Alírio Guerra: nome restaurado em memória da luta potiguar
Há nomes que não cabem em placas. Há memórias que ultrapassam paredes, corredores, auditórios. Alírio Guerra de Macedo é um desses nomes. Na tarde de ontem, 22 de abril — data que também celebrava os 78 anos de Eveline Guerra, sua companheira de vida e de luta —, uma comitiva singela, mas carregada de história, bateu à porta da Governadoria do Rio Grande do Norte. Levavam nas mãos um ofício; no peito, uma dívida de três décadas.
A Governadora Fátima Bezerra recebeu o PCdoB e amigos de Alírio com a sensibilidade de quem compreende que justiça, às vezes, se faz com gestos simples. Anunciou: o auditório da Governadoria voltará a se chamar Alírio Guerra de Macedo. Não é novidade. É restauração. Em 14 de janeiro de 1991, quando o espaço ainda pertencia à DataNorte, esse era seu nome. Depois, o tempo — e certos governos — apagaram a placa. Mas não a memória.
Um homem que atravessou a ditadura
Para Divanilton Pereira, presidente do PCdoB no Rio Grande do Norte, a homenagem vai além de um ato simbólico: trata-se de uma reparação histórica. Ele destacou que Alírio atravessou o período da ditadura militar como guerrilheiro e militante, participando da reorganização do PCdoB e da construção do movimento sindical classista no estado.
Divanilton relembra que Alírio foi uma liderança central na articulação política e sindical, além de candidato a deputado estadual em 1990. Sua trajetória foi interrompida tragicamente em um acidente naquele mesmo ano, ao lado de outros militantes históricos.
“Ele é uma referência para gerações. Reverenciar sua memória é também reafirmar os valores que ele defendeu”, afirmou.
“Ele atravessou toda a ditadura”, conta Divanilton. “Quando começa a rearticulação do partido, Alírio já estava lá. Ativista forte, lutando junto com Glênio Sá, pela Anistia, pela legalidade do PCdoB…”, disse ele, citando o guerrilheiro do Araguaia que sobreviveu para voltar à luta no Nordeste, sempre ao lado de Alírio.
Alírio não era só militante. Era servidor público competente, diretor da DataNorte, respeitado até por adversários políticos. “O próprio governador da época dizia: ‘Alírio se dedicava ao máximo durante o seu mandato, mesmo em oposição a mim'”, relata Divanilton. Essa era a marca do homem: firmeza nas ideias, delicadeza no trato e integridade profissional.
Fundador da Corrente Sindical Classista no estado, candidato a deputado estadual em 1990, Alírio construiu sua trajetória nos bastidores e nas ruas. Até que um acidente fatal, em 26 de julho de 1990, interrompeu abruptamente essa caminhada. Junto com ele, partiu Glênio Sá. Dois pilares. Duas referências que até hoje as novas gerações reverenciam.
A votação que virou símbolo
Christian Vasconcelos, jornalista e dirigente municipal do PCdoB em Natal, lembra Alírio como pela projeção nas diversas lutas que sempre encampou incansável.
A projeção de Alírio vinha de longe: do movimento comunitário, da articulação de associações de moradores, da estruturação do sindicato dos profissionais de processamento de dados no RN. “Essa projeção enquanto liderança comunitária e, depois, sindical, foi o que levou a essa votação de destaque”, explica Christian.
Na eleição para vereador, Alírio foi o terceiro mais votado da frente popular que integrava. “Ele teria sido eleito por qualquer outra aliança”, pondera Christian. “Mas, por não atingirmos o quociente eleitoral para eleger três vereadores, ele acabou não entrando.” A votação, porém, ficou como símbolo: a força de uma candidatura construída no chão, no diálogo, na coerência.
O auditório que guardava um nome
O auditório da DataNorte foi inaugurado em 14 de janeiro de 1991, poucos meses após a morte de Alírio. Os funcionários, em gesto espontâneo, batizaram o espaço com seu nome. Foi um momento de emoção para socialistas e comunistas que haviam resistido à ditadura e reorganizado o partido no estado.
Mas o nome não durou. “Foi no governo de Garibaldi, nos anos 90, por volta de 1995, que ele fez uma reforma do Estado e o nome saiu”, relembra Divanilton. Três décadas sem a placa. Três décadas com a memória intacta. No fluxo selvagem do neoliberalismo, a DataNorte deixou de existir e o processamento de dados do Governo foi para as mãos de inúmeros terceirizados.
“Para mim, essa retomada significa reparação”, reflete Christian. “Não é só uma homenagem póstuma. É reconhecer que a história não se apaga com tinta ou com decreto. É dizer às novas gerações: olhem para trás, vejam quem construiu o caminho.”

Um gesto que ecoa no presente
Num contexto político marcado por ofensivas contra a democracia, valores republicanos e direitos conquistados, restaurar o nome de Alírio ganha dimensão simbólica. “Reverenciar Alírio, numa reparação dentro desse contexto, é trazer a figura dele enquanto ser humano, mas também a pauta da sua luta histórica”, analisa Divanilton.
“Romper a autocracia, exaltar a ação política dele, é importante. O Partido se renova, se fortalece quando resgata suas referências.”
Eveline Guerra, presente na entrega do ofício, não é apenas a viúva de Alírio. É camarada de instância, presidiu o Sindicato dos Trabalhadores de Águas e Esgotos do RN, construiu caminho próprio na resistência e na militância. Ontem, ao completar 78 anos, recebeu da vida e do partido um presente: ver o nome do companheiro voltar ao lugar que um dia ocupou.
Memória que se faz futuro
A crônica desta homenagem não termina na assinatura da governadora. Começa ali. “Quero dizer ‘pleito atendido’, sem dúvida nenhuma para mim é motivo de muita honra na condição de governadora — fico até emocionada — porque fui contemporânea de Alírio e sei do grande norte-rio-grandense e grande brasileiro que ele foi”, disse a governadora durante o ato. Porque nomes restaurados são sementes. Auditórios renomeados são espaços de reflexão. E memórias resgatadas são bússolas para quem segue lutando.
Alírio Guerra de Macedo não volta apenas para uma placa na porta. Volta para as conversas de corredor, para as assembleias, para a formação das novas gerações. Volta como lembrete de que a política, quando feita com integridade, deixa marcas que nenhum decreto apaga.
Como disse Christian, com a serenidade de quem aprendeu com os mais velhos: “Eles [Alírio e Glênio] eram como irmãos mais velhos que orientavam não só do ponto de vista político, mas para a vida”. Que essa orientação siga ecoando — no auditório que agora leva seu nome, e em cada gesto de coerência democrática que o Rio Grande do Norte e o Brasil precisarem construir.
Restaurar um nome é, no fundo, reafirmar um compromisso: com a verdade, com a história, com aqueles que, como Alírio, dedicaram a vida a um país mais justo. E isso, sim, é gesto que não envelhece.
(por Cezar Xavier)




