Jandira durante o ato de discurso da vitória de Lula no domingo da eleição

A necessidade de transformar a mobilização popular que marcou a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva em força permanente para sustentar mudanças no país é um dos principais pontos da entrevista da deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ) ao programa Entrelinhas Vermelhas, apresentado por Inácio Carvalho, que foi ao ar nesta quinta-feira (29), às 17h.

Líder da bancada do PCdoB na Câmara e reeleita para mais um mandato parlamentar, Jandira defende que o próximo governo Lula tenha como eixo o desenvolvimento econômico e humano, com investimentos públicos, reindustrialização, autonomia científica e tecnológica e fortalecimento da soberania nacional. Para ela, a construção desse projeto exige enfrentar a pressão pelo aprofundamento do ajuste fiscal e manter a sociedade mobilizada para defender direitos e disputar os rumos do país.

Assista a íntegra da entrevista:

Desenvolvimento contra o aperto fiscal

Jandira destaca a industrialização, a economia da cultura e a economia digital como áreas estratégicas para impulsionar o desenvolvimento.

“Não há compatibilidade entre o projeto estratégico e o aperto do ajuste fiscal”, afirma Jandira, ao defender que o Estado brasileiro precisa investir para estimular a economia e ampliar o Produto Interno Bruto (PIB).

Na avaliação de Jandira, a autonomia nacional deve abranger ainda a comunicação, a cultura e a defesa, em um cenário internacional marcado por conflitos e disputas tecnológicas.

Soberania digital e regulação das plataformas

A entrevista também aborda a influência das grandes plataformas digitais no processo eleitoral. A deputada relata ter solicitado ao presidente da Câmara, Hugo Motta, que a regulamentação das plataformas volte à pauta legislativa. 

“Não dá para a gente ficar com os nossos dados nas mãos de plataformas estrangeiras”, afirma. A parlamentar defende o desenvolvimento de plataformas e de inteligência artificial brasileiras.

A mobilização popular como força política permanente

Ao analisar a campanha presidencial, Jandira destaca a expansão das manifestações no segundo turno, com a participação de estudantes, jovens, trabalhadores e idosos. Para a deputada, a reeleição de Lula resultou de uma mobilização que ultrapassou as estruturas partidárias e envolveu diferentes gerações na defesa de direitos e da democracia.

A parlamentar considera fundamental preservar essa capacidade de organização depois da eleição. Jandira cita a proposta de mobilizar cerca de 15 mil educadores populares para promover debates, ampliar a compreensão sobre políticas públicas e estimular a consciência crítica da população. “Se a gente perder o que a gente construiu no segundo turno, é a maior derrota que a gente pode ter”, afirma.

Frente ampla diante de um Congresso conservador

Diante de uma composição do Congresso Nacional que considera mais conservadora, Jandira defende uma articulação ampla para garantir governabilidade e evitar que a extrema direita controle os principais postos de comando do Legislativo.

Na Câmara, a deputada anunciou o apoio do PCdoB à reeleição de Hugo Motta, condicionado a compromissos relacionados à pauta legislativa, à democracia, à soberania, aos direitos da população e à composição das principais comissões da Casa.

A parlamentar sustenta que é necessário construir maioria para aprovar medidas de interesse nacional sem conceder à extrema direita o controle dos espaços estratégicos do Parlamento. Ela também manifesta preocupação com a disputa pela presidência do Senado.

Ao final do novo mandato, Jandira completará quatro décadas de atuação parlamentar.

Leia os principais trechos da entrevista:

A batalha e o exército

Inácio Carvalho: Jandira, a reeleição do Lula é um fato extraordinário, um acontecimento histórico por muitas razões. Entre elas, por essa mobilização imensa nas ruas e nas redes sociais… A virada que é uma coisa inédita, e a própria ameaça da volta do bolsonarismo a dirigir o país. Para você, que significado tem essa eleição? Que fatores determinaram esse desempenho tão bacana do Lula?

Jandira Feghali: Então, Inácio, acho que essa campanha requalifica o processo histórico. As pessoas reaprenderam a ir para as ruas. É uma coisa emocionante de ver. No primeiro turno, todo mundo dizia: “Que eleição atípica, que coisa morna. Parece que não tem eleição. Parece que as pessoas não estão ligadas em campanha”. De fato, você andava na rua, não via bandeira. Parecia que de fato não tinha eleição no primeiro turno.

