O Acre ferido: Mário de Andrade e o tiro que ecoou no mato-virgem
Antes de embarcar em sua viagem de 69 dias pela Amazônia, em 1927, Mário de Andrade (1893-1945) nunca havia pisado no Acre. Mas o escritor paulista já imaginava aquela terra como o ventre do Brasil, um lugar onde o País ainda era matéria bruta, seiva, silêncio verde e suor de seringueiro. Nesse limite extremo, Mário vislumbrou o “mato-virgem” – expressão que ele usava com a reverência de quem fala de algo sagrado e intocado.
Os Dois Poemas Acreanos, escritos em 1925, representam uma descoberta íntima do Brasil, numa busca tanto da alma brasileira quanto da unidade nacional. Em Descobrimento, um Mário “abancado à escrivaninha” de sua casa começa a pensar num homem do Norte que dorme “depois de fazer uma pele com a borracha do dia”. O poeta conclui: “Esse homem é brasileiro que nem eu…”.
Em Acalanto do Seringueiro, Mário renova o interesse pelo homem acreano e mostra o seringueiro como figura forte, quase fundida à árvore, como se carregasse a própria seiva do País. O poema também idealiza e celebra a terra: “Como será a escureza / Desse mato-virgem do Acre? / Como serão os aromas / A macieza ou a aspereza / Desse chão que é também meu?”.
Nesta terça-feira (5), o Acre – esse lugar tratado durante décadas como borda – foi descoberto novamente: um menino de 13 anos entrou no Instituto São José, em Rio Branco, com um revólver na mão. A mesma mão que poderia estar desenhando no caderno apertou o gatilho. Duas servidoras morreram.
O mato-virgem virou manchete como ferida aberta, feito um experimento brutal das violências que o País naturalizou. E o Brasil, que tanto ignora o Acre, parou para contemplá-lo com o olhar episódico de quem só vê a dor.
O Acre carrega esse fardo de existir no imaginário nacional como abstração geográfica. Mas o Acre existe com gente que acorda cedo, trabalha em escola pública e educa filho alheio, como Márcia e Rosana – as servidoras que chegaram ao Instituto São José sem saber que não voltariam para casa.
No Acalanto do Seringueiro, Mário escreveu com ternura sobre o homem da floresta, o trabalhador invisível, o brasileiro do fundo, aquele que o País consome sem nunca ver. Havia naqueles versos um gesto de reconhecimento. O escritor sabia que certas vidas precisam ser nomeadas para que existam de verdade na consciência coletiva.
As servidoras do Instituto São José merecem o mesmo gesto. Eram mulheres de um estado que se construiu na borracha, na castanha e no suor de quem desbravou floresta sem mapa. Elas foram trabalhar numa escola conveniada à rede estadual, numa cidade que não aparece nos grandes jornais, a não ser quando sangra.
A responsabilidade pelo ataque no Acre também precisa ser nomeada. Uma criança de 13 anos não fabrica arma, mas encontra um revólver porque alguém o deixou à disposição. Quantas pessoas acreditam que ter uma arma em casa é direito natural, omitindo os riscos da cultura armamentista?
Existe uma dignidade específica em quem vive numa terra esquecida, numa região que a geografia e o descaso tornaram difícil. Rio Branco tem poetas, artistas, pesquisadores e professores que amam o que fazem. O Acre tem floresta que os próprios acreanos guardam com uma lealdade que deveria envergonhar quem mora nos centros e fala em progresso enquanto desmata com a caneta.
Esse Acre real, vivo e resistente não cabe na manchete de agora. Mas está lá, debaixo da dor, esperando que a comoção passe para voltar a ser o que sempre foi: um povo que insiste. Se o mato-virgem de Mário de Andrade era símbolo de pureza e potência – o cenário mítico onde nasce o herói de Macunaíma, carregando em si as contradições do País –, as balas que atravessaram o Instituto São José simbolizam tudo que corrompemos desde então.
Mário de Andrade foi ao Norte em 1927 para aprender o Brasil e encontrou no Acre uma imagem inaugural. Voltou diferente. Escreveu que a viagem foi uma espécie de morte e renascimento: o contato com aquele Brasil profundo despedaçara suas certezas de intelectual paulistano. Transformado, o poeta nos alertou para a urgência de proteger aquilo que ainda pode florescer.
O Brasil precisaria fazer o mesmo hoje e ir até lá para entender que o Acre merece luto pelas mortas de ontem e políticas sérias de desarmamento. Os acreanos merecem aparecer no mapa em vida. Em vez de palco de tragédia, o Acre quer ser o que Mário intuiu antes mesmo de chegar lá: o lugar onde o Brasil ainda tem chance de se descobrir de outro jeito.
(São Paulo, 6 de maio de 2026)


