Trump e Xi encerram cúpula sob promessa de estabilidade entre EUA e China
Donald Trump deixou a China nesta sexta-feira (15) dizendo ter conseguido acordos comerciais “fantásticos” e uma oferta de ajuda do líder chinês Xi Jinping para desbloquear o Estreito de Ormuz. A bordo do Air Force One, o presidente dos Estados Unidos decolou de Pequim no início da tarde (manhã no Brasil), encerrando uma visita de 48 horas marcada pelo simbolismo geopolítico.
Na quinta (14), Trump foi recebido por Xi no Grande Palácio do Povo, onde participaram de um banquete e reuniões formais. Já nesta sexta, o republicano visitou Zhongnanhai, complexo que abriga a liderança chinesa ao lado da Cidade Proibida. Os dois caminharam juntos pelo jardim imperial.
Foi nas imagens de sexta-feira que, pela primeira vez durante a visita, Trump sorriu ao ser fotografado pela imprensa chinesa. O detalhe foi amplamente comentado por observadores da relação bilateral como um gesto de significado diplomático.
A Casa Branca busca ampliar a presença de empresas norte-americanas no mercado chinês e aliviar sua agenda no Oriente Médio. A China, por sua vez, precisa de previsibilidade para sustentar seu desenvolvimento e preservar o acesso a mercados e tecnologias ocidentais. O que une Trump e Xi, paradoxalmente, é o pragmatismo: uma ruptura seria cara demais para ambos.
Sem anúncios transformadores ou acordos detalhados, a visita parece ter alcançado seu principal objetivo: reduzir tensões e administrar a rivalidade entre as duas maiores potências do planeta, apesar das divergências em temas como Taiwan, Irã, inteligência artificial e segurança energética.
Diplomacia ante incertezas
Segundo a agência estatal Xinhua, Xi e Trump tiveram uma “troca aprofundada de opiniões” sobre pautas centrais da agenda bilateral e internacional, alcançando “novos entendimentos comuns”. Pequim descreveu a viagem como um “marco” nas relações sino-americanas, enquanto Xi defendeu uma relação “construtiva, estratégica e estável”.
Trump insistiu na retórica de grandes resultados econômicos. Disse ter fechado “acordos comerciais fantásticos” e afirmou que sua relação pessoal com Xi pode produzir avanços que outros presidentes não conseguiram alcançar.
Para Xi, a visita também teve utilidade estratégica. Segundo o Washington Post, a cúpula reforçou a tentativa chinesa de se apresentar como potência equivalente aos EUA na governança global. Trump chegou a usar a expressão “G-2” para se referir aos dois países. Em meio à guerra no Irã, às tensões no Indo-Pacífico e às incertezas econômicas, Pequim tenta consolidar a imagem de ator previsível e indispensável à ordem internacional.
Taiwan, Irã e Ormuz
O tema mais sensível voltou a ser Taiwan. Já na quinta-feira, Xi advertiu que erros nessa questão podem levar a “confrontos e até conflitos”, reiterando que a ilha continua sendo “a questão mais importante” das relações bilaterais.
Segundo o New York Times, Trump revelou que discutiu “em detalhes” com Xi a venda de armas para Taiwan, sem expor conclusões. O silêncio conjunto foi interpretado por analistas como uma tentativa de administrar a tensão sem agravá-la.
Outro eixo importante da visita foi a crise envolvendo o Irã e o Estreito de Ormuz. Trump afirmou que ele e Xi concordaram que o estreito “deve permanecer aberto” para garantir o fluxo global de energia. A China, principal compradora do petróleo iraniano, depende dessa rota. Já os EUA tentam evitar um choque energético em meio à escalada militar no Oriente Médio.
O Ministério das Relações Exteriores da China defendeu “um cessar-fogo abrangente e duradouro” e pediu a reabertura imediata das rotas de navegação. Trump afirmou ainda que Xi prometeu não fornecer equipamentos militares ao Irã, algo que Pequim não confirmou publicamente.
O episódio expôs um padrão frequente da diplomacia trumpista: enquanto o presidente dos EUA costuma apresentar conversas diplomáticas como vitórias pessoais imediatas, a China prefere formulações graduais e institucionalmente controladas.
Comércio, IA e simbolismo político
No plano econômico, Trump tentou vender a viagem como um sucesso comercial, embora não tenham sido divulgados detalhes dos acordos anunciados. Autoridades norte-americanas mencionaram compras chinesas de produtos agrícolas, petróleo e aviões da Boeing, além de discussões sobre acesso ao mercado chinês. Segundo o secretário do Tesouro, Scott Bessent, mecanismos de segurança para o uso da inteligência artificial entraram em pauta.
Em entrevista à Fox News, Trump disse que a China vai “investir muito na soja” e comprar petróleo norte-americano. Também afirmou que Xi concordou em adquirir 200 aviões da Boeing. Analistas e o CEO da empresa, porém, trabalhavam com expectativa de até 500 aeronaves, e as ações da Boeing caíram após os comentários.
Apesar disso, o simples fato de as duas potências priorizarem o diálogo econômico foi interpretado positivamente por parte do mercado e da imprensa internacional. A Deutsche Welle destacou a repercussão favorável da visita, sobretudo pelo esforço de contenção diplomática.
Os dois líderes trocaram elogios públicos. Trump chamou Xi de “grande líder” e declarou ter “enorme respeito” pelo povo chinês; Xi respondeu dizendo que Trump é seu “velho amigo” e que a relação entre os dois países “certamente vai melhorar”.
Um comentário lateral de Trump talvez resuma o significado político da visita. O presidente norte-americano disse que Xi descreveu os EUA como um país em declínio – “de forma elegante”. Para um líder cujo slogan é “Make America Great Again”, a observação soou como uma rara concessão simbólica.
A viagem ocorre em meio a uma distensão comercial iniciada em outubro de 2025, quando Washington concordou em reduzir tarifas sobre produtos chineses e Pequim suspendeu restrições à exportação de terras raras. A cúpula buscou preservar essa trégua. Trump chegou à China tentando reafirmar sua capacidade de negociação internacional. Xi aproveitou a visita para reforçar sua imagem de liderança estável e central na política global.
O principal resultado do encontro foi a sinalização de que Washington e Pequim ainda veem valor político em manter canais de diálogo abertos, mesmo em um cenário de rivalidade crescente. Trump disse estar ansioso para receber Xi nos EUA em setembro. Se o encontro acontecer, será o próximo capítulo de uma relação que, por ora, escolheu a coexistência tensa em vez da confrontação aberta.