Quando vira do primeiro para o segundo turno, houve uma explosão. Houve uma faísca puxada pela juventude estudantil em Niterói, com o pessoal da Faculdade de Direito, articulado pela UNE e pela nossa juventude, e essa explosão gerou a faísca que se espalhou pelo Brasil. E diferente das Diretas Já, que concentravam os atos nos grandes centros, esse segundo turno espalhou geral! Tudo que era município pequeno, periferia das cidades, todo mundo se manifestando, se mobilizando, fazendo acontecer. 

Me arrepio até, porque é um negócio muito lindo, porque as pessoas reocuparam a rua, a gente reocupou as redes, e essa organização do exército do Lula, que o Janones fez, foi muito importante, porque as pessoas também aprenderam a ocupar as redes de uma forma absolutamente corajosa, com destemor. Pessoas que nunca mexeram em celular começaram a mexer para postar coisa, para seguir as ordens do general… O próprio Lula começou a fazer ligação de selfie. [risos]

Eu acho que o primeiro turno deu um susto com os riscos que a gente tava correndo, e as pessoas tomaram a consciência do seu papel como protagonistas dessa história. Ao mesmo tempo a gente conseguiu desconstruir o que era a extrema direita, mostrar para a sociedade o que eles significavam, quem era Flávio Bolsonaro, mostrar o nível de corrupção, de sociedade com crime, de despreparo, de agressividade, de preconceito. O nível de vagabundagem, porque é um senador que, em 8 anos, não fez uma lei. Um cara que nunca trabalhou e não gosta de trabalhar, nem na política. Um cara desqualificado.

E o comportamento dele em seguida mostrou isso. Como é que alguém não reconhece o resultado da eleição, sabendo que foi uma eleição com lisura e com o resultado legítimo, apesar da turma dele ter tentado impedir os eleitores de chegar nas urnas? Os prefeitos bolsonaristas que tiraram o transporte, companhias aéreas que cancelaram voos para o Nordeste! Tem que investigar, inclusive, se isso também tava articulado com eles, porque não é possível! Tantos voos cancelados para o mesmo lado, para o mesmo destino. Não foi só de uma empresa, foi das três Um negócio muito feio que eles fizeram, e todo mundo percebeu isso.

Depois ele dizer que não ia fugir, que ia liderar a oposição, e se picou! Foi embora, o general abandonou a tropa e se mandou, foi embora! Porque ele sabe os crimes que ele cometeu, de lavagem de dinheiro tanto do filme como junto com aquele Wiler Tomaz, a questão do superfaturamento de vacina com propina, com Rolex, tudo isso ele sabia que ia enfrentar.

A fuga da democracia

Inácio Carvalho: Bem diferente da atitude do Lula quando foi preso e condenado injustamente. O Lula podia ter fugido também, pedido asilo…

Jandira Feghali: Podia, e não fez porque ele tinha certeza que ia ser inocentado. Como o Flávio tem certeza que vai ser culpado, ele saiu correndo de medo de enfrentar a Justiça, porque ele sabe os crimes que ele cometeu. Isso ficou também claro para a sociedade: quem não deve, não teme. Ele fugiu da democracia? Porque a democracia brasileira não impediu que eles elegessem uma bancada enorme, nem gente da família dele, e nem impediu que ele disputasse a eleição, só que ele não ganhou!

Então ele está fugindo de quê? Está fugindo dos crimes dele, porque da democracia não precisa ninguém fugir. É só aceitar o resultado e ir para a disputa de oposição, como a gente já sempre fez quando perdia: ia para a oposição e fazia a disputa legítima nas ideias. Mas eles não conseguem, porque eles são pessoas autoritárias, eles não sabem conviver com a democracia. E foi muito feio tudo isso. E com cobertura do governo norte-americano, que vai dar visto, vai acolher, vai dar o espaço para ele pegar o dinheiro que ele roubou daqui para viver lá.

Agora, não sabemos o que que eles vão armar contra o Brasil, então a gente tem que ficar muito ligado, muito atento. O Trump não reconheceu ainda a vitória brasileira; só ele e o Milei, porque o mundo todo já reconheceu. Tudo bem, não reconheceu, o que não pode é atuar contra o Brasil.

