Mídia na guerra: a verdade como primeira vítima, analisa Laurindo Leal Filho
Telejornal brasileiro sempre ilustra noticiário sobre a guerra no Irã com bandeiras de EUA e Israel, chamando correspondentes em Nova York ou Telaviv, e pontuando supostos avanços da guerra a partir de releases da Casa Branca
A nova edição do programa Entrelinhas Vermelhas, veiculada nesta quinta-feira (2), traz uma reflexão urgente e necessária sobre um tema que atravessa todas as esferas da vida contemporânea: o papel da mídia nas guerras do século 21. Com a participação do professor Laurindo Leal Filho (Lalo), jornalista, sociólogo e diretor do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, o debate desmonta a ilusão de neutralidade informativa e expõe como os grandes veículos atuam como correias de transmissão de narrativas oficiais que justificam intervenções militares e minimizam tragédias humanitárias.
Assista a íntegra da entrevista:
“Na guerra, a primeira derrotada é a verdade”
A frase, atribuída a diversos pensadores ao longo da história, serve como fio condutor da análise de Lalo. Segundo ele, em situações de conflito como os atuais ataques dos EUA e Israel ao Irã, o poder de contenção da verdade — ou, mais precisamente, de imposição da meia-verdade — alcança níveis exponenciais. “Não se conta o todo, se conta apenas uma parte”, explica. O resultado é uma censura rigorosa, não por decreto, mas por seleção editorial: o que não interessa ao poder dominante simplesmente não aparece.
O exemplo é contundente: enquanto a mídia ocidental destaca supostos avanços militares, silencia sobre fatos como a destruição de uma estação central de trem em Tel Aviv por ataques iranianos. “Isso não aparece na mídia brasileira”, observa Lalo. A omissão não é acidental: é estratégica.
A linguagem como arma de guerra
Um dos pontos mais instigantes da entrevista é a análise do poder da linguagem na construção do imaginário bélico. Lalo retoma expressões como “ataques cirúrgicos”, cunhadas durante a invasão do Iraque, para demonstrar como termos aparentemente técnicos servem para suavizar a violência e criar uma falsa sensação de precisão e controle.
A escolha vocabular revela alinhamento político: governos adversários são “regimes”; seus líderes, “ditadores” ou “teocratas”. Já aliados são “governos democráticos”, mesmo quando controlados por monarquias absolutistas. “As palavras têm um sentido que vai muito além do simples olhar inicial”, alerta. Todas são carregadas de conteúdo político — e, na guerra, essa carga é multiplicada.
Do século 19 ao algoritmo: uma estrutura que persiste
Lalo oferece uma aula de história da comunicação para contextualizar o presente. As três grandes agências telegráficas do século 19 — Reuters (Reino Unido), Havas (França) e uma alemã, a Wolff — dividiram o mundo em esferas de influência, como um “Tratado de Tordesilhas” informativo. No século 20, agências estadunidenses romperam esse monopólio, impondo os interesses de Washington como universais.
A tentativa de resposta do Sul Global, nos anos 1960, com a proposta de uma Nova Ordem Mundial da Informação e da Comunicação via Unesco, foi sufocada quando EUA e Reino Unido se retiraram da organização. “A informação tinha um peso quase semelhante à presença da Palestina na ONU”, ironiza. Hoje, apesar das redes sociais, a estrutura básica permanece: os interesses dos países dominantes continuam sendo veiculados como notícia global.
Concentração midiática e interesses econômicos
No Brasil, a análise ganha contornos ainda mais graves. Lalo aponta que o país possui uma das maiores concentrações de meios de comunicação do mundo democrático. E essa concentração não é acidental: reflete a penetração de outros setores econômicos — imobiliário, agronegócio, mercado financeiro — no controle editorial.
“A Folha de S.Paulo é um jornal para o mercado financeiro, do mercado e para o mercado financeiro”, exemplifica. O controle não se dá mais apenas pela pressão publicitária, mas pela propriedade direta: quem é dono do veículo define a linha. O resultado é um jornalismo que abandona a função social para se tornar instrumento de disputa política.
Jornalismo de guerra: uma arma eleitoral
O conceito de “jornalismo de guerra”, cunhado por um jornalista argentino durante o confronto entre a imprensa e o governo Kirchner na Argentina, é aplicado por Lalo ao cenário brasileiro. Aqui, a guerra é eleitoral, mas não menos violenta. “Os jornais têm um partido”, afirma. Sem capacidade de construir uma candidatura de centro, a mídia hegemônica lança-se nos braços da extrema direita.
As armas são conhecidas: seleção de pautas, uso de slogans de fácil introjeção (“mensalão”, “petrolão”, “rachadinha”) e a falsa técnica de “ouvir os dois lados” — que, na prática, serve para dar aparência de equilíbrio a narrativas previamente construídas. “É uma lavagem cerebral propiciada através das mídias”, conclui.
Alternativas e resistência
Diante desse quadro, qual o papel da mídia alternativa, popular ou anti-hegemônica? Para Lalo, a resposta passa por reconhecer que o problema é estrutural: faz parte da lógica do capitalismo global e, no Brasil, de um capitalismo com fortes traços monopolistas. “Não há uma contenção a essa formação de monopólios”, lamenta.
A saída, portanto, não é apenas denunciar, mas lutar por políticas públicas que ofereçam alternativas reais à concentração. “A democracia brasileira não será autossustentável e ampla se continuarmos tendo essa concentração de meios”, sentencia. Enquanto isso, a mídia de combate cumpre seu papel: furar o cerco, contextualizar a informação e devolver ao cidadão a capacidade de pensar por si mesmo.
Por que assistir esta edição?
O Entrelinhas Vermelhas desta semana é essencial para quem busca compreender como a informação é instrumentalizada em tempos de conflito e polarização. Com clareza didática e densidade analítica, Lalo conecta história, economia e política para mostrar que a disputa pela narrativa é parte inseparável da disputa pelo poder.
Em um momento em que guerras reais e guerras de informação se confundem, a edição reafirma uma convicção fundamental: sem diversidade de vozes e sem compromisso com a verdade contextualizada, não há democracia possível. Como resume o próprio entrevistado: “É uma coisa estrutural, que não se rompe apenas lutando dentro, mas também lutando fora, na formulação de novas políticas”.
cezar xavier

