Getúlio anuncia criação da CLT. Foto: Reprodução/Memorial da Democracia, via Congresso em Foco

Com o lançamento oficial previsto para entre o final de fevereiro e o início de março, o livro “Trabalhadores do Brasil! Discursos à nação” (Contracorrente), organizado pelo jornalista e escritor Lira Neto, traz 49 dos principais pronunciamentos feitos por Getúlio Vargas e prefácio assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A publicação tem caráter histórico: além de reunir falas da principal figura do trabalhismo brasileiro, que se tornou presidente da República, também traz o reconhecimento de Lula aos avanços que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) representou para a classe trabalhadora. Instituída em 1º de maio de 1943 e publicada no Diário Oficial em 9 de agosto de 1943, a CLT unificou a legislação trabalhista brasileira e regulamentou direitos como a jornada de oito horas, férias remuneradas e salário mínimo.

“Nasci na política criticando Getúlio. Eu reconhecia as conquistas da classe trabalhadora na Era Vargas, mas criticava a CLT por acreditar que havia nela um DNA fascista: a ‘Carta del Lavoro’, de Mussolini, o que não era verdade”, escreve o presidente no texto, conforme noticiado pelo jornalista Bernardo Mello Franco, em O Globo.

O colunista também se recorda de encontro entre Lula e Leonel Brizola, em 1979, no qual o ex-governador do Rio Grande do Sul tentou atrair o então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema para a refundação do PTB. “Getúlio ferrou o trabalhador”, teria dito Lula, enterrando a possibilidade de uma aproximação.

Em seu prefácio, Lula também aponta que Getúlio “foi muitos em um só: o revolucionário de 1930, o ditador do Estado Novo, o estadista que plantou as bases de um país industrializado, livre de tutela das potências estrangeiras e menos desigual”.

Escreve, ainda, que “Getúlio trouxe para o centro da arena política questões que permanecem atuais: o Estado como indutor do desenvolvimento, a defesa da soberania e o combate à desigualdade e aos privilégios, entre outras. São temas que despertaram o ódio das elites — ou ‘forças e interesses contra o povo’, como escreveu Getúlio em sua carta-testamento. São temas que ainda hoje, 80 anos depois, enfrentam a oposição das forças e dos interesses contra o povo”.

Memória em permanente disputa

O livro apresenta discursos que vão desde os proferidos por Getúlio na Faculdade de Direito de Porto Alegre até a famosa carta-testamento, além de comentários de Lira Neto, compondo uma rica obra de 496 páginas sobre a história da República brasileira.

Lira Neto é o autor da mais importante e detalhada biografia do líder trabalhista intitulada “Getúlio” — composta por três volumes que se iniciam com o nascimento na cidade de São Borja (RS), em 1882, até o suicídio na então capital federal Rio de Janeiro, em 1954. A trilogia foi lançada entre 2012 (quando se completaram 130 anos de nascimento) e 2014 (quando se completaram 60 anos do falecimento).

Profundo conhecedor da vida e da trajetória política do ex-presidente, Lira Neto diz que “a memória em torno de Getúlio Vargas é um território em permanente disputa, comportando devoções e ódios”.

De um lado, aponta, “há os que veem apenas o ditador autoritário do Estado Novo, que perseguiu adversários, calou dissidências e, baseado na censura e na propaganda, promoveu o culto à própria personalidade. De outro, os que o identificam como o líder nacionalista, condutor das massas, ‘pai dos pobres’, protetor da classe trabalhadora. Tentar isolar qualquer um desses polos, de forma maniqueísta, jamais dará conta da figura pública mais complexa e ambivalente da história brasileira”.

Com agências

(PL)