Cemitério da Consolação é um dos 20 cemitérios privatizados em São Paulo | Foto: Reprodução

O BRB passou a controlar ativos ligados a cemitérios privatizados de São Paulo depois de assumir bens do Banco Master, que entrou em colapso após vender títulos fraudulentos. O caso mostra como a privatização dos cemitérios acabou beneficiando o Master e empurrou o prejuízo para um banco público.

O BRB, banco controlado pelo Governo do Distrito Federal, assumiu uma grande quantidade de ativos do Banco Master depois de descobrir que carteiras de crédito vendidas pelo banco privado eram, na prática, sem valor real. Esses papéis haviam sido negociados por cerca de R$ 12 bilhões.

A troca dos títulos aconteceu de forma apressada, numa tentativa de evitar prejuízos maiores. No entanto, o processo foi interrompido quando o Banco Master sofreu liquidação extrajudicial, decretada um dia após a prisão de seu dono, Daniel Vorcaro, e de outros executivos, durante a Operação Compliance Zero.

Para tentar compensar o rombo causado pelos títulos fraudulentos, o BRB aceitou receber vários tipos de bens do Master. Entre eles estavam imóveis, fundos, ações, contas no exterior e também a empresa Cemitérios São Paulo S.A., conhecida como Grupo Maya.

Na prática, isso colocou o BRB ligado a uma empresa que administra cemitérios privatizados na capital paulista.

O Grupo Maya é responsável pela administração de cinco cemitérios em São Paulo: Campo Grande, Lageado, Lapa, Parelheiros e Saudade. Além disso, vende serviços funerários, como flores, traslado de caixões e outros serviços ligados a sepultamentos.

A empresa é campeã de reclamações nos canais da Prefeitura de São Paulo e passou a ser investigada pelo Executivo municipal por suspeita de uma fusão informal com outro grupo que também administra cemitérios na cidade, a Cortel.

Durante essa investigação, a prefeitura descobriu um ponto-chave: o Grupo Maya havia feito diversos empréstimos com o Banco Master. Esse dado chamou atenção porque Fabiano Campos Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, aparece como sócio da Cortel. Zettel também foi alvo da segunda fase da Operação Compliance Zero.

Esse cruzamento de informações mostra como a privatização dos cemitérios criou um ambiente favorável para negócios entre empresas concessionárias e o Banco Master, ligando concessões públicas a um banco privado que depois entrou em colapso.

Com a quebra do Master, esses ativos acabaram nas mãos do BRB, transferindo o problema para um banco público.

Agora, o BRB quer se desfazer desses bens o mais rápido possível para recuperar dinheiro em caixa. Na última quarta-feira (4/2), o presidente do banco, Nelson Antônio de Souza, esteve na região da Faria Lima, em São Paulo, procurando compradores.

Além do Grupo Maya, o pacote inclui um terreno próximo à região da Cidade Jardim, área nobre da capital, além de restaurantes e outros ativos. O próprio BRB avalia esse conjunto em R$ 21,9 bilhões.

A venda desses bens é uma das estratégias apresentadas pelo BRB ao Banco Central para recompor seu capital. Em janeiro, o Banco Central determinou que o BRB fizesse um provisionamento de R$ 2,6 bilhões, ou seja, separasse dinheiro para cobrir possíveis perdas.

Fonte: Página 8