O fundador do TikTok, proprietário da ByteDance, Zhang Yiming

Após quase seis anos de embates judiciais, pressões políticas e disputas diplomáticas entre Washington e Pequim, a ByteDance fechou um acordo que cria uma nova entidade do TikTok nos Estados Unidos, controlada majoritariamente por investidores não chineses. A operação encerra o risco imediato de banimento do aplicativo, que reúne mais de 200 milhões de usuários no país, mas marca uma inflexão profunda na relação entre soberania nacional, empresas de tecnologia e mercados estratégicos.

A conclusão do acordo entre a ByteDance e um consórcio de investidores não chineses — liderado pela Oracle, Silver Lake e MGX dos Emirados Árabes — marca o fim formal da disputa, mas também revela os limites da soberania tecnológica chinesa diante da ofensiva geopolítica dos Estados Unidos. Embora a empresa mantenha 19,9% da nova joint venture que operará o TikTok nos EUA, ela perde o controle decisório sobre políticas de moderação, segurança de dados e, crucialmente, sobre o futuro do algoritmo — o coração do sucesso da plataforma.

A concessão não é meramente financeira: é estratégica. Ao licenciar seu algoritmo para ser “retreinado” com dados exclusivamente norte-americanos, a ByteDance aceita que sua tecnologia seja desconectada de sua matriz global, fragmentando a experiência do usuário e submetendo sua inovação a critérios definidos por Washington.

Pressão imperialista disfarçada de segurança nacional
Formalmente, trata-se de uma solução corporativa. Na prática, o acordo é produto direto de uma lei federal aprovada em 2024, confirmada pela Suprema Corte, que condicionou a permanência do TikTok à ruptura do controle chinês sobre a operação americana.

O argumento de “segurança nacional” usado pelos EUA desde 2020 sempre foi controverso — e politicamente instrumentalizado. A questão abre precedentes para outros países exigirem o mesmo de plataformas norte-americanos alegando o mesmo critério. Frequentemente, governos alegam serem atacados por “guerra híbrida” devido a mobilizações populares fomentadas por redes sociais dos EUA. Nenhum dado concreto foi apresentado provando que Pequim acessava informações de usuários americanos via TikTok. Contudo, a ameaça de banimento funcionou como arma de coerção.

A legislação aprovada em 2024, com apoio bipartidário e sancionada por Joe Biden, impôs um ultimato claro: vender ou desaparecer. A intervenção direta de Donald Trump — que prorrogou prazos até fechar o negócio e elogiou publicamente Xi Jinping por “não ter ido por outro caminho” — mostra que a questão nunca foi técnica, mas de poder. O fato de Larry Ellison, aliado próximo de Trump e cofundador da Oracle, estar no centro do novo arranjo reforça a percepção de que o TikTok foi capturado por interesses político-econômicos alinhados ao establishment norte-americano.

Benefício econômico, concessão política
Do ponto de vista econômico, a operação foi claramente benéfica para a ByteDance. O TikTok preserva acesso ao maior mercado publicitário do mundo, evita uma desvalorização abrupta do ativo e mantém sua relevância cultural global. A alternativa — a saída forçada dos EUA — teria representado uma perda estratégica difícil de compensar em outros mercados.

Politicamente, porém, o custo é elevado. A ByteDance passa a deter apenas 19,9% da nova empresa americana, percentual máximo permitido pela legislação. O controle acionário, o comando do conselho e as decisões sobre moderação de conteúdo e governança de dados ficam, majoritariamente, sob influência de investidores e interesses alinhados ao Estado americano.

Soberania chinesa sob limites estruturais
Diante da impossibilidade de resistir unilateralmente à máquina estatal norte-americana, Pequim optou pelo pragmatismo. Ao aprovar o acordo, Xi Jinping evitou uma escalada comercial e diplomática num momento em que a China busca estabilidade externa para lidar com desafios internos de crescimento.

