Favela da Maré. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

No período de uma década (2016 a 2025), 231 operações policiais ocorreram nas favelas da Maré, no Rio de Janeiro, resultando em 160 mortes e 1.538 ocorrências de violências e violações de direitos — incluindo moradores feridos, ameaçados, torturados e em cárcere privado.

Ao todo, foram 226 feridos, 178 vítimas de violência física, 135 de violência psicológica, 90 de violência verbal e 67 casos de tortura. As casas ou estabelecimentos invadidos somaram 318 e foram contabilizados 243 patrimônios danificados, além de 76 pertences subtraídos, 133 ameaças e 72 situações de cárcere privado.

Colhidos entre 2016 e 2025, os dados compõem a 9ª edição do boletim Direito à Segurança Pública na Maré, feito pela ONG Redes da Maré, e demonstram a brutalidade com que essas comunidades são comumente tratadas.

O território da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, é formado por 15 favelas, nas quais vivem 140 mil pessoas, sendo o nono bairro mais populoso da capital fluminense. A maioria dos moradores, 51%, é de mulheres; os negros (pretos e pardos) são 62% e os jovens com menos de 30 anos, 52%.

Alta letalidade

Outra constatação trazida pelo boletim é que embora o ano de 2025 tenha registrado menos operações policiais na Maré — 16 contra 42 em 2024 — as 12 mortes registradas elevaram a letalidade proporcional em 58% na comparação entre os dois anos.

Conforme pondera a publicação, embora em grandezas diferentes, o cenário local converge com o estadual. “Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), em 2025 o estado do Rio de Janeiro registrou 797 mortes decorrentes de intervenção policial, um aumento de 13% em relação a 2024. No mesmo período, também cresceu o número de policiais mortos, indicando que a intensificação da letalidade não produziu maior proteção nem para a população civil, nem para os próprios agentes de segurança”.

O boletim também chama atenção para o fato de que um dos elementos que tendem a aumentar a letalidade nas operações é o uso de helicópteros. “Entre 2019 e 2025, as operações que contaram com a presença dessa aeronave concentraram 64% das mortes decorrentes de ações policiais”, aponta.

Além disso, destaca que das 16 operações realizadas ao longo de 2025, metade contou com a presença de helicópteros e 25% utilizaram a aeronave como plataforma de tiro. “No mesmo período, o número de feridos por perfuração por arma de fogo (PAF) foi quase equivalente ao de mortos — 11 feridos e 12 mortes —, indicando a desproporcionalidade no uso da força e os efeitos do terror produzido pela presença do helicóptero nas operações”, observa.

Impactos da violência

A publicação também mostra outra face dos prejuízos causados à população local em meio às operações e à violência armada: o não funcionamento de serviços públicos básicos, dos quais a grande maioria dos moradores depende.

No mesmo período de uma década, houve 163 dias de escolas fechadas no território em decorrência de operações policiais. A publicação lembra que isso equivale à perda de aproximadamente um ano letivo para as crianças e adolescentes da Maré.

No caso da saúde, apenas em 2025 foram 14 dias em que as unidades básicas não funcionaram devido à violência armada, o que resultou em 7,8 mil atendimentos não realizados.

Considerando esse contexto, o boletim aponta que “a violência armada vem produzindo impactos profundos no cotidiano da vida das populações de favelas. Além das mortes e das violações diretas que ocorrem, há uma naturalização sobre a interrupção de serviços públicos relacionados aos direitos mais básicos que deveriam ser garantidos, mas que não ocorrem quando se trata de moradores de favelas”.

Modelo falido

Apesar desse quadro brutal, o uso de políticas repressivas e altamente letais continua sendo a principal linha de atuação de governos estaduais, especialmente os de direita e extrema direita, entre os quais o do Rio de Janeiro, conduzido pelo bolsonarista Cláudio Castro (PL). A mais recente e sanguinária das operações ocorreu sob seu comando: o massacre nos complexos da Penha e do Alemão, que totalizou 122 mortes (cinco das quais de policiais).

A operação ocorreu à revelia das regras estabelecidas pela Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 635 (ADPF), vigente desde 2020 por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). A ação estabelece diretrizes e restrições para a realização de operações policiais em comunidades do Rio de Janeiro, com o objetivo de reduzir a violência e a letalidade sobre as populações locais.

“Ao analisarmos os dados colhidos em 2025, identificamos a persistência de um modelo de segurança pública no estado do Rio de Janeiro ainda centrado em operações bélicas, de cunho repressivo e com resultados inexpressivos no combate às redes ilícitas”, confirma a publicação.

Na avaliação da ONG, os dados reforçam que “a política baseada no confronto armado não reduz a violência, mas a redistribui e intensifica, aprofundando um ciclo de mortes que atinge de forma desigual territórios como o bairro Maré”.

O boletim conclui que quatro décadas de aposta nesse paradigma produziram um veredito inequívoco: o confronto armado é ineficaz. “Não reduziu o poder dos mercados ilícitos, não garantiu segurança, nem preservou vidas. O que se observa, na realidade, é a reprodução da violência, que atravessa o Rio de Janeiro e se manifesta de forma aguda nas regiões empobrecidas do estado”.