Sul Global avança sob impulso estratégico da China
O presidente chinês, Xi Jinping (centro), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (segundo esq.), o presidente chileno, Gabriel Boric (esq.), e o presidente colombiano, Gustavo Petro (dir.), participam a Quarta Reunião Ministerial do Fórum China-Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), em Pequim. 13/05/2025
A nova edição do Entrelinhas Vermelhas, exibida nesta quinta-feira (19), coloca a China no epicentro da análise geopolítica contemporânea. Com entrevistas e trechos de conversas aprofundadas, o programa reúne três estudiosos do tema: o geógrafo Elias Jabbour, o professor radicado na China José Medeiros e o pesquisador da Fundação Getulio Vargas e da Universidade Federal Fluminense, Evandro Carvalho.
O ponto de partida é direto: tornou-se impossível discutir economia, tecnologia ou política internacional sem considerar o papel estruturante da China.
A guerra tecnológica e o novo patamar chinês
Ao analisar o confronto comercial iniciado no governo de Donald Trump, Jabbour sustenta que a China enfrentada hoje por Washington é qualitativamente distinta daquela de 2017. As tarifas impostas pelos EUA, segundo ele, funcionaram como gatilho para acelerar processos que Pequim planejava amadurecer até meados do século.
O resultado foi o fortalecimento de cadeias tecnológicas próprias, a redução da dependência de insumos estratégicos norte-americanos e a consolidação de instrumentos institucionais de longo prazo — como bancos de desenvolvimento e conglomerados públicos e privados articulados a metas nacionais.
Para os analistas, o que se desenha não é uma resposta improvisada, mas estratégica: taxação seletiva, controle sobre a exportação de terras raras e aprofundamento de laços com o Sul Global.
Sul Global supera o Norte?
O debate avança para uma mudança estrutural: o crescimento do chamado Sul Global em participação na geração de riqueza e comércio internacional. A China surge como vetor desse deslocamento.
Medeiros argumenta que o país asiático rompeu com o paradigma do “fim da história”, tese popularizada por Francis Fukuyama, ao demonstrar viabilidade de um modelo alternativo ao consenso neoliberal.
A estratégia chinesa, baseada em planos quinquenais e metas públicas de longo prazo — inclusive ambientais —, teria produzido estabilidade de expectativas e previsibilidade internacional, contrastando com o ambiente político polarizado dos Estados Unidos.
Belicismo versus cooperação
Um dos trechos mais instigantes do programa contrapõe a tradição geopolítica norte-americana, marcada por disputas hegemônicas, à diplomacia chinesa baseada em integração econômica e infraestrutura.
A Iniciativa Cinturão e Rota aparece como exemplo concreto desse projeto de interconexão global, financiando portos, ferrovias e corredores logísticos em diversos continentes.
No plano simbólico, o contraste é reforçado por uma provocação histórica: enquanto os EUA operariam sob a lógica do “destino manifesto”, a China evocaria matrizes civilizatórias associadas ao confucionismo e ao taoismo, priorizando estabilidade e coexistência.
Nacionalismo e coesão interna
O programa também aborda como a sociedade chinesa percebe o embate com Washington. Segundo Medeiros, há forte consciência nacional sobre as tentativas externas de conter o desenvolvimento do país.
A memória do chamado “século de humilhação” e a recente superação da pobreza extrema alimentariam um sentimento coletivo de defesa das conquistas materiais e civilizatórias.
O que resta aos Estados Unidos?
A edição encerra com uma reflexão estratégica: se a ascensão chinesa se consolidar como tendência irreversível, quais serão as alternativas norte-americanas? Protecionismo para preservar áreas de influência? Reconfiguração diplomática? Ou intensificação de tensões?
Entre diagnósticos e projeções, o Entrelinhas Vermelhas desta quinta-feira propõe uma leitura de longo prazo sobre a disputa que já redefine a ordem internacional — e cujos desdobramentos impactam diretamente América Latina, África e Ásia.
A China, concluem os entrevistados, já não é promessa: é variável estrutural do século XXI.
(por Cezar Xavier)