Uma vitória, muitos derrotados

Inácio Carvalho: Você é uma parlamentar que tem uma atuação, há muito tempo, intensa e extensa no ambiente da internet. Você tem quase um milhão de seguidores no Instagram, tem mais de 100 mil seguidores no YouTube e um milhão e meio no Facebook, além de você tratar esses temas de internet no seu mandato. Como é que você viu a batalha eleitoral nesse ambiente digital?

Jandira Feghali: Essa vitória do Lula, não é só uma vitória do Lula, é uma vitória do Brasil, porque nós derrotamos o Trump, derrotamos a Meta, derrotamos o Elon Musk junto. Nós derrotamos a parcialidade do TSE, derrotamos a parcialidade da grande mídia, derrotamos as fake news e toda a atuação canalha da extrema direita com as agressividades e com tudo que eles fazem. Então, foi uma vitória com V maiúsculo, porque nós derrotamos um esquema.

Quando o André Mendonça gerou a crise do Supremo, era uma crise encomendada pelo Departamento de Estado norte-americano, não tenho a menor dúvida sobre isso. A Lava Jato foi uma articulação do Departamento de Estado americano usando o Moro. E o Moro, que é aquele cara que não junta duas frases, não sei como passa num concurso de juiz federal, e que vira um governador agora no Paraná, lamentavelmente.

Mas se esse cara teve a capacidade de ser um instrumento, imagine um ministro do Supremo, como o André Mendonça. Então, não tenho a menor dúvida dessa articulação. No primeiro dia eu disse isso: isso é uma articulação, é um golpe, é uma tentativa de golpe jurídico novamente a partir de uma articulação externa com a extrema direita. Então, nós derrotamos isso tudo junto.

Foi uma vitória muito potente, porque nós tivemos o povo. Nós tivemos as pessoas segurando essa campanha. 

Claro que todos nós cumprimos um papel pela representação que temos, na campanha de segundo turno. A gente foi para os bairros, a gente foi para a rua, a gente foi para as redes, tudo isso a gente fez: denunciou, trouxe informação, tudo isso é muito importante. Mas se o povo não segura essa campanha na unha, a gente não teria virado essa eleição. Nós viramos isso com com a sustentação dessa juventude, do nosso povo, desse pessoal… Teve gente com 108 anos votando em cadeira de rodas, com andador, com maca.

Ontem, conversando com o presidente Hugo Motta, da Câmara, eu pedi a ele que a gente imediatamente colocasse em pauta a lei da regulação das redes. Eu participo da comissão especial da Inteligência Artificial, e disse para ele no ano passado: “Hugo, nós não podemos entrar nessa eleição sem regulação da IA. É temeroso, porque isso interfere na democracia brasileira, como as redes interferem nos processos democráticos internos dos países”.

Agora o ministro Flávio Dino abriu uma apuração sobre uma interferência estrangeira nas eleições, inclusive pelas redes. Ele acabou de abrir essa apuração, porque ficou muito visível o que as redes as as plataformas fizeram, como fazem em outros países, como fizeram na América do Sul inteira, como fizeram pela ação do Steve Bannon na época, os Engenheiros do Caos…

Ontem mesmo eu solicitei ao presidente da Câmara que recolocasse na pauta a questão da regulação das redes, porque nós precisamos resolver essa essa batalha rapidamente para evitar essa interferência tão pesada dentro das democracias e particularmente aqui no Brasil para o processo democrático.

O maior legado de governo

Inácio Carvalho: É isso. Jandira, na madrugada de domingo para segunda eu encontrei você ainda fazendo live à 1h30 da manhã. [risos] E você citou uma frase do Lula de que ele vai fazer o melhor governo. O que você acha que seriam marcas que poderiam fazer desse governo Lula um grande governo? Que aspectos você destacaria?

Jandira Feghali:”Vou fazer o melhor mandato da minha vida”. E eu vejo assim: primeiro, não há compatibilidade entre o projeto estratégico e o aperto do ajuste fiscal. Então o Dario Durigan está lá falando de ajuste, o capital financeiro está fazendo uma brutal pressão para cortar gastos, e na verdade o que nós temos que fazer é desenvolver a economia.

