Wadson Ribeiro, presidente do PCdoB-MG, recebe título de cidadão honorário de BH
Belo Horizonte viveu, na noite da última terça-feira (5/5), um daqueles momentos em que a política se encontra com a memória, a cultura e o afeto. No Plenário Aminthas de Barros, na Câmara Municipal, cerca de 300 pessoas se reuniram para acompanhar a entrega do título de cidadão honorário da capital mineira a Wadson Ribeiro, presidente do PCdoB Minas Gerais. A cerimônia rapidamente ultrapassou o protocolo institucional para se tornar uma celebração coletiva de trajetória, ideias e compromissos.
Proposta pelo vereador Edmar Branco, a homenagem reconheceu décadas de atuação política e institucional de Wadson em Minas Gerais, marcadas pela defesa da democracia, da educação pública e de políticas voltadas à população. Mas o tom da noite não foi apenas de formalidade. Foi também de emoção e de identidade.
Um dos momentos mais marcantes veio da música. O violinista João Vitor Romano conduziu o público a um silêncio atento ao interpretar “O Canto das Três Raças”, eternizada por Clara Nunes. A escolha não foi casual: a canção ecoou no plenário como síntese simbólica da história do povo brasileiro e dialogou diretamente com o percurso político do homenageado.

Ao longo da cerimônia, diferentes vozes ajudaram a compor o retrato de Wadson. Para Richard Romano, presidente do PCdoB em Belo Horizonte, o título representa mais do que uma homenagem individual. É o reconhecimento de uma trajetória concreta de contribuição à cidade, especialmente na ampliação do acesso à educação, ao esporte, à mobilidade e, mais recentemente, à ciência e tecnologia. “Se há muito de Belo Horizonte na trajetória do Wadson, há também muito de Wadson na história do nosso partido na cidade”, afirmou.
A reitora da UEMG, Lavinia Rodrigues, destacou o vínculo do homenageado com a educação como eixo estruturante de sua atuação. Lembrou que sua trajetória atravessa o movimento estudantil, a gestão pública e, mais recentemente, o campo da ciência e tecnologia. “A educação, por si só, não transforma toda a estrutura da sociedade, mas sem ela dificilmente haverá mudança”, disse, defendendo a combinação entre resistência e esperança como motores da transformação.
De fora da capital, o reconhecimento também se fez presente. O vereador Lutimar Ribeiro, de Santa Helena de Minas, percorreu mais de 700 quilômetros para participar da cerimônia. Em sua fala, destacou que a homenagem não pertence apenas a Belo Horizonte, mas a todo o estado. “É motivo de orgulho para Minas Gerais”, resumiu.

Já Valéria Morato, presidenta do Sinpro Minas, reforçou o compromisso histórico de Wadson com a educação pública e com os trabalhadores. Desde os tempos de liderança estudantil, lembrou, ele já defendia a valorização da educação e de seus profissionais — uma pauta que segue atual diante dos desafios enfrentados no estado e na capital.
A dimensão simbólica da homenagem ganhou ainda mais força na fala do poeta e ativista cultural Tadeu Martins. Ao citar Bertolt Brecht, ele situou Wadson entre aqueles que “lutam a vida inteira” e, por isso, se tornam imprescindíveis. Para além das funções exercidas, destacou o caráter, os ideais e a coerência como marcas centrais da trajetória do homenageado.
Mas talvez o momento mais íntimo e tocante tenha sido o depoimento de Carolina Lobo, esposa de Wadson. Ela resgatou o início da vida em Belo Horizonte, há cerca de duas décadas, quando chegaram ainda jovens, com um filho pequeno e muitos sonhos. Falou do companheiro que nunca desiste, que insiste na luta mesmo diante das dificuldades, e que escolheu dedicar sua vida a um projeto coletivo. Ao encerrar, evocou um poema de Drummond — “a senha da vida, a senha do mundo” — como síntese de uma busca que nunca se encerra.

Quando tomou a palavra, Wadson Ribeiro fez mais do que agradecer. Transformou o momento em uma reflexão política ampla sobre o Brasil e o mundo. Defendeu o fortalecimento da organização sindical, a necessidade de uma reforma profunda no sistema educacional e a construção de um projeto de desenvolvimento capaz de mobilizar “milhões de mentes e corações”.
Também criticou a distorção de conceitos como socialismo e comunismo, frequentemente alvo de desinformação. Para ele, essas narrativas tentam esconder experiências concretas baseadas em investimento em educação, ciência e tecnologia. Ao ampliar o olhar, situou o Brasil em um cenário global em transformação, marcado pela emergência de um mundo mais multipolar, que deveria se orientar pela cooperação entre os povos, e não pelo conflito.
Essa leitura global se conectou com a realidade local. Wadson apontou o avanço de posições conservadoras, a intolerância e a persistência de problemas estruturais, como o trabalho infantil, como desafios que também se colocam para Belo Horizonte e Minas Gerais.

Ainda assim, seu discurso não se limitou à crítica. Houve também espaço para a afirmação de um projeto de cidade. Ao evocar a Pampulha, Oscar Niemeyer e Juscelino Kubitschek, defendeu a retomada de uma Belo Horizonte moderna, criativa e inclusiva, que dialogue com suas periferias, com a cultura e com sua vocação histórica de inovação. “Ao resgatar Belo Horizonte, ajudamos a resgatar Minas e o Brasil”, afirmou.
Ao final, reforçou que o título não pertence apenas a ele. “Compartilho com todos que fizeram parte dessa trajetória”, disse, reconhecendo o caráter coletivo de sua caminhada. Encerrando a cerimônia, Edmar Branco sintetizou o sentimento da noite: a homenagem, mais do que um reconhecimento, é também um compromisso renovado com a cidade e com o futuro.
Trajetória
Wadson Ribeiro construiu sua trajetória pública a partir do movimento estudantil, onde se destacou como uma das principais lideranças de sua geração. Nascido no bairro Linhares, em Juiz de Fora, em 1976, e formado em Administração, foi o primeiro da família a ingressar no ensino superior, experiência que marcou seu compromisso com a transformação social. Presidiu a União Nacional dos Estudantes (UNE) entre 1999 e 2001 e, posteriormente, a União da Juventude Socialista (UJS), período em que atuou na defesa da educação pública, na mobilização da juventude e em pautas nacionais como a reforma universitária.
Ao longo dos anos, ampliou sua atuação para cargos estratégicos no Executivo e no Legislativo. Foi secretário-executivo do Ministério do Esporte, participando da implementação, em âmbito nacional, estadual e também em Belo Horizonte, de programas como o Segundo Tempo e o Esporte e Lazer nas Cidades, além da preparação de grandes eventos internacionais no Brasil.
Entre 2015 e 2016, exerceu mandato como deputado federal por Minas Gerais, com atuação voltada à educação, ao combate à intolerância e à defesa de atingidos por tragédias socioambientais. Em Minas, também ocupou funções como secretário dos Fóruns de Desenvolvimento Regional e ouvidor-geral do Estado. Atualmente, integra a Finep, onde atua na articulação de investimentos em ciência, tecnologia e inovação, com impacto em projetos estratégicos em Belo Horizonte e no estado.




