PCdoB alerta para ofensiva imperialista e define prioridades para 2026
Em um cenário internacional marcado pela ascensão de um neofascismo agressivo e pela reconfiguração da ordem global, o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) realizou, nesta sexta-feira (27), em São Paulo, a abertura do seu Encontro Nacional de Organização. Nádia Campeão, presidenta em exercício da legenda, fez uma intervenção ao atualizar o quadro político mundial e nacional, alertando que a disputa de 2026 não ocorrerá em “condições normais”, mas sob a sombra de uma ameaça existencial à soberania brasileira e latino-americana.
Nádia esteve acompanhada à mesa de Altair Freitas, secretário nacional de Organização, Carlos Lopes, vice-presidente do Partido, e Walter Sorrentino, presidente da Fundação Maurício Grabois, que também fez um informe sobre o processo de atualização do Programa Socialista do PCdoB. A reunião iniciou-se com uma salva de palmas para militantes e dirigentes que faleceram recentemente, como Márcio Cabreira e Renato Rabelo. O encontro vai até domingo e reúne dirigentes, lideranças e secretários de Organização estaduais de todo o país na sede paulista e também por plataforma remota.
A Doutrina Trump e o cerco ao hemisfério
Nádia iniciou sua fala retomando as análises aprovadas no 16º Congresso do Partido, em outubro passado, destacando a precisão com que o documento previu a escalada belicista dos Estados Unidos. Segundo ela, a “Estratégia de Defesa Nacional dos EUA para 2026”, divulgada pelo governo Trump, consolida uma postura de domínio absoluto sobre o Hemisfério Ocidental, tratando qualquer influência externa — especialmente da China — como uma ameaça à segurança nacional que justifica ações unilaterais.
“A guerra tarifária, a chantagem econômica, as agressões militares ao Irã, o respaldo total ao genocídio do povo palestino e as ameaças contra a Venezuela desmascaram o imperialismo”, afirmou Nádia. Ela listou uma série de eventos recentes que comprovam essa ofensiva, desde o “sequestro” político de Nicolás Maduro e ataques a embarcações no Caribe até o agravamento do bloqueio a Cuba.
Para a dirigente, o chamado “Conselho da Paz” proposto por Trump é, na verdade, um mecanismo para legitimar intervenções militares sem aval da ONU, criando um “direito de matar e atacar” que coloca em risco direto países como México, Colômbia e Brasil.
O cenário nacional: conquistas sob ameaça
No plano interno, Nádia equilibrou a defesa das realizações do governo Lula com uma autocrítica sobre os limites da gestão. Ela celebrou indicadores econômicos positivos de 2025, como o crescimento de 2,5% do PIB, desemprego em 5,6% e a isenção do Imposto de Renda para a base trabalhadora, classificando-os como vitórias importantes contra o desmonte anterior. “Houve estancamento das privatizações, recuperação de estatais e programas sociais bem avaliados”, destacou.
Contudo, a presidenta em exercício foi enfática ao apontar as “questões graves” não superadas: a manutenção de uma política macroeconômica híbrida, ancorada no tripé neoliberal e em juros altos; a fragilidade do arcabouço fiscal; e, principalmente, a ausência de medidas concretas para fortalecer o movimento sindical e a comunicação alternativa.
“Os sindicatos rurais estão fechando, o sistema Contag está de pires na mão. Nada foi feito para recuperar a força de mobilização dos trabalhadores”, criticou, alertando que a esquerda segue tomando “pau nas redes sociais” enquanto a extrema-direita conta com o financiamento das Big Techs.
A disputa de narrativa e o fator Flávio Bolsonaro
Um dos pontos centrais da análise de Nádia foi a dinâmica da disputa eleitoral. Ela observou que, apesar das “entregas” do governo, a opinião pública é moldada por uma intensa guerra cultural e de narrativas. Como exemplo, citou como um incidente isolado no Carnaval conseguiu ofuscar, temporariamente, o impacto positivo da isenção do IR nas pesquisas, gerando um empate técnico fictício com a candidatura de Flávio Bolsonaro.
Sobre a escolha de Flávio pelo campo bolsonarista, Nádia analisou que, embora ele carregue a alta rejeição do clã Bolsonaro e tenha rompido com setores do centrão (como o PSD de Ronaldo Caiado), sua candidatura sinaliza uma submissão total aos interesses de Trump, o que gera desconfiança até em partes da elite econômica brasileira. “Eles olham e falam: ‘nós vamos virar uma República das Bananas?’. O controle que teriam sobre Tarcísio não é o mesmo que julgam ter sobre a família Bolsonaro”, ponderou.