A industrialização brasileira, a economia da cultura, a economia digital, são coisas que a gente precisa apostar. Isso é uma marca, tem que ser uma marca do governo do Lula esse desenvolvimento econômico e humano que nós precisamos fazer e que passa ao largo de um aperto de ajuste fiscal, porque se não tiver investimento isso não vai acontecer. É preciso ter investimento, o Estado brasileiro precisa investir para que esse desenvolvimento aconteça. E quando você desenvolve a economia, a relação dívida/PIB se altera para baixo.Então, o que a gente precisa não é cortar gasto, é aumentar o desenvolvimento econômico e aumentar o PIB, e é isso que nós precisamos fazer. 

Segundo, nós precisamos demarcar a soberania digital brasileira. Não dá para a gente ficar com os nossos dados nas mãos de plataformas estrangeiras. O serviço público brasileiro usa plataformas de fora. O tráfego de votos das mais remotas localidades foram feitas pela Starlink, que é do Elon Musk. Tu imagina o que podia ter acontecido numa hora dessa?

Nós temos que ter a nossa plataforma brasileira, nós temos que ter a nossa IA brasileira e nós temos que ter soberania nesse campo.

Um outro aspecto que nós precisamos demarcar é fazer a maior disputa na independência tecnológica e científica. Nós precisamos inovar mais, nós precisamos estar muito acima na inovação, porque nós somos de uma grande produção científica, mas na inovação nós ainda estamos para baixo. Então nós precisamos ter a capacidade de apostar mais na pesquisa básica, na pesquisa aplicada, na ciência, na inovação, para que a gente dependa menos de tecnologia externa, inclusive em algumas áreas fundamentais como a própria indústria e como a própria saúde. Na saúde brasileira nós precisamos ter autonomia, então o complexo econômico-industrial da saúde precisa ser desenvolvido, pode ser uma grande marca do governo Lula. A gente viu o que aconteceu na pandemia. Para respirar, dependeu de importar respirador, nós não podemos mais depender disso.

Além disso, eu acho que nós precisamos demarcar muito a atuação na comunicação e na cultura, porque isso também é soberania. Sem soberania cultural não há soberania digital. Nós temos que apostar na defesa nacional. Nós não podemos correr risco num mundo em guerra, de ter uma defesa frágil. E temos… E o Lula tem que dar o exemplo na política de combate ao crime organizado.

Porque a educação já está na cabeça dele, já está estendendo. Tem quase mil Institutos Federais, ele já falou que vai universalizar o ensino integral, que são marcas importantes, mas eu acho que tem algumas marcas macro que nós vamos precisar fazer, inclusive, na relação com as cidades. 

Tem essa coisa da mobilidade urbana que ele tem falado muito: na infraestrutura, na mobilidade, no transporte público, no transporte aquaviário. Tem cinco ou seis grandes áreas que ele vai precisar demarcar para pensar o Brasil de 2050. Esse mandato não é o Brasil de 2030, é o Brasil de 2050 e é para lá que a gente precisa olhar quando pensa o último mandato do Lula.

Diálogo social para gerar consciência política 

Inácio Carvalho: Me permita acrescentar uma coisa, Jandira, que é essa relação com a sociedade, com os movimentos sociais…

Jandira Feghali: Na minha opinião, se a gente perder o que a gente construiu no segundo turno, é a maior derrota que a gente pode ter. O que a gente conquistou no segundo turno tem que ser mantido. Eu, inclusive, sou muito adepta da ideia do Frei Betto de que nós temos que ter aí uns 15 mil educadores populares. Nós precisamos botar educadores populares nos territórios, pessoas que provocam a consciência crítica, que provocam a reflexão, o debate das políticas públicas, que ausculta a sociedade para poder criar uma consciência crítica.

No segundo turno, eu encontrei uma jovem negra no Saara, que é o nosso comércio ppular. E ela disse: “Sou contra cota e acho que as pessoas vão para a universidade por mérito próprio”. Eu falei: “Deixa eu te falar uma coisa, a existência da cota é uma reparação mínima que se faz, e isso é uma escolha política, isso não caiu do céu! Isso é uma escolha política de definir que Brasil a gente quer, que universidade a gente quer e a quem a gente quer beneficiar. Isso é uma decisão política do governo Lula junto com o Congresso Nacional. Como não caiu do céu o fim da escala 6×1, como não caiu do céu ampliar as universidades e Institutos Federais, como não caiu do céu fortalecer o SUS. Então são decisões políticas!