Não houve resistência pública, nem retaliações. Isso sugere que, para o governo chinês, preservar canais de influência — mesmo reduzidos — é preferível a um confronto aberto que poderia prejudicar ainda mais empresas chinesas no Ocidente. Ainda assim, a concessão expõe uma vulnerabilidade estrutural: mesmo gigantes tecnológicos globais, quando enraizados em países sob mira geopolítica, são forçados a subordinar-se à lógica de segurança dos EUA.

A operação expõe um limite concreto da soberania chinesa sobre suas próprias empresas quando estas se tornam globais e dependentes de mercados ocidentais. Embora Pequim tenha, em tese, poder regulatório sobre a exportação de tecnologias sensíveis — como algoritmos —, o acordo demonstra que esse poder é mitigado quando confrontado com sanções regulatórias e ameaças de exclusão de mercado impostas por outra superpotência.

Ao aceitar a criação de um “TikTok americano”, a China evita um confronto direto, mas reconhece implicitamente que não consegue garantir controle integral sobre empresas nacionais em ambientes regulatórios hostis.

O precedente chinês
Antes de qualquer conflito com o Tik Tok, a China já havia uma governança estratégica sobre seu ambiente digital nacional ainda mais radical que aquele demandado pelo governo dos EUA. As grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos operam hoje na China sob um regime que executivos e analistas descrevem como uma “coexistência vigiada”. Diferentemente do ambiente relativamente aberto em que nasceram, Apple, Tesla, Microsoft e Amazon só conseguem permanecer no país ao adaptar profundamente seus modelos de negócios às regras impostas por Pequim, que combinam regulação rígida, controle de conteúdo e prioridade absoluta à soberania nacional de dados.

O princípio central dessa presença é pragmático: abrir mão de parte dos valores de abertura e integração global em troca do acesso a um dos maiores mercados consumidores do mundo.

A principal estratégia das Big Techs é a localização profunda. Isso envolve compliance estrito com a legislação chinesa e, frequentemente, parcerias com empresas locais ou estatais. A Apple é o exemplo mais emblemático: embora mantenha forte presença no país, os dados de usuários chineses do iCloud são armazenados em servidores operados pela estatal Guizhou-Cloud Big Data, em conformidade com as leis de soberania de dados.

Em 2025, a empresa passou também a explorar parcerias com grupos chineses de inteligência artificial, como o Alibaba, para sustentar serviços móveis diante das restrições a tecnologias estrangeiras. A Tesla, por sua vez, consolidou-se com a Gigafactory de Xangai, produzindo localmente centenas de milhares de veículos e integrando-se à política industrial chinesa.

Outra faceta dessa adaptação é a criação de serviços específicos para o país. Plataformas ocidentais que tentaram permanecer ativas ofereceram versões limitadas, moldadas pelas diretrizes de controle chinês. O LinkedIn acabou encerrando sua rede social no país, enquanto mecanismos como o Bing seguem operando com filtragem de resultados.

A chamada “Grande Muralha de Fogo” continua bloqueando a maioria das redes sociais e plataformas globais — Facebook, Instagram, WhatsApp, X (antigo Twitter), YouTube e Google permanecem inacessíveis. As poucas empresas ocidentais autorizadas a operar, como a Apple, são obrigadas a remover aplicativos e conteúdos considerados sensíveis pelo governo.

Competição assimétrica com gigantes locais
Mesmo após todas as concessões, as Big Techs americanas não competem em igualdade de condições. O mercado é dominado por gigantes chinesas como Baidu, Alibaba, Tencent e ByteDance, que se beneficiam de escala, proximidade regulatória e apoio indireto do Estado.

Na corrida da inteligência artificial, o contraste é ainda mais evidente. Enquanto empresas como a Apple buscam adaptar soluções externas, grupos chineses como ByteDance e DeepSeek avançam rapidamente, inclusive com frameworks de código aberto que, em benchmarks locais, já rivalizam ou superam modelos ocidentais.

