Conferência Antifascista alerta para ameaças do bolsonarismo e do imperialismo
O Brasil sob a ameaça da ultradireita e do imperialismo foi o tema de uma das mesas realizadas durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista e pela Soberania dos Povos, que acontece em Porto Alegre até o domingo (29). O tema foi debatido por lideranças dos principais partidos de esquerda brasileiros e de outros países na tarde da sexta (27).
A mesa teve como palestrantes Nádia Campeão, presidenta em exercício do PCdoB; Tarso Genro, ex-ministro e ex-governador do Rio Grande do Sul e representante do PT; a professora Jana Silverman (EUA); o eurodeputado João Oliveira (PCP, Portugal); a presidenta do Psol, Paula Coradi e o presidente do PSB-RS, Beto Albuquerque, além dos debatedores Leonel Radde, deputado estadual (PT-RS) e Tica Moreno, da Marcha Mundial das Mulheres.
A presidenta do PCdoB, Nádia Campeão, iniciou sua fala lembrando que a extrema direita sempre esteve presente na política brasileira, citando como exemplo a Ação Integralista Brasileira, surgida nos anos 1930. Embora tenha sofrido uma forte derrota com sua intentona de 1938, foi um movimento que deixou ecos na sociedade e em especial nas Forças Armadas que, anos depois, promoveram o golpe de 1964.
“No regime ditatorial, estavam presentes, de forma concreta, os elementos que caracterizam a extrema direita, o fascismo, que assumiu poder de Estado no Brasil — e vimos a brutalidade e a violência com que agiam, em conjunto com o mesmo movimento golpista em outros países da América do Sul. Por trás disso, já tinha o papel dos EUA”, salientou.
A transição para a democracia, prosseguiu Nádia, “deixou resquícios, que chamamos de entulho autoritário, e não se desmantelou o núcleo duro da ditadura — tivemos oficiais formados na doutrina de Segurança Nacional e que permaneceram nas Forças Armadas e nas polícias, preservando uma memória autoritária e resistindo à punição dos crimes de tortura, desaparecimentos e execuções”.
Dessa forma, restou um ambiente de impunidade que permitiu a esses setores se reorganizarem politicamente décadas depois, impulsionados, ainda, por outros fatores como a Operação Lava Jato.
“O bolsonarismo é uma expressão contemporânea dessa corrente neofascista no Brasil, ou seja, com um dito nacionalismo exacerbado e de caráter racista, anticomunista viceral e que cultua a violência para justificar a repressão contra trabalhadores, mulheres, negros, indígenas e a população periférica, sempre em defesa dos interesses do grande capital”, acrescentou Nádia.
Além desses elementos, a dirigente comunista também destacou o uso das redes sociais como um instrumento para estimular sentimentos de ódio a esses grupos e insuflar a visão e os interesses da extrema direita. “É preciso também somar a esse complexo a formação de milícias, algo muito brasileiro, que é uma derivação da violência policial e que está colada à gênese do bolsonarismo e do próprio Flávio Bolsonaro”, sublinhou.

Nádia salientou, ainda, que o bolsonarismo “também é fruto da ofensiva da direita contra os avanços obtidos nos governos do presidente Lula e da presidenta Dilma Rousseff. É, ainda, o condomínio das forças políticas mais atrasadas, junto com a chamada grande mídia e o imperialismo norte-americano”.
Nos últimos anos — após as derrotas de 2022 e da tentativas de golpe de 2022 e 23 — a extrema direita se rearticulou para disputar a eleição presidencial com Flávio Bolsonaro. “Se vencer, ele já declarou que vai anistiar o pai e o núcleo golpista, todos condenados e presos. E também declarou que se sua decisão for contestada pelo Supremo Tribunal Federal, ‘infelizmente terá de passar por cima’ da Corte. Ou seja, já disse publicamente que está disposto a novas iniciativas golpistas, além de já ter deixado claro que é pró-EUA e Trump e a favor das posições de Israel”.
Nesse cenário, disse Nádia, “estão profundamente combinadas a luta pela democracia e pela soberania e contra o fascismo. E não temos como não travar essa luta neste ano em torno da reeleição do presidente Lula, que é a liderança capaz de conduzir esse enfrentamento junto com forças populares, democráticas, progressistas e da esquerda brasileira para esse enfrentamento”.
A dirigente comunista terminou dizendo que “a história nos indica que é preciso ter uma ampla frente antifascista, democrática e anti-imperialista para a gente vencer. E podemos vencer porque nós vencemos em 22 e 23. Mas, é preciso apresentar um programa avançado que renove as esperanças do povo brasileiro”.
A naturalização do bolsonarismo

Ao aprofundar o entendimento sobre o bolsonarismo, Tarso Genro se dedicou a expor suas especificidades a partir de quatro naturalizações pelos quais esse movimento passou e que permitiram seu crescimento e aceitação social.
“A primeira é a naturalização da palavra delinquente feita entre as instituições e a grande mídia monopolista. E tem um momento primeiro determinante nesse processo: quando Bolsonaro vai ao microfone e celebra a tortura. Num Estado de direito funcional, que cumprisse com as suas promessas de combate ao crime, ao fascismo, à ditadura, o Bolsonaro teria de ter sido preso naquele momento e não foi. Também poderia ter sido degradado pela mídia, mas foi compreendido (…). A barbárie, portanto, foi naturalizada pela palavra”, pontuou.
A segunda naturalização, disse, foi a da “esquisitice do príncipe”. “Todos vocês devem ter ouvido o que eu ouvi: ‘o Bolsonaro não é isso que ele aparenta, ele só faz um tipo, nada do que ele diz vai ser cumprido” e que ele ‘é a favor do rigor na segurança pública’. Eu dizia que o Bolsonaro, de fato, tinha um projeto de segurança pública: a organização do messianismo assassino para entrar nos bairros, vilas, morros, favelas e matar aqueles que eles decidem que são criminosos”.
A terceira naturalização, argumentou Tarso, é a da necropolítica como elemento central de dominação ideológica. “Trata-se exatamente do que foi feito pela mídia durante a pandemia. Ou seja, o príncipe, esse que já foi naturalizado pela sua palavra e a sua esquisitice, tinha o direito de ironizar a morte, imitando o ofegar de pessoas que morreram”.
Esse comportamento, acrescentou, teve a “cumplicidade estratégica dos grupos que dominam o Estado brasileiro porque naquele momento ele deveria ter sido retirado do poder, com uma decisão do STF. Nós entramos com ação naquele momento neste sentido”.
O ex-ministro disse, ainda, que “a barbárie — quando bem constituída e organizada a partir das classes dominantes e da articulação formal e informal que eles têm com os meios de comunicação, com as plataformas e as estruturas clandestinas da internet — pode gerar um nazismo, um fascismo, sem intelectuais, a partir dos impulsos animais que eles podem oferecer para essas pessoas poderem se realizar na sua patologia social”.
Por fim, a quarta naturalização, que diz respeito ao “controle da formação e da difusão da ideologia, do conceito e da informação horizontal na polis — no país, portanto. Isso se faz através de uma amarração do grande capital financeiro, que é uma força normativa pesadíssima, sobre a conduta dos agentes políticos para o Estado tomar ou não determinadas medidas”.
Então, concluiu, “este processo de formação de uma ideologia que, na verdade, é uma dimensão sociopática do comportamento do lúmpen brasileiro permite a aliança de um grande lumpenzinato burguês, que é o maior contigente da burguesia brasileira, com o lumpenzinato dos excluídos, frustrados, neuróticos, bandidos e criminosos. São esses que vão às ruas defender que o então presidente tinha o direito de imitar a morte”.




