Perfis de fofoca no Instagram estão empenhados em levantar a moral do governador Tarcísio de Freitas; um deles levou 20 mil reais, pagos por uma “motorista de aplicativo”

No mês de dezembro de 2025, perfis populares do Instagram como @alfinetei (25 milhões de seguidores), @fofocas (7,7 milhões) e @exclusivasdafama (9,1 milhões) passaram a publicar, com frequência incomum, conteúdos elogiosos ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). As postagens destacavam medidas como a isenção do IPVA para motos, a inauguração de trechos do Rodoanel Norte, cobranças à concessionária de energia e ações contra a violência de gênero — sempre com imagens, vídeos e menções diretas ao governador, em linguagem claramente promocional.

Apesar de se apresentarem como canais de entretenimento e fofoca, esses perfis adotaram uma narrativa alinhada à agenda do Palácio dos Bandeirantes, gerando suspeitas de que estariam sendo usados como ferramenta de propaganda institucional disfarçada.

O tom positivo, a linguagem informal e o destaque visual ao governador destoaram do padrão habitual desses perfis, voltados majoritariamente a celebridades e memes.

Suspeitas sobre publicidade institucional e recursos públicos
A reportagem da revista piauí revelou indícios de que influenciadores teriam sido procurados por uma empresa de marketing para publicar conteúdos favoráveis ao governador, com oferta de pagamento por pacotes de postagens. Embora o governo paulista negue qualquer investimento ou participação na avalanche de conteúdos, a repetição de pautas, o uso recorrente de imagens do governador e a marcação direta de seu perfil reforçaram o debate sobre possível publicidade institucional travestida de conteúdo orgânico.

Paulo Machado Guimarães. Foto: Arquivo

Paulo Machado Guimarães, advogado do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), analisou o caso com base na legislação vigente. “A investigação jornalística destaca corretamente o disposto no § 1º do art. 37 da Constituição Federal”, afirmou ao Portal Vermelho. O dispositivo proíbe expressamente a utilização de publicidade oficial para promoção pessoal de autoridades.

O que diz a Constituição, segundo Paulo Machado Guimarães
Para o advogado, o ponto central é constitucional. O dispositivo determina que a publicidade de atos e programas do poder público deve ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, sendo vedada a promoção pessoal de autoridades ou servidores. Segundo ele, “o envolvimento de recursos públicos do Estado de São Paulo pode ensejar a propositura de ação de improbidade administrativa, ação popular ou ação civil pública”.

Guimarães ressalta que o Ministério Público do Estado de São Paulo tem legitimidade para propor ações de improbidade e ações civis públicas, enquanto “qualquer cidadão ou cidadã pode propor ação popular” caso haja indícios de lesão ao interesse público.

O advogado pondera que nem todos os enquadramentos jurídicos levantados se aplicam automaticamente ao caso. Para ele, a referência ao artigo 36 do Código de Defesa do Consumidor — que exige que a publicidade seja facilmente identificável como tal — “não se aplica, porque o conteúdo não envolve relação de consumo”. Ainda assim, o debate sobre transparência permanece relevante no campo político e institucional.

Possível impacto eleitoral das postagens
Além das questões administrativas, há indícios de uso dessas publicações para fins eleitorais. “As postagens podem e devem ser analisadas sob o aspecto eleitoral”, destacou Guimarães. Ele citou como exemplo um post do perfil @vemebuscarhebe que ironizava o nome do pré-candidato Guilherme Boulos com a legenda “Tarcísio cala a boca de Boules[sic]”.

Segundo ele, conteúdos que expõem adversários ou que projetam de forma reiterada a imagem do governador podem caracterizar propaganda eleitoral antecipada, seja de caráter negativo ou positivo. Nesses casos, o Ministério Público Eleitoral, partidos ou federações partidárias têm legitimidade para provocar o TRE-SP ou, dependendo do alcance, o TSE.

Empresa recém-criada e pagamentos suspeitos

A reportagem da piauí identificou contatos feitos por uma tal Daniela Moura, representante da empresa Submarino Lab, tentando contratar perfis para postar conteúdo pró-Tarcísio. A empresa foi registrada em 9 de dezembro de 2025 — um dia antes dos primeiros contatos — e tem como titular Vanessa Aparecida Ribeiro Soares, cujo endereço comercial é seu próprio apartamento na Vila Suzana, zona sul de São Paulo.

Um Pix de R$ 20 mil, enviado por Vanessa a um influenciador por quatro postagens, foi identificado pela reportagem. Curiosamente, o CNPJ da empresa está vinculado à atividade de “motorista por aplicativo”, apesar de sua atuação em marketing digital.

Após contato da revista, o perfil @exclusivasdafama apagou todas as postagens favoráveis ao governador. Já outros perfis, como @alfinetei e @garotxdoblog, não responderam aos pedidos de esclarecimento.

Governo nega envolvimento; especialistas questionam

O governo de São Paulo negou qualquer participação nas publicações, afirmando que realiza apenas “campanhas institucionais e de utilidade pública em conformidade com os princípios constitucionais”. O partido Republicanos também disse desconhecer o caso.

Contudo, especialistas ouvidos pela reportagem ressaltam que, mesmo que o pagamento tenha sido feito por terceiros sem vínculo formal com o Executivo estadual, o uso de verbas públicas — direta ou indiretamente — para promover a imagem de um governador configura violação à impessoalidade administrativa.

Enquanto isso, empresas de agenciamento como a Banca Digital, que representa parte dos perfis envolvidos, afirmam ter adotado protocolos rigorosos de brand safety desde abril de 2024, justamente para evitar esse tipo de exposição política não declarada.

Influência digital e fiscalização pública
O episódio evidencia o peso crescente dos perfis de entretenimento como canais de comunicação política informal, capazes de atingir públicos massivos fora do debate tradicional — para fins políticos, muitas vezes sem transparência. Para juristas e especialistas, a fronteira entre informação institucional, marketing político e propaganda eleitoral torna-se cada vez mais tênue, reforçando a necessidade de fiscalização por órgãos de controle e atenção da sociedade civil.

Para Paulo Machado Guimarães, isso representa um risco à integridade democrática. Sua análise sugere que, quando o poder público se vale de artifícios para burlar a lei e promover autoridades, mina-se a confiança nas instituições e distorce-se o debate público.

por Cezar Xavier