Patinhas durante a homenagem. (Foto: Divulgação)

O Comitê Estadual do Ceará do PCdoB homenageou nesta quarta-feira (1º), em Sessão Na Assembleia Legislativa, Benedito Bizerril, o Bené, histórico dirigente comunista.

A homenagem feita na tribuna por Carlos Augusto Patinhas é o reconhecimento ao legado de luta e dedicação ao povo brasileiro que marcou a vida de Bizerril.

Confira a íntegra do discurso homenagem:

Em 31 de outubro de 2025 partiu do nosso convívio o camarada Benedito de Paula Bizerril. Desde aquela data até agora, a ausência do nosso querido camarada tem sido, na verdade, uma presença constante. Ainda não nos acostumamos com a sua partida. No auditório do nosso Comitê Estadual, a sua cadeira vazia, na primeira fileira à direita da mesa, nos lembra constantemente Bené. É como se ele permanecesse ali, ocupando o seu posto, o seu lugar de militante e dirigente do nosso Partido.

Benedito nasceu na serra da Ibiapaba, no município de São Benedito, o lugar aonde voltava sempre que podia. Muito jovem veio para Fortaleza, em companhia dos pais e dos irmãos. Foi aqui, no início dos anos de 1960, que tomou contato com o movimento estudantil e com o pujante movimento sindical que, em 1962, lançara os sindicalistas Moura Beleza e Antônio Girão Barroso a prefeito e ice-Prefeito de Fortaleza, respectivamente presidentes dos Sindicatos dos Bancários e dos Jornalistas do Ceará.

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Quando se deu o golpe em 1964, Benedito já estava no Banco do Nordeste do Brasil e já tinha contato com vários militantes do PCB que iriam para o PCdoB logo na sequência, quando se deu a conferência estadual em 1966. Ingressando no curso de Direito da Universidade Federal do Ceará, Benedito vai conhecer e travar contato com inúmeras outras lideranças já ligadas ao PCdoB. É assim que, em 1966, segundo depoimento do próprio Benedito, ele vai entrar no Partido Comunista do Brasil, do qual já era bastante próximo, recrutado por Gil Sá, que se manteria como um dos seus grandes amigos. A partir de então, Bené inicia a sua militância, atuando principalmente no Comitê dos Bancários e em menor grau no movimento estudantil da UFC.

Em 1968, Bené atua com destaque, junto a inúmeros outros camaradas, na greve dos bancários que desafiou a ditadura. Três movimentos grevistas se destacaram nacionalmente em 1968: as greves de Contagem e Osasco, em Minas Gerais e São Paulo, e a greve dos bancários em Fortaleza. O ano de 1968 em Fortaleza destampou a panela de pressão dos movimentos sociais, em ebulição desde o golpe. À greve dos bancários daquele ano, juntaram-se a explosão do movimento estudantil e a greve das castanheiras da CIONE, que se constituíram nos grandes movimentos sociais de enfrentamento à ditadura no Ceará. Benedito Bizerril estava no centro daqueles acontecimentos históricos.

No final daquele ano, a ditadura assumiu abertamente o seu caráter fascista com o Ato Institucional Nº 5. Benedito continuou a sua militância no Partido, nas duras condições de então. Nessa época, além do Comitê dos Bancários, Bené mantém contato com outras categorias de trabalhadores e com estudantes universitários e secundaristas. 

Em março de 1971, no aniversário do PCdoB, Bené e outros camaradas bancários fazem uma ação para colocar bandeiras do Partido pelas ruas da cidade. Nesta ação, é surpreendido e preso. Julgado e condenado a dois anos de prisão, cumpre um terço da pena e é colocado em liberdade após oito meses no cárcere, voltando ao seu trabalho no BNB. Por essa época, recebe a carteira da OAB, é apresentado ao advogado e militante comunista Tarcísio Leitão, de quem se tornaria grande amigo e com o qual começa também o seu trabalho como advogado trabalhista. Em 1973 a repressão avança sobre o PCdoB no Ceará, prende dezenas de militantes e encarcera quase toda a direção estadual e os principais dirigentes do movimento estudantil, bem como diversos integrantes do Comitê Bancário. Bené é retirado pela Polícia Federal de dentro da agência do BNB onde trabalhava. Dessa vez, fica na prisão menos tempo do que na vez anterior, preso inicialmente no quartel do Grupo de Obuses. Mas é dessa vez que vai enfrentar a tortura, levado juntamente com vários outros presos para a Casa dos Horrores, na zona rural de Maranguape.

