Saif Al Islam, filho do líder líbio Muammar Kadafi | Foto: Mahmud Turkia/AFP

Saif al-Islam Kadafi, filho do líder líbio Muammar Kadafi assassinado em 2011 durante a intervenção da Otan no país, foi morto em atentado a tiros na terça-feira, em sua residência na cidade de Zintan, no noroeste da Líbia, segundo a agência de notícias Al Arabiya. Os assassinos “fugiram rapidamente do local depois de atirarem nele em seu jardim”, relatou uma pessoa próxima da família Kadafi, 

“Eles o mataram de forma traiçoeira. Ele queria uma Líbia unida e soberana, segura para todo o seu povo,” postou nas redes sociais Moussa Ibrahim, que foi porta-voz de Muammar Kadafi. Na quarta-feira (4), o Ministério Público da Líbia anunciou investigação sobre o assassinato e disse que enviou especialistas forenses e investigadores para tentar identificar os suspeitos.

O advogado de Saif al-Islam, Marcel Ceccaldi, disse que ele foi morto por um “comando de quatro homens” que não foram identificados. Eles invadiram a casa de Saif al-Islam e efetuaram os disparos. Em meio a uma nostalgia pela época da Jamahiriya (“Estado das Massas”), Saif, herdeiro do nome de Kadafi, era visto como uma esperança de superação da atual devastação do país.

“Tanto que o chefe da tribo (de Kadafi) havia ligado para Saif e lhe disse: ‘Eu lhe enviarei pessoas para garantir sua segurança’. Mas Saif recusou”, acrescentou o advogado. “Falei com ele há dois dias. Ele não falou de nada além de uma Líbia pacífica e da segurança de seu povo”.

Em 2011, a Líbia entrou em colapso depois do bombardeio do país pela Otan, sob o pretexto de proteger um levante oposicionista, em que jihadistas a soldo dos EUA e da França serviram de botas no solo, destruindo o país que, por 40 anos, foi o de maior Índice de Desenvolvimento Humano da África.  Kadafi foi caçado, torturado e executado, o que foi mostrado em vídeo. 

Desde então a Líbia segue dividida com dois governos que disputam o poder e o dinheiro do petróleo, um oficialmente reconhecido pela ONU com sede em Trípoli e bancado pelos EUA, França e Turquia, e outro, com sede no leste, onde fica o parlamento, em Tobruk, apoiado pelo Egito, Arábia Saudita e Rússia. Cuja principal figura é o general Khalifa Haftar, já descrito como “o senhor da guerra mais poderoso da Líbia”.

Após a invasão do Iraque no governo de W. Bush, Saif al-Islam Kadafi desempenhou um papel central nas negociações com Washington e Londres, realizadas após a invasão do Iraque e que resultaram no abandono do programa de armamento nuclear da Líbia e adoção de medidas de cunho neoliberal, em troca do levantamento de sanções. Ele também negociou compensações para as famílias de vítimas de atentados que os serviços de inteligência ocidentais atribuíam aos líbios, como Lockerbie, o ataque à boate de Berlim e o voo 772 da UTA. 

Em novembro de 2011, Tribunal Penal Internacional (TPI) em Haia emitiu um mandado de prisão contra ele, sob acusação de “crimes contra a humanidade”. Ele foi capturado no Sul da Líbia enquanto tentava fugir do país. Ficou preso durante 6 anos na Líbia, o TPI tentou conseguir sua extradição mas o governo Líbio se recusou.

Saif chegou a ser condenado à morte em 2015 por um tribunal de Trípoli mas em 2017 recebeu anistia e foi libertado. Seis anos depois, ele retornou à vida pública do país e anunciou planos de concorrer à Presidência da Líbia. Desde então, as eleições vinham sendo adiadas indefinidamente.

Emadeddin Badi, especialista em política da Líbia, disse que o assassinato de Saif al-Islam muda muito a dinâmica das eleições Presidenciais na Líbia. “É provável que seja visto como um mártir para um segmento significativo da população, ao mesmo tempo em que muda a dinâmica eleitoral, removendo um grande obstáculo às eleições presidenciais”, avalia. “Sua candidatura e potencial sucesso foram um ponto central de disputa”, postou Badi na rede social X.

Fonte: Papiro