Fruto da nova geração política, Giovana quer fortalecer esquerda na Câmara
Mais do que reconhecida por seu desenvolvimento, nos últimos anos Santa Catarina passou a ser um território-símbolo da extrema direita. Dos 16 deputados federais, apenas dois são do campo da esquerda; no Senado, todos são de direita. O estado está nas mãos de um dos mais bolsonaristas dos governadores brasileiros, Jorginho de Mello (PL), e dos 40 deputados estaduais, apenas seis são do campo popular.
Mas, mesmo em meio a essa maré reacionária, novos nomes emergem com força na esquerda. Um deles, o de Giovana Mondardo, vereadora do PCdoB de Criciúma, a mais jovem e mais votada da cidade. Ela exerce seu segundo mandato, com apenas 33 anos, e também é suplente de deputada federal, cargo ao qual é pré-candidata neste ano, além de cirurgiã-dentista e professora.
A vereadora salienta que Santa Catarina passa por um momento complexo no campo político, mas recorda que o estado também tem uma tradição alinhada ao campo da luta popular e de esquerda: “Somos de esquerda num estado que ‘está’ conservador, o que atribuo ao período histórico que vivemos. Afinal, Santa Catarina foi central para a consolidação do MST; foi o berço de Antonieta de Barros (primeira mulher negra eleita deputada estadual no País em 1934) e da revolucionária Anita Garibaldi. Também foi o estado que, em 2002, proporcionalmente deu mais votos para a primeira eleição do presidente Lula”, afirma.
Mas, considerando a predominância atual do conservadorismo no estado, é preciso destacar que a trajetória bem-sucedida de Giovana não vem de alguma “ilha” progressista no estado. Afinal, ela não apenas é a única vereadora de esquerda de Criciúma — que, aliás, tem quatro representantes, todos de direita, na Câmara dos Deputados — como também do Sul do estado.
Mesmo em meio a esse cenário, a atuação de seu mandato içou Giovana à posição das boas exceções à regra geral. Autora de ao menos 40 projetos aprovados, ela também se notabiliza por seu trabalho na fiscalização dos problemas da cidade e na luta de ideias, especialmente via redes sociais, onde explora as contradições da extrema direita e busca desconstruir velhos tabus em torno da esquerda, focada especialmente na juventude.
“Eu tenho dito que faço parte de uma nova geração de políticos catarinenses e acho que é fundamental o processo da renovação dos quadros, tanto em Santa Catarina quanto no Brasil, inclusive para enfrentar o momento atual”, salienta Giovana.
Confira abaixo os principais trechos da entrevista, originalmente publicada no Portal do PCdoB.
Espírito do tempo
“Somos de esquerda num estado que ‘está’ conservador, o que atribuo ao período histórico que vivemos. Afinal, Santa Catarina foi central para a consolidação do MST; foi o berço de Antonieta de Barros (primeira mulher negra eleita deputada estadual no País em 1934) e da revolucionária Anita Garibaldi. Também foi o estado que, em 2002, proporcionalmente deu mais votos para a primeira eleição do presidente Lula. Atualmente, o estado passa por um momento de maior alinhamento com a direita e principalmente de uma disputa muito séria de consciências e de narrativas. E eu tenho me dedicado a fazer também essa disputa”.
Desconstruindo a direita
“Nesse cenário, procuro lidar com a extrema direita no campo das ideias. A gente vê que muitas vezes eles são violentos e amedrontadores mesmo, mas eu acho que essa condição aconteceria com qualquer um que tivesse as nossas ideias e pensamentos na Câmara de Vereadores— e neste momento, essa pessoa sou eu. Por isso, acho que a coragem é imperativa para quem se coloca à disposição para ser representante das forças populares em Santa Catarina”.
Pior governo do Brasil
“O governo de Jorginho Mello (PL) é o pior do Brasil. Ele que não conversa com o presidente da República e não se dispõe sequer a mandar um representante nas visitas de Lula ao estado, nem que seja para reivindicar aquilo que é estritamente necessário para o desenvolvimento de Santa Catarina. Ou seja, o compromisso dele é com o próprio projeto de reeleição e com a família Bolsonaro”.
Sequestro do orçamento
“Do ponto de vista nacional, é preciso salientar que o presidente Lula conseguiu estabelecer um novo tempo no Brasil, com mudanças econômicas e sociais importantes. Por isso, entendo que parte dos nossos principais desafios está no Congresso Nacional.
É preciso mostrar à sociedade que essa mudança na condução do orçamento — que aconteceu no governo de Michel Temer (MDB) e que se fortaleceu no governo de Jair Bolsonaro (PL) — impede que o governo avance e impacta diretamente na implantação de uma agenda progressista e popular, capaz de estabelecer um novo projeto nacional de desenvolvimento para o Brasil que melhore a vida das pessoas.

Atuação na Câmara de Criciúma
“Sou a única vereadora de esquerda do Sul de Santa Catarina, onde fica Criciúma. Esse é um grande desafio: somos poucos na região. Ainda assim, este é o meu segundo mandato. Fui reeleita como a vereadora mais votada na última eleição, numa cidade conhecida por ser bastante conservadora.
Ao longo dos anos, a gente conquistou relevância e atribuo isso a alguns elementos. O primeiro, é a entrega: a gente tem mais de 40 leis aprovadas, boa parte voltada para defender as mulheres. Além disso, temos uma atuação muito presente de fiscalização nas comunidades e em toda a cidade, assim como desempenhamos papel importante na disputa de narrativa nas redes sociais.
Eu tenho dito que faço parte de uma nova geração de políticos catarinenses e acho que é fundamental o processo da renovação dos quadros, tanto em Santa Catarina quanto no Brasil, inclusive para enfrentar o momento atual”.
Pré-candidatura à Câmara dos Deputados
“Acho que um dos pontos que me dá boas condições para entrar nessa disputa é justamente a atual representação desqualificada do meu estado no Congresso Nacional. Na Câmara, dos 16 deputados, apenas dois são do campo de esquerda. A região Sul de Santa Catarina concentra 33% de deputados federais catarinenses — só da minha cidade são quatro. E nenhum deles se propõe a se comunicar com o governo federal para sanar os problemas da região.
Portanto, entendo que essa sub-representação — do ponto de vista da qualidade dos mandatos — é o que faz com que a gente fique atrás no desenvolvimento do estado. Considerando tudo isso, eu quero ser a ponte de comunicação entre o governo do presidente Lula e a região Sul do estado e ajudar a resolver os problemas da minha região”.
Pelos trabalhadores e pelas mulheres
“Além dessas questões, quero representar a defesa de uma pauta popular, a favor dos trabalhadores e das mulheres, em especial nesse momento grave que vivem as brasileiras. Quero lutar contra o rebaixamento das políticas públicas e apresentar propostas mais substanciais. Não é natural essa onda de feminicídio assolando o Brasil. A gente precisa constituir novas e melhores propostas não só legislativas, mas também no sentido de estabelecer incentivos e arranjos necessários para superar a violência e a cultura do machismo.
Em defesa da juventude
“Ao mesmo tempo, quero também representar a juventude. Um dos desafios é o de olhar para educação não só como uma forma de permitir o acesso ao ensino superior, mas também de criar condições para que esses jovens deixem o mercado precário de trabalho. É preciso dar condições para a gente colocar dinheiro no bolso e comida no prato, mas principalmente qualidade de vida e desenvolvimento social para os jovens”.


