Foto: Denio Simões/Agência Brasília

Para os brasileiros, os principais problemas do país hoje estão nas áreas da saúde (21%) e da violência, segurança pública e criminalidade (19%). Na sequência vêm economia (11%), educação (9%), corrupção e desonestidade (9%) e desemprego (4%).

Os dados constam de pesquisa Datafolha, divulgada nesta terça-feira (10), feita entre 3 e 5 de março com 2.004 pessoas de 137 municípios, com margem de erro de dois pontos percentuais.

Embora o Brasil tenha melhorado em diversos indicadores sociais e econômicos nos últimos quatro anos — conforme vem sendo apontado por vários estudos e pesquisas —, determinados temas continuam sendo alvo de preocupação por terem impacto mais forte no dia a dia de parte significativa da população, sobretudo a mais vulnerável.

Para ficar nas três principais preocupações, vale iniciar pela saúde — um dos aspectos mais sensíveis na percepção geral por envolver necessidades prementes do próprio cidadão e de seus familiares. Em geral, problemas como demora no atendimento, falta de postos e hospitais e dificuldades para marcar exames e consultas com especialistas figuram entre as principais reclamações. No entanto, essa realidade pode variar muito de município para município e de estado para estado.

Mesmo assim e apesar de a saúde figurar como o ponto mais inquietante para os brasileiros, pesquisa recente feita pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostrou um aumento na satisfação dos brasileiros com o Sistema Único de Saúde (SUS) — responsável pelo atendimento da ampla maioria da população em todos os cantos do país.

Segundo essa pesquisa, divulgada em fevereiro, o grau dos que aprovam saiu de 36% para 45% entre 2022 e 2025. De fato, daquele ano para cá, muita coisa aconteceu para melhor no SUS. Se durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL) uma série de políticas públicas foi reduzida ou sucateada — caso, por exemplo, do Farmácia Popular, Mais Médicos e Brasil Sorridente —, desde 2023 esse quadro vem sendo revertido.

O SUS, bem como esses três programas, vem sendo reestruturado e fortalecido, assim como outras iniciativas foram colocadas em prática — é o caso do Agora tem Especialistas, o Brasil Saudável e o programa de dignidade menstrual.

Tecnicamente empatada entre as principais aflições dos brasileiros está a violência, que tende a ser mais evidente para os moradores das grandes e médias cidades, sobretudo naquelas em que há uma atuação mais explícita de organizações criminosas, como o tráfico e as milícias.

Assaltos e roubos (principalmente de celulares) são queixas recorrentes pelo país, mas também pode estar pesando para a apreensão dos brasileiros (sobretudo a fatia feminina de 50%) o salto no número de ocorrências envolvendo a violência contra a mulher — desde agressões e estupros até feminicídios.

Números que corroboram esse quadro constam do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Enquanto o país teve queda de 5% nas mortes violentas intencionais em 2024 — registrando um número ainda alarmante de mais de 44 mil casos —, os feminicídios aumentaram 0,7%, totalizando 1.492 ocorrências. Já as tentativas saltaram 19%, ficando em 3.870 casos.

Embora tenha sido constatada uma queda de 13% no número de roubos e furtos de celulares, eles somaram quase 918 mil — e praticamente 80% dos roubos ocorreram em vias públicas. Por outro lado, os crimes virtuais e fraudes explodiram 408%.

Constitucionalmente, a segurança pública é atribuição, sobretudo, dos estados. Mas, o crescimento vertiginoso das organizações criminosas nas últimas décadas fez com que o governo Lula puxasse para si parte da responsabilidade. Por isso, o Executivo federal enviou ao Congresso matérias como o Projeto de Lei Antifacção (recém-aprovado, ainda que não da forma almejada) e a PEC da Segurança Pública (aprovada na Câmara e em análise no Senado).

Ao mesmo tempo, permitiu a ampliação e o aprimoramento da atuação da Polícia Federal em investigações relativas a essas organizações e encampou a luta contra o feminicídio, com iniciativas como o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio.

Contradições na economia

Dos temas que figuram entre os três mais preocupantes para os brasileiros, o que parece mais contraditório é a economia (11%). Afinal, o país tem acumulado dados positivos em diferentes eixos dessa área.

No caso do desemprego, o baixo índice de preocupação (4%) revela o fato de que o país está com um dos melhores patamares de ocupação da história: segundo a Pnad, do IBGE, quase 60% dos brasileiros estão empregados e também houve crescimento substantivo na massa salarial.

Quanto à inflação, de acordo com o IBGE, 2025 fechou com índice de 4,26%, o menor desde 2018. Em janeiro, o IPCA-15 ficou em 0,20%. Embora baixos, por não significarem redução de preço, os índices acabam tendo algum peso no bolso do consumidor, o que certamente influencia sua percepção. Ao mesmo tempo, impactam ainda aspectos como os juros altos, que dificultam o parcelamento e aumentam a inadimplência.

Em seu conjunto, os dados da pesquisa parecem indicar, ainda, algum nível de descompasso entre avanços perceptíveis e captados por dados econômicos e levantamentos e o que o cidadão sente ou diz perceber no dia a dia.

A compreensão sobre esses elementos e contradições ganha ainda mais relevância neste ano, em que projetos bastante distintos de país estarão em disputa, inclusive no nível estadual. Temas como saúde, segurança pública e economia tendem a ser os mais explorados por candidatos da situação e da oposição.

Aos que enxergam os riscos que uma mudança de rumo para a direita pode ter para o país, as preocupações apresentadas pelos brasileiros devem servir de guia para ampliar o diálogo e mostrar ao povo o que está em jogo, especialmente em nível nacional. Trata-se de escolher entre a continuidade dos avanços e da melhoria de vida ou o retrocesso a tempos sombrios da extrema direita, com riscos reais à democracia, descaso com a saúde da população, fila para pegar ossos e desemprego em alta.