Ali funcionava um dos principais centros de tortura do Ceará.

Ao sair da prisão, Bené é demitido do BNB e o PCdoB estava destroçado, bem como as demais organizações de esquerda. No entanto, mesmo sem haver uma organização, Bené funciona como uma referência para muitos que saem da prisão, especialmente os bancários e os estudantes com os quais ele se relacionava. Vários deles, em depoimento, dizem que, ao sair da prisão, o único ponto de apoio era a casa do Benedito. Mas, daí até o final de 1975, o quadro era de total desorganização partidária.

Em 1975 chegam ao Ceará os mineiros Gilse Cosenza e Abel Rodrigues Avelar. Traziam três nomes para tentar rearticular o PCdoB no Ceará. Um desses nomes era Benedito Bizerril. A partir daí se recompõe um núcleo de direção do Partido, e Bené passa a fazer parte desse núcleo, com destacado papel no processo de reorganização do Partido no Estado, sendo, desde então até a sua partida, durante cinco décadas, um dos principais dirigentes do PCdoB no Ceará.

Benedito Bizerril foi figura central em todas as lutas democráticas e progressistas travadas no Ceará nos últimos sessenta anos. Jamais se afastou dos seus princípios, jamais se afastou do seu ideal socialista, jamais arriou a bandeira da democracia e da soberania nacional. Precisaríamos de muito tempo para fazer jus a sua história e a sua importância.

Mas o valente Benedito, o lutador do povo, o advogado dos trabalhadores, tem outras facetas que merecem ser destacadas. Não estamos falando apenas do comunista, revolucionário consequente que nunca se ausentou do seu posto de combate, e que enfrentou de forma altiva e altaneira as prisões e as torturas.

Há também as outras facetas do querido Benedito.

A paixão pelo futebol e pelo Ceará sempre foi uma das suas marcas. Em depoimento, afirmava rindo que o Comitê Bancário dos anos de 1960 era muito consequente e que ele sabia escolher os seus amigos: eram todos comunistas e torcedores do Ceará.

Bené era de uma solidariedade a toda prova. Não apenas a solidariedade política, a solidariedade de classe, tantas vezes exercidas na sua militância e na sua profissão de advogado trabalhista. Era solidário com todos aqueles que precisavam da sua ajuda.

Era um amigo fiel, um homem que cultivava amizades que duravam décadas, e sempre capaz de fazer novos amigos entre a juventude, que tinha muito respeito e admiração pelo Benedito.

Sua alegria, seu bom humor, sua verve irônica, sua palavra ferina, lhe deram o posto de Presidente de Honra do Instituto Butantã, organização fictícia criada pelo seu espírito brincalhão e por um grupo de amigos e camaradas do Comitê Estadual do PCdoB.

Embora os nossos corações ainda estejam cheios de tristeza pela partida de Benedito, nosso querido Bené, queremos lembrar nesse momento do seu sorriso, da sua alegria, das suas brincadeiras, a palavra rápida e certeira, capaz de desarmar os que o provocavam.

Benedito nunca foi um militante e dirigente sisudo, muito pelo contrário. Foi um revolucionário que cultivava a alegria, um homem cheio de esperança no futuro e na construção do socialismo.

Bené viveu com retidão de caráter, com fidelidade aos seus princípios e com firmeza na luta. Mas lutou com alegria, com amizade, com ternura, com afeto, com esperança, com a serenidade daqueles que sabem que, ainda que partam, os seus sonhos e os seus ideais serão perenes.

Nesse momento, em que as bandeiras dos democratas e comunistas cearenses se inclinam em homenagem a Benedito, recordemos do Bené que convivemos, alegre, bem-humorado, sempre disposto à luta e à pilhéria, o punho erguido e o sorriso no rosto, maroto como o menino que um dia correu no verde da serra grande da Ibiapaba, capaz de ser, ao mesmo tempo, o gentil moleque e o revolucionário audaz que desafiou a ditadura.

Viva a memória de Benedito de Paula Bizerril, o sempre querido Benezinho!