Nomeações de ex-advogados de Pinochet geram revolta no Chile
Kast apresenta seu gabinete de notáveis reacionários
A nomeação, na terça-feira (20), de Fernando Rabat e Fernando Barros — ambos ex-advogados do ditador Augusto Pinochet — para os ministérios da Justiça e Direitos Humanos e da Defesa, respectivamente, provocou uma onda de críticas no Chile. Para 16 organizações de familiares de detidos desaparecidos e executados políticos, a decisão do presidente José António Kast é “uma ofensa direta à memória das vítimas da ditadura”.
Alicia Lira, presidente da Associação de Familiares de Pessoas Executadas Politicamente, classificou o gesto como “um enorme retrocesso” no avanço conquistado nas últimas décadas em matéria de justiça e verdade. “Essas nomeações refletem as políticas negacionistas de Kast em relação aos direitos humanos”, afirmou à agência EFE.
Do Riggs a Londres: os laços com o regime pinochetista
Fernando Rabat, acadêmico da Universidade de Desenvolvimento, integrou equipes jurídicas que defenderam Pinochet em casos emblemáticos, como a “Operação Colombo” — uma farsa montada para encobrir o desaparecimento de 119 opositores — e o “Caso Riggs”, sobre as contas secretas do ditador nos EUA.
Além disso, está ligado ao escritório do falecido Pablo Rodríguez, líder da extrema-direita paramilitar Patria y Libertad, que combateu com violência o governo de Salvador Allende.
Já Fernando Barros foi porta-voz e advogado de Pinochet durante sua prisão em Londres (1998–2000) e, por mais de 30 anos, representou o ex-presidente Sebastián Piñera. Ambos agora assumirão cargos centrais num governo que se anuncia como de “emergência”.
Risco ao Plano Nacional de Busca por desaparecidos
Uma das maiores preocupações das organizações de direitos humanos é o futuro do Plano Nacional de Busca por Detidos e Desaparecidos, criado pelo governo de Gabriel Boric. Flor Lazo, da Associação de Familiares de Detidos e Desaparecidos de Paine — uma das regiões mais afetadas pela repressão — teme que Rabat, à frente da pasta de Direitos Humanos, interrompa o programa.
“Se o plano de buscas terminar, vamos nos rebelar. Nossa esperança é encontrar todas as vítimas”, declarou. A pasta, até então ocupada por um ministro do Partido Comunista, era vista como um marco de reparação histórica; agora, corre o risco de ser esvaziada por quem defendeu seu algoz.
Frente Ampla denuncia “gabinete herdado de Pinochet”
A oposição também reagiu com dureza. A congressista Lorena Fries, da Frente Ampla, acusou Kast de montar um “gabinete politicamente herdeiro de Augusto Pinochet”. “Muitos de nós esperávamos que isso fosse coisa do passado”, lamentou, destacando a contradição de um governo que fala em “direito humano à segurança”, mas evita medidas contra a opacidade financeira. Para ela, a presença de figuras ligadas ao regime militar em cargos que representam todo o povo chileno evidencia um grave problema político e simbólico.
Fries ainda criticou a concentração de empresários e executivos ligados ao poder econômico — como Daniel Mas (Economia e Minas) e Francisco Pérez Mackenna (Relações Exteriores) —, vendo nisso um “grande empreendimento autoritário” disfarçado de gestão técnica. Mas é alvo de críticas por possível favorecimento ao setor empresarial em detrimento de comunidades e territórios
Kast e o legado familiar com a ditadura
Durante a campanha, Kast evitou referências diretas ao regime militar e não esclareceu sua posição sobre indultos a condenados por crimes contra a humanidade. No entanto, sua trajetória pessoal reforça, para críticos, a leitura de continuidade ideológica. As nomeações de Rabat e Barros aprofundaram essa percepção.
José Antonio Kast, que se tornará em 11 de março o primeiro presidente abertamente alinhado a Pinochet desde o retorno da democracia, já carrega esse legado em sua trajetória. Durante o plebiscito de 1988, fez campanha pela continuidade do ditador. Seu irmão, Miguel Kast, foi ministro-chave do regime e integrante dos “Chicago Boys”, arquitetos do neoliberalismo chileno.
Repercussão internacional e alerta democrático
Veículos internacionais e organizações de direitos humanos destacaram que o Chile, país frequentemente citado como referência regional de transição democrática, enfrenta agora um teste simbólico e político. A chegada de ex-defensores de Pinochet ao comando da Justiça e da Defesa foi interpretada como sinal de relativização dos crimes da ditadura e de enfraquecimento do consenso democrático construído desde o retorno ao regime civil.
Para críticos, o gesto político reabre disputas sobre memória, verdade e justiça no Chile. Agora, ao nomear defensores do general para postos sensíveis, Kast sinaliza que não pretende apenas governar com mão dura, mas reescrever a narrativa histórica do país — apagando responsabilidades e normalizando o passado autoritário. Para muitos chilenos, porém, essa história ainda sangra. E não será esquecida.
por Cezar Xavier