A “coexistência vigiada” permite ganhos bilionários no curto prazo, mas expõe os limites do modelo global das plataformas digitais em um mundo cada vez mais fragmentado por soberanias nacionais e disputas estratégicas.

O algoritmo como linha vermelha relativa
A ByteDance manteve a propriedade do algoritmo de recomendação, coração do sucesso do TikTok, licenciando-o para a nova entidade nos EUA. Esse detalhe permite à empresa sustentar o argumento de que não houve uma cessão completa de soberania tecnológica.

Ainda assim, o licenciamento, o retreinamento local e a supervisão por empresas como a Oracle reduzem o controle efetivo sobre o funcionamento do sistema. Trata-se de uma soberania formal, mas enfraquecida na prática, sobretudo se futuras disputas regulatórias ampliarem as restrições à cooperação técnica entre as duas entidades.

Precedente para o capitalismo de plataformas
O caso TikTok estabelece um precedente alarmante: qualquer empresa de tecnologia de um país considerado “rival estratégico” pode ser desmembrada sob alegações de segurança nacional, sem julgamento transparente ou evidência robusta. Pela primeira vez em escala tão ampla, uma empresa de tecnologia global é forçada a se fragmentar estruturalmente para atender exigências políticas de um Estado anfitrião, mesmo permanecendo economicamente viável. Se amanhã a Índia, a Rússia ou até a União Europeia decidirem fazer o mesmo com Google, Meta ou Microsoft, terão o respaldo tácito dessa doutrina.

A fragmentação da internet em blocos nacionais — a chamada “splinternet” — avança. E, nesse novo cenário, a soberania digital não pertence aos povos, nem aos Estados em desenvolvimento, mas àqueles que detêm o poder militar, financeiro e legal para impor suas regras. A China salvou o TikTok nos EUA, mas perdeu uma batalha simbólica: a de provar que um modelo alternativo de governança digital é possível.

Ao ceder o controle operacional e permitir que o algoritmo seja “americanizado”, a empresa corre o risco de ver sua identidade criativa diluída. Analistas alertam que feeds mais nacionalistas podem reduzir o apelo global da plataforma, minando justamente o que a tornou única: a circulação transnacional de tendências culturais. Além disso, criadores e pequenos negócios temem que o novo comando priorize influenciadores tradicionais em detrimento do comércio social — um pilar recente de crescimento.

Isso sinaliza a consolidação de um “capitalismo de plataformas fragmentado”, no qual aplicativos globais precisarão operar versões nacionais ou regionais, com diferentes regras de propriedade, dados, moderação e governança. A ideia de plataformas verdadeiramente globais, regidas apenas por lógicas de mercado, torna-se cada vez mais frágil.

Risco de instrumentalização política interna
Se o discurso oficial americano sempre destacou o risco de propaganda estrangeira, o novo modelo não elimina a possibilidade de instrumentalização política — apenas muda seu vetor. Com investidores ligados ao establishment político dos EUA e um conselho majoritariamente americano, cresce o temor de que decisões de moderação reflitam interesses domésticos, não necessariamente critérios universais de liberdade de expressão ou pluralismo.

Analistas alertam que o acordo pode ter trocado o medo de influência externa pela possibilidade concreta de influência interna, redefinindo quem exerce poder sobre o fluxo de informação.

Lição para empresas chinesas — e globais
Para empresas chinesas, o caso TikTok funciona como alerta: internacionalizar-se implica riscos políticos que não podem ser mitigados apenas com eficiência tecnológica ou sucesso de mercado. Para plataformas globais em geral, a mensagem é semelhante — soberania estatal voltou a ser um fator determinante na arquitetura corporativa da economia digital.

No balanço final, o acordo foi uma vitória tática para a sobrevivência do TikTok nos EUA, mas uma derrota simbólica para a soberania chinesa plena sobre sua empresa. E, para o ecossistema global de plataformas, representa um marco: a era da fragmentação regulatória e geopolítica da internet deixou de ser exceção e passou a ser regra.

por Cezar Xavier