Foto: Rodrigo Viera Amaral/ La Diaria

Neste 20 de maio, como acontece há 30 anos, milhares de uruguaios tomaram uma das principais avenidas do Centro de Montevidéu, a 18 de Julho, num emocionante protesto silencioso por memória, verdade e justiça pelos mortos da ditadura militar.

Sob o frio da noite, a 31ª Marcha do Silêncio reuniu idosos, jovens, adultos e crianças que portavam fotos, faixas e margaridas sem uma das pétalas — símbolo dos desaparecidos — para seguir reivindicando que o Estado responda onde estão os ao menos 205 uruguaios cujo paradeiro até hoje é desconhecido.

A data em que a marcha ocorre faz referência ao dia em que houve, em 1976, o sequestro e assassinato dos parlamentares Zelmar Michelini e Hector Gutierrez Ruiz e dos militantes Rosario Barredo e William Whitelaw.

A dor de ver tantos cidadãos comuns caminhando lado a lado, sem externar nenhuma palavra, há tantas décadas, cala fundo também para quem, aqui no Brasil, sabe o que é a incansável luta de familiares, partidos e movimentos sociais para que as Forças Armadas abram seus arquivos definitivamente e o Estado brasileiro pague essa dívida histórica.

No entanto, diferentemente daqui, no Uruguai a causa não ficou circunscrita aos militantes de esquerda, dos direitos humanos e parentes, espraiando-se por praticamente toda a sociedade, em todas as gerações.

A questão dos mortos e desaparecidos é majoritariamente respeitada e apoiada e os crimes da ditadura são repudiados, seja nas falas de autoridades e cidadãos comuns, seja em livros, filmes ou nas murgas, uma das grandes marcas da cultura uruguaia.

Aqui no Brasil, ao contrário, boa parte da população desconhece essa luta; outras parcela finge não ver essa luta. Mas, o pior é haver uma fatia nada desprezível que apoia ditaduras, a tortura e o extermínio de adversários; e como se isso fosse pouco, ainda zomba dos que até hoje não sabem o que aconteceu com um filho, uma irmã, um tio.

Mesmo governado por Yamandu Orsi, da Frente Ampla, o Uruguai segue tendo de batalhar para dar passos adiante nessa luta. No começo deste mês, o presidente recebeu representantes da organização Mães e Familiares de Presos Desaparecidos. Na ocasião, eles solicitaram que a presidência desse uma “ordem formal” às Forças Armadas para que as informações sobre o paradeiro dessas pessoas sejam entregues.

De acordo com um dos representantes da organização presentes ao encontro, Ignacio Errandonea, o presidente afirmou que o governo estaria estudando como viabilizar essa possibilidade. “Não há informação nova. O trabalho para se acessar os arquivos é lento”, diz Errandonea, que atribui esse ritmo às “travas burocráticas”, conforme noticiou o jornal uruguaio La Diaria.

“Você vê pessoas com empatia e tudo mais, mas quando chega nos comandantes, as coisas escorregam. Não é uma coisa pessoal, o problema são as instituições”, diz Nilo Patiño, também integrante do movimento, ao La Diaria, durante a marcha.

Naquela reunião, o movimento também pediu a Orsi que fizesse um chamado à população para a entrega de documentos e informações que possam ajudar nas buscas. Isso porque muitos desses documentos podem ter sido retirados dos arquivos oficiais e guardados nas residências de membros da ditadura.

Pouco depois do encontro, o Senado do país aprovou (com votos da situação e da oposição, algo inimaginável aqui ) uma declaração formal solicitando à sociedade a entrega desses documentos à Instituição Nacional de Direitos Humanos e Defensoria do Povo.

O órgão, aliás, divulgou recentemente que trabalha em 243 denúncias de desaparecimento forçado por razões políticas ocorridos entre 1968 e 1985. A ditadura no país vizinho teve início em 1973, mas mesmo antes já havia episódios de repressão, motivo que fez com que fosse estendido o período a ser analisado. Por ora, a lista oficial de desaparecidos é composta por 205 nomes.

A questão dos documentos das Forças Armadas, tal qual acontece aqui, é um problema em aberto e de difícil resolução. Horas antes da Marcha ter início, o comandante em chefe do Exército uruguaio, Mario Stevenazzi, disse que a Força “não esconde documentação” sobre os desaparecidos.

Durante a marcha, questionada sobre a declaração, a vice-presidenta da República, Carolina Cosse respondeu, após refletir por alguns segundos: “prefiro marchar em silêncio”. E salientou: “as terríveis e angustiantes situações vivenciadas pelos familiares que caminham nessa marcha com cartazes dos desaparecidos e desaparecidas são uma causa muito maior do que as situações pessoais. São uma causa nacional de construção de verdade, memória e justiça”.

Com agências