A pessoa às vezes passa por uma lavagem cerebral da extrema direita, pela comunicação que os caras têm, e ela não consegue enxergar que há uma concepção de mundo embutida na política. Então esses educadores populares, as rádios comunitárias, a presença da esquerda no território, na grande comunicação… Esse exército que o Janones fez tem que multiplicar por três, por quatro! Dar uma estrutura para isso, uma estrutura nacional, fortalecer com recurso, com equipe. Para a gente botar o exército para falar com 40 milhões de pessoas todo dia! Toda semana! Encrencou no Congresso, é botar 40 milhões de pessoas na rede e nas ruas falando disso ao mesmo tempo! A gente não pode perder o que a gente conquistou nesse segundo turno,

Seja olho no olho na base, no território, seja com educador popular, seja fortalecendo essa mídia comunitária, essa chamada mídia livre, que tem que ser fortalecida, que fala para a comunidade, que fala para o bairro, como também essa grande rede popular de comunicação. Em 2030 não temos mais Lula! Lula não vai mais ser candidato a presidente.

Como é que nós vamos fazer a disputa de Brasil que a gente quer? Se a gente perder essa base que a gente conquistou no segundo turno, nós não vamos conseguir, então nós temos que manter isso aceso, vivo, estimulado, com debate, com formação, com rede de comunicação forte e com presença no território para que a gente possa fazer acontecer. 

E, ao mesmo tempo, no campo político e institucional, tem que manter esse diálogo amplo aqui dentro, senão não tem governabilidade. A gente precisa ampliar o diálogo para dar governabilidade ao Lula, porque a gente precisa aprovar as matérias importantes para o país.

A disputa no Poder Legislativo

Inácio Carvalho: Mas, Jandira, o Congresso eleito no primeiro turno foi um Congresso com um viés, mais conservador e de direita, expressões da direita no Senado. Como é que você vê os próximos quatro anos e como estão as articulações? Eu vi que nessa terça-feira, você já fez uma reunião com o Hugo Motta. O que você imagina para os próximos anos no mandato parlamentar no Congresso Nacional?

Jandira Feghali: A extrema-direita é muito arrogante, Inácio, porque eles já chegaram no primeiro turno e anunciaram que iam ganhar a Presidência da Câmara, do Senado e que iam botar para quebrar. Então, o que a gente entendeu? Esses caras não podem ter nem a Presidência da Câmara, nem a Presidência do Senado — a correlação do Senado ainda é pior do que a da Câmara. Então nós entendemos que tínhamos que fazer uma política de frente ampla para isolar a extrema direita e garantir governabilidade para o presidente Lula. Nós já anunciamos o apoio à reeleição do Hugo Motta, que é quem tem a chance de ganhar a presidência da Câmara contra essa extrema direita.

Nós fizemos reunião do PCdoB com o Hugo Motta, o PT também fez, o PV também fez, e a Federação colocou para ele compromissos na mesa: na questão democrática, da questão da soberania, a questão dos direitos do povo, a articulação das principais comissões para que a gente não deixe que a extrema direita domine os principais fóruns da Casa, porque nós precisamos aprovar as matérias mais importantes para o país. Então, ontem anunciamos o apoio ao Hugo Motta estabelecendo compromissos, e eu acho que o Hugo Motta tem toda a chance de ganhar a eleição isolando essa posição da extrema direita.

O Davi Alcolumbre vai ter uma dificuldade um pouco maior, mas acho possível ele também ganhar. Só espero que ele não faça muita concessão à extrema direita para ter essa vitória, porque aí é muito ruim. É muito ruim que essas concessões sejam estabelecidas para que ele possa ter essa vitória. Aqui [na Câmara] nós não estamos fazendo concessão nenhuma.

Ele já tem hoje, —no bloco que já manifestou apoio a ele—, 366 deputados. Então ele pode ganhar essa eleição sem precisar fazer concessão à extrema direita, e é isso que a gente espera que ele faça. E no Senado nós vamos ter que acompanhar.

(por cezar xavier)