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Depois de quatro anos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Dani Balbi parte para uma nova disputa eleitoral levando para a campanha o acúmulo de um mandato marcado por diferentes frentes de atuação. Mulher negra, trans e comunista, professora e pesquisadora, a deputada construiu sua atuação parlamentar entre a defesa dos direitos da população LGBTQIAPN+, o combate ao racismo e à misoginia, a valorização do trabalho, a ciência, a tecnologia, a cultura e a recuperação da capacidade produtiva do estado.

Desde a campanha anterior, Dani construiu uma atuação política marcada pela diversidade de frentes e, ao longo do mandato, essa perspectiva se traduziu em iniciativas voltadas às mães de primeira infância, às meninas na ciência, à população trans e travesti, ao audiovisual, à literatura e à educação.

Mais do que reunir diferentes frentes, Dani procura conectá-las a uma mesma visão sobre o futuro do Rio. Seu diagnóstico é que o estado perdeu dinamismo econômico, enfraqueceu seu parque produtivo e, nesse processo, também perdeu a capacidade de formular respostas para a classe trabalhadora. A alternativa que apresenta combina recuperação econômica, geração de empregos, aumento da renda e autonomia do Estado com políticas de inclusão e reparação histórica.

“Desde a campanha passada a gente encarou o desafio de construir uma campanha para a comunidade diante de dados alarmantes, do aumento da violência, de crimes de ódio, mas também de alargar os horizontes e dialogar com uma trajetória plural”, afirma Dani, em entrevista ao site do PCdoB.

Dani Balbi propõe um desenvolvimento conectado à vida concreta da população

Eleita em 2022 como a primeira mulher trans a ocupar uma cadeira na Alerj, a deputada chegou ao Parlamento depois de uma trajetória que passou pelo movimento estudantil, pela pós-graduação, pela universidade pública e pela docência. Ao longo do mandato, presidiu a Comissão de Trabalho, foi vice-presidente da Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação e integrou a Comissão de Indústria e Comércio. A experiência reforçou uma compreensão que agora ocupa o centro de sua campanha.

“Tudo isso passa por um projeto de desenvolvimento. É autonomia do Estado do Rio de Janeiro frente à queda da arrecadação, à desindustrialização do seu parque produtivo, à perda de dinamicidade, à terciarização da economia fluminense.”

Para Dani, pensar esse desenvolvimento exige abandonar a ideia de que políticas de direitos e políticas econômicas pertencem a campos distintos. O Rio, afirma, é um estado cuja força de trabalho é marcada pela presença de mulheres negras, moradores de periferias, população LGBTQIAPN+, jovens e trabalhadores da cultura. Incorporar esses grupos ao projeto econômico não seria uma concessão, mas uma condição para que o estado consiga produzir novas soluções.

“O projeto de desenvolvimento das forças produtivas encara a diversidade da classe trabalhadora e inclui mulheres negras, pessoas de favelas e periferias, população LGBTQIAPN+, jovens, inclui também trabalhadores da cultura.”

Salário, emprego e uma jornada mais humana

Na presidência da Comissão de Trabalho, Dani colocou no centro do mandato uma reivindicação que, desde 2019, aguardava resposta do governo estadual: o reajuste do piso salarial. A mobilização reuniu sindicatos, audiências públicas e manifestações em torno da campanha “Governador, aumente o meu salário”.

“Levando a perda no rendimento médio das famílias na ordem de quase 50%, tendo em vista o custo altíssimo de vida do Estado do Rio de Janeiro, principalmente na região metropolitana, particularmente na capital. Então, nós construímos uma grande campanha e fomos vitoriosos ao colocar essa agenda na ordem do dia.”

A disputa também colocou a deputada em confronto com o patronato organizado em torno da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), que ela identifica como principal adversária da reivindicação dos trabalhadores no Conselho Estadual de Trabalho e Renda.

Na nova campanha, a defesa da renda se articula ao fim da escala 6×1 e a uma mudança na estrutura produtiva do estado. Para Dani, ampliar a oferta de empregos industriais é parte do caminho para elevar a arrecadação, criar postos mais estáveis e melhorar as condições de trabalho, com empregos de maior remuneração e capacidade de gerar valor.

“Nós estamos num projeto de alargamento dos postos de trabalho. Nessa toada de recuperar o parque produtivo do Estado do Rio de Janeiro, aumentar arrecadação, criar empregos mais estáveis para a população e isso tem impacto também na melhoria da qualidade de vida.”

A redução da jornada, nesse projeto, está ligada à própria transformação do mercado de trabalho fluminense.

“Esperando que, com a diminuição dos postos de trabalho na área mais ampla dos serviços, nós possamos também efetivar uma redução da jornada de trabalho e o cumprimento numa escala mais humana, a 5 por 2.”