Ainda assim, alertou para não subestimar a vontade da classe dominante de derrotar o Projeto Popular, lembrando que “nossa burguesia nunca nos faltará” na hora de defender seus privilégios.
As cinco bandeiras prioritárias para 2026
Para enfrentar esse quadro complexo, Nádia Campeão delineou cinco tarefas estratégicas que devem guiar a atuação do PCdoB até as eleições:
- Eleger Lula para um novo mandato: Defender as conquistas, denunciar o programa de entreguismo de Flávio Bolsonaro e apresentar um projeto de país mais avançado, fugindo do “pântano” da disputa de valores conservadora.
- Ampliar a Bancada Comunista: Considerada decisiva para sustentar a governabilidade e enfrentar o imperialismo no Congresso.
- Luta pela Redução da Jornada: Fim da escala 6×1 e conquista da 5×2. “É uma bandeira principal de um partido comunista. Vamos fazer mobilização de rua, pois o empresariado vai se levantar contra”, convocou.
- Combate ao Feminicídio: Transformar o enfrentamento à violência contra a mulher em plataforma central de todos os candidatos do campo progressista.
- Solidariedade Internacional: Participar ativamente de todas as lutas anti-imperialistas, em defesa da soberania dos povos da América Latina.
“Nós vamos revigorar o partido, ter um partido mais forte, mas a política tem que estar comandando e orientando nossas ações”, concluiu Nádia, reforçando que o fortalecimento orgânico da legenda é indissociável do cumprimento dessas grandes tarefas políticas diante dos perigos que se avizinham.
A soberania como eixo articulador

Em uma intervenção densa e teórica, Walter Sorrentino, lançou as bases para a atualização do Programa Socialista do Partido. Definindo o momento como crucial não apenas para a disputa eleitoral de 2026, mas para o horizonte pós-Lula até 2027, Sorrentino convocou a militância a uma alternativa política concreta. “O idealismo não resolve”, alertou.
O núcleo da proposta de atualização, intitulada provisoriamente de “Rumos Soberanos para o Brasil”, coloca a questão nacional como o polo articulador de todas as demandas democráticas e sociais. Para Sorrentino, a soberania deixou de ser apenas uma bandeira patriótica para se tornar a condição sine qua non para a garantia de direitos, incluindo pautas identitárias e reparatórias.
A atualização visa responder aos impasses estruturais do atual ciclo político, propondo a construção de um novo bloco hegemônico: um “bloco patriótico, popular e progressista”. Ele conectou a sorte do Brasil ao cenário latino-americano, alertando que derrotas da esquerda no Equador e na Colômbia poderiam isolar o Brasil, restando apenas a resistência interna como trincheira final contra o imperialismo.
Diagnóstico concreto: 40 anos de Nova República
Sorrentino justificou a urgência da atualização apontando que o programa vigente data de 2009, formulado sob a ótica da crise neoliberal de 2008, enquanto a realidade sofreu disrupções profundas nas forças produtivas e na consciência social. O recorte escolhido são os 40 anos da Nova República, período marcado por conquistas democráticas, mas também por regressões severas.
O dirigente fez uma autocrítica contundente sobre a incapacidade da esquerda de explicar fenômenos recentes. “Nós governamos o país dezoito anos… mas nós perdemos a indústria. Perdemos a engenharia nacional agora na Lava Jato. Como é que metade da população passou a votar em fascista?”, questionou. Ele listou uma cadeia de crises: dois impeachments, um golpe consumado, uma tentativa golpista em 8 de janeiro e uma crise institucional tripartite.
Ele posicionou o PCdoB como a única força de esquerda com vocação estratégica, identidade marxista clara, experiência tática consolidada e relação privilegiada com a China.
Ao finalizar, Sorrentino traçou uma linha clara entre a tática eleitoral e a estratégia histórica. Enquanto o programa de Lula tende a refletir a ação governista, cabe ao PCdoB defender um projeto mais avançado e preparar o terreno para o “pós-Lula”. “O pós-Lula não é um nome. É uma causa, causa soberana. E nós devemos ser os campeões dessa causa”, declarou.





