Coordenador de pré-campanha escancara projeto anti-povo de Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vem tentando emplacar seu nome à Presidência da República como alguém mais moderado, político e mesmo técnico, uma maquiagem para buscar se diferenciar da extrema direita “ogra” liderada e acalentada por seu pai. O objetivo é agradar a parte mais hipócrita da elite e da classe média — que se acha ilibada e, por isso, torce o nariz para quem não usa o verniz da moralidade — e, ao mesmo tempo, se vender ao povo como alguém diferenciado e competente.
No entanto, é fácil perceber o quanto essa maquiagem é frágil e o quão perigosa essa candidatura é para a população em geral. Flávio é cria do que há de pior na extrema direita brasileira e defende bandeiras que vão desde uma agenda econômica regressiva até uma pauta de costumes reacionária, passando pela destruição de direitos e de políticas públicas.
Além disso, sua pré-candidatura já demonstra claramente que seu compromisso não é com o povo trabalhador (maioria esmagadora da população), mas com o sistema financeiro e com os setores mais atrasados da sociedade.
Destruição de direitos
Cristalina neste sentido foi a entrevista, publicada pela Folha de S.Paulo nesta quinta-feira (5), com o coordenador da pré-campanha de Flávio Bolsonaro, o também senador Rogério Marinho (PL-RN) — nome umbilicalmente ligado ao bolsonarismo raiz.
“Só posso dizer que a gente vai ter que revisitar a Previdência. A trabalhista tem que ser revisitada, porque a reforma de 2017 foi mitigada por várias decisões judiciais. Ao mesmo tempo, ela precisa ser atualizada pelas inovações tecnológicas, pelas novas formas de trabalho que estão crescendo”, afirmou. Também apontou que na área trabalhista, o plano deve contemplar propostas para “modernizar a legislação”.
Não se engane, trabalhador e trabalhadora (inclusive os de classe média, que muitas vezes não se enxergam como tal): por trás desse discurso de “modernizar a legislação” está um conjunto de novos ataques e desmontes que, no final, resultarão na redução de direitos e do valor da aposentadoria e renderão vultosos dividendos para as previdências privadas, para o empresariado e para o mercado financeiro.
Assim foi com as últimas reformas trabalhista (2017) e da Previdência (2019), que levaram à maior precarização e informalização do emprego (e consequentemente, menor financiamento ao INSS); à redução da renda, ao aumento das desigualdades e à ampliação do tempo mínimo necessário para se aposentar.
Esse caldo de elementos gerou uma situação que poderá, futuramente, inviabilizar o pagamento de benefícios minimamente dignos a quem precisa e a quem trabalhou ao longo de toda a vida. Além disso, a reforma levou milhões de trabalhadores a terem de exercer seu ganha pão de maneira cada vez mais precária, durante mais tempo e com sérias consequências à saúde física e mental.
Na entrevista, segundo o jornal, Marinho desconversou sobre extinguir, novamente, como fez Jair Bolsonaro, a política de valorização do salário mínimo, retomada pelo governo Lula. Faz sentido; afinal, o tema é impopular para um ano eleitoral, mas dado o perfil da dupla, certamente fará parte do programa de desmontes do governo de Flávio.
Apenas para mostrar o impacto das perdas de uma das políticas exterminadas por Bolsonaro — a de valorização do salário mínimo — vale lembrar levantamento feito pelo Dieese.
Em 2019, primeiro ano de Bolsonaro, o salário mínimo era de R$ 998, valor que ficou praticamente inalterado em 2020. Em 2021, não houve incorporação de qualquer ganho real, exceto por reflexo do pequeno arredondamento para R$ 1.100. Em 2022, houve a repetição do ocorrido no ano anterior: o salário mínimo não teve aumento real, somente acompanhou a inflação medida pelo INPC. Somente com Lula, a política foi retomada, acumulando reajustes que somam cerca de 22%.
Denúncias e investigações
Como se não bastasse toda a quebradeira que Marinho já indica que será a tônica de um eventual governo de Flávio Bolsonaro, também é importante lembrar um pouquinho do perfil de ambos, para além do descompromisso da extrema direita com valores básicos como o respeito à democracia e aos direitos fundamentais.
Flávio Bolsonaro é velho conhecido do noticiário: foi investigado pelo esquema de rachadinhas quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, por suspeita de lavagem de dinheiro através de uma franquia de uma loja de chocolates e por transações imobiliárias com lucro acima da média.
Na presidência da República, seu pai tentou usar órgãos públicos para proteger Flávio dessas investigações, inclusive buscando interferir na Polícia Federal. Até hoje, os casos não foram totalmente esclarecidos.
Além disso tudo, é antiga a “simpatia” do clã Bolsonaro pelas milícias do Rio de Janeiro. Para citar apenas um fato sobre isso, Flávio empregou em seu gabinete, na Assembleia Legislativa fluminense, a mãe e a esposa de Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Bope suspeito de chefiar a milícia “Escritório do Crime” e que foi morto em 2020, durante uma ação policial no interior da Bahia, para onde havia fugido.
Rogério Marinho, por sua vez, ocupou dois cargos de alto escalão no governo de Jair Bolsonaro: foi secretário Especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia (2019-2020), sendo peça-chave na reforma da Previdência, além de Ministro do Desenvolvimento Regional (2020-2022).
Nesse último período, a pasta comandada por Marinho foi alvo de denúncias e investigações envolvendo a aquisição de tratores e maquinários com preços até 250% superiores aos de mercado.
Também vieram à tona denúncias de que ele teria direcionado aproximadamente R$ 1,4 milhão do orçamento secreto para a construção de um mirante turístico vizinho a um terreno onde ele planejava construir um condomínio privado, numa cidade do Rio Grande do Norte, seu reduto eleitoral.
Em junho de 2023, Marinho foi condenado pela Justiça do Rio Grande do Norte à perda do mandato de senador e à suspensão de direitos políticos por oito anos devido a um esquema de contratação de servidores “fantasmas” na Câmara Municipal de Natal entre 2004 e 2007, quando ele era vereador e presidente da casa. O caso tramita na Justiça após o senador recorrer da decisão.
Com essas propostas e currículos, é fácil entender por quais caminhos transitará um eventual governo de Flávio. Rechaçar projetos desse naipe é fator central para que a classe trabalhadora não sofra com novas reformas anti-povo e com governantes cujo compromisso com a lei e a democracia é altamente questionável.


