2025, às vésperas do pleito, Trump condicionou pacotes de resgate e suporte financeiro à economia argentina à continuidade das reformas ultraliberais da administração Javier Milei. Resultado: contrariando pesquisas, o partido de Milei, La Libertad Avanza, expandiu consideravelmente sua bancada tanto na Câmara quanto no Senado.
A América Latina vivia uma reviravolta. Ao longo do século 21, a chamada “onda rosa” levou forças de esquerda ou progressistas ao governo de 16 países da região. O movimento – que passou pela América Central, pelo Caribe e, sobretudo, pela América do Sul – não teve paralelo em nenhuma outra região do Planeta.
Mas no segundo semestre de 2026, com o refluxo da “onda rosa”, os governos latino-americanos de esquerda ou centro-esquerda tinham encolhido. Além de Claudia Sheinbaum no México e de Lula no Brasil, apenas os três países menos populosos da América do Sul contavam com chefes de Estado progressistas (Irfaan Ali, na Guiana; Yamandú Orsi, no Uruguai; e Jennifer Geerlings-Simons, no Suriname).
Em 2025, em meio a uma Assembleia Geral da ONU, Lula planejou uma reunião ampla com presidentes progressistas; mas logo viu que, afora ele e Orsi, a lista se restringia ao chileno Gabriel Boric e ao espanhol Pedro Sánchez. Com a escassez de representantes do gênero, a saída foi alargar o tema do encontro, que se chamou “Em Defesa da Democracia e Contra o Extremismo”.
“Temos que responder: onde é que os democratas erraram? Em que momento a esquerda errou?”, discursou Lula, na ocasião. “Por que permitimos que a extrema direita crescesse com tanta força? É virtude deles ou incompetência nossa?”
Lula esboçou uma resposta autocrítica: “Ganhamos com discurso de esquerda, mas passamos a atender mais aos interesses dos adversários e do mercado do que aos dos que foram para as ruas, apanharam e foram achincalhados. Esses, muitas vezes, passam a ser vistos como radicais. Antes de procurar a virtude da extrema direita, temos que encontrar os erros que nós, democratas, cometemos”.
Com ou sem erros cruciais dos “democratas”, é inegável que Trump, em sua segunda passagem na presidência estadunidense, se tornou um fator determinante para o avanço ultradireitista na América Latina. Por isso, neste outubro de 2026, o Brasil parecia a bola da vez. Embora tenha pressionado mais o País em 2025, com uma sequência de tarifaços sem base legal, Trump demonstrava simpatia aberta pela candidatura de Flávio Bolsonaro (PL).
Ao fim do primeiro turno, Flávio surpreendeu e terminou a apuração à frente, superando Lula por 47,03% a 45,16% dos votos válidos. Do ponto de vista estatístico, uma diferença de 1,87 ponto percentual pode parecer minúscula – uma vantagem reversível. Só que, em pleitos tão polarizados, pequenas diferenças vinham sendo suficientes para “azular” ainda mais o mapa da região. Abelardo de la Espriella e Keiko Fujimori, por exemplo, foram eleitos com dianteira inferior a um ponto percentual.
No entanto, o Brasil fugiu à regra. A vitória contundente de Lula no último domingo (25), com 4,4 milhões de votos a mais do que Flávio Bolsonaro, impôs o maior revés eleitoral para Trump. Comprovou, de resto, que a esquerda é capaz de resistir à ofensiva da extrema direita internacional, mesmo numa luta inglória contra Trump, as big techs, o rentismo nacional e estrangeiro, setores da grande mídia e do Judiciário, além de uma vasta horda de quinta-colunas.
O especialista que “é sempre um cauteloso pouco-a-poco”, como diria Mário de Andrade, pode alegar que o resultado no Brasil corresponde a uma reeleição, não uma reversão. Mas, diferentemente de Dilma Rousseff (PT) em 2014 – que venceu Aécio Neves (PSDB), mas começou seu segundo governo na defensiva –, Lula sai mais forte da disputa do que entrou. O governo tem a legitimidade renovada para defender seu programa e enfrentar os adversários.
É importante frisar que o presidente brasileiro derrotou o bolsonarismo e o trumpismo sem ter feito promessas de concessões como o ajuste fiscal, a desoneração da folha de pagamento e o recuo em programa sociais – muito pelo contrário. A defesa da soberania nacional e da democracia permearam a candidatura.
No segundo turno, a campanha de Lula ganhou densidade política e ousadia, ampliou o diálogo com o eleitorado e mobilizou milhões de pessoas, nas ruas e nas redes. Até o emblemático verde-amarelo – historicamente associado à identidade nacional, mas outrora sequestrado pela oposição golpista – voltou a integrar a estética das forças progressistas e democráticas.
Dois dias depois da eleição, Flávio Bolsonaro deixou o Brasil e foi para os Estados Unidos, onde recebeu autorização humanitária temporária para permanecer no país – o humanitarian parole. Trump declarou que aprovaria um eventual pedido de asilo político do senador. Ainda que o líder norte-americano tenha afirmado que não vai contestar o resultado do pleito brasileiro, a decisão de acolher o candidato derrotado abriu mais uma crise para sua gestão.
Na próxima terça-feira (3/11), ocorrem as midterms – as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, que vão renovar as 435 cadeiras da Câmara e 35 dos cem assentos no Senado. As pesquisas e as projeções eleitorais apontam que a base trumpista vai perder a maioria na Câmara e no Senado. Se isso ocorrer, Trump sofrerá um novo revés político. Lula e os brasileiros deram alento à esquerda latino-americana – e o cenário pode ficar ainda melhor. A ver.