Cultura, universidade e ciência como forças produtivas

A cultura também entra na formulação de Dani como parte da estrutura produtiva do estado. Para ela, o setor reúne cadeias capazes de articular produção, trabalho e renda, desde que tenham apelo popular, sejam formadas por trabalhadores especializados e estejam ligadas às características do Rio.

“A gente precisa pensar que o audiovisual é uma força produtiva, que a cultura é uma força produtiva. A gente precisa pensar em como aumentar o orçamento da cultura do Estado do Rio de Janeiro.”

A mesma articulação aparece quando ela fala de universidade e ciência.

“Quanto mais universidades popularizam e enegrecem, quanto mais os laboratórios são dirigidos por mulheres, que somos a maior parcela da classe trabalhadora do Estado do Rio de Janeiro, temos mais propriedade para pensar soluções a partir do desenvolvimento da ciência para as questões que nos afetam.”

O argumento se conecta à defesa das ações afirmativas nas universidades. Dani vê nelas não apenas uma política de reparação, mas uma forma de incorporar à produção científica pessoas que historicamente estiveram afastadas desse campo.

“O Estado do Rio de Janeiro é um estado pioneiro na adoção de ações afirmativas para que essas universidades não só façam reparação histórica, mas também possam receber parcelas da classe trabalhadora que nunca pensaram em desenvolvimento científico para produzir soluções.”

É nesse ponto que Dani rejeita a separação entre inclusão e desenvolvimento: “a gente precisa superar essa falsa contradição e fazer a articulação dessas duas agendas.”

Direitos também são disputa política

A amplitude do mandato também se expressou em iniciativas voltadas à saúde de mulheres lésbicas e da população trans, às cotas e ao Estatuto da Diversidade. Nem todas as propostas avançaram até se tornar lei. Para Dani, porém, uma disputa parlamentar não se encerra necessariamente na votação.

“Mesmo que eles não tenham tramitado com sucesso se tornado leis, eles estão na boca do povo. Eles são lutas que vão continuar nesse período e no próximo, ali, na legislatura.”

A própria ocupação desses espaços, para Dani, também produziu uma mudança que ultrapassa a atividade legislativa. Ela destaca o significado de uma mulher negra e trans ter presidido a Comissão de Trabalho e conduzido uma das principais campanhas do mandato pela valorização dos salários dos trabalhadores do estado. “Acho que é uma mudança estrutural que passa obviamente por uma mudança simbólica de perfil.”

A atuação também envolveu disputas em torno de direitos e da liberdade de debate dentro e fora da Assembleia. Dani cita projetos que buscavam restringir o acesso de mulheres trans a banheiros e iniciativas que limitavam os debates sobre gênero, diversidade e combate ao racismo.

“Conseguimos decisões judiciais favoráveis, ganhamos em primeira instância contra os projetos de lei em Petrópolis e Campo Grande que excluíam mulheres trans de terem acesso ao banheiro e também conseguimos obter derrotas de projetos que interditavam debate sobre gênero, diversidade, combate ao racismo na Assembleia Legislativa.”

Dani avalia que a presença do mandato também teve impacto na disputa política com a extrema direita.

“Foi nesse sentido produtivo. […] Certamente a nossa presença lá, conseguindo constranger e imprimir algumas derrotas para a extrema direita, nesse particular.”

A construção de novos caminhos para o Rio

A disputa eleitoral também se insere em um cenário que Dani considera marcado pelo desgaste das forças políticas que comandaram o estado nos últimos anos, pelo avanço da extrema direita e pelo desmonte da máquina pública.

“Na atual conjuntura, com a desmoralização das forças políticas retrógradas que dominaram o Estado do Rio de Janeiro, a partir da ascensão da extrema direita, do desmonte da máquina pública, dos escândalos de corrupção, nós chegamos no fundo do poço. A gente entende que esse fundo do poço deve significar, ou pode significar, a urgência de uma mudança de rumo da política do Estado do Rio de Janeiro.”

A partir desse diagnóstico, a atuação partidária ganha espaço na construção de alternativas para o estado. Dani destaca a elaboração de propostas e a organização política como frentes complementares desse trabalho.

“O papel do PCdoB, que já está jogando, é enorme: elaborar soluções, organizar essa frente ampla para que ela possa responder aos desafios históricos do Estado do Rio de Janeiro, romper com a criminalidade que dominou a máquina pública e fazer tanto diagnósticos quanto prospecções as mais refinadas, sofisticadas, contundentes, amplas, aliando sempre essa necessidade de desenvolvimento das forças produtivas.”

A ideia se conecta ao projeto que Dani apresenta para a nova disputa, no qual desenvolvimento econômico, trabalho e atenção às parcelas mais vulneráveis fazem parte de uma mesma agenda.

“É um projeto que alia um pensamento estratégico de desenvolvimento, uma solução para a classe trabalhadora, para as contas públicas, incluindo os segmentos mais vulneráveis da nossa classe trabalhadora.”