15 anos depois, as Primaveras Árabes deixaram um rastro de instabilidade
Um manifestante levanta a bandeira tunisiana durante a “revolução” de 14 de Janeiro de 2011. Foto de redes sociais
Quinze anos após a eclosão da Primavera Árabe, a narrativa romântica de levantes espontâneos impulsionados pelas redes sociais dá lugar a uma leitura mais crítica. As mobilizações digitais que derrubaram regimes longevos também operaram como instrumentos de guerra híbrida: canalizaram insatisfações, mas foram incapazes de construir projetos de poder soberanos, estáveis e socialmente inclusivos. O resultado, em grande parte da região, foi o colapso do nacionalismo árabe, a fragmentação estatal e o retorno de formas ainda mais duras de autoritarismo.
As redes sociais funcionaram como aceleradores de massas, não como arquitetas de instituições. A política foi substituída por ondas emocionais, slogans e pressão de rua, criando o cenário ideal para intervenções externas, rearranjos regionais e a consolidação de atores alinhados aos interesses estratégicos dos Estados Unidos e de seus aliados no Golfo. Sociedades que guardavam alguma estabilidade política e econômica, com uma ampla classe média, mergulharam no caos e no empobrecimento.
Da rebelião à repressão: o caso tunisiano
A Tunísia, berço da Primavera Árabe, ilustra com nitidez esse ciclo. A recente prisão do ativista e advogado Ayachi Hammami, denunciada pela Human Rights Watch, simboliza o fechamento do espaço político sob o presidente Kais Saied. O país que por anos foi apresentado como “exceção democrática” regressou a práticas autoritárias, com perseguição sistemática à oposição e concentração de poder no Executivo.
A trajetória tunisiana evidencia como a derrubada de Ben Ali, em 2011, não resultou em uma democracia consolidada, mas em uma transição frágil, facilmente revertida quando as plataformas digitais norte-americanas perderam seu interesse mobilizador e o Estado recompôs seus mecanismos de controle.
O efeito dominó e o vácuo de poder
O colapso do regime tunisiano desencadeou um efeito dominó. Mubarak caiu no Egito, Gaddafi foi brutalmente assassinado na Líbia, Ali Abdullah Saleh foi deposto no Iêmen. Em todos esses casos, a queda do regime não foi acompanhada por pactos institucionais sólidos. O que se seguiu foi um vácuo de poder explorado por forças armadas, milícias, grupos extremistas e potências externas.
Na Líbia, a intervenção e o linchamento de Gaddafi abriram caminho para uma guerra civil permanente, fragmentando o país e transformando-o em corredor de armas e instabilidade regional. No Egito, a eleição de Mohamed Morsi revelou os limites da democracia formal diante de um “Estado profundo” intacto, que rapidamente reorganizou o golpe de 2013 e levou Abdel Fattah el-Sisi ao poder — em um regime mais repressivo que o de Mubarak. O que se tem no Egito, hoje, é a garantia de que nenhuma primavera árabe aconteça novamente.
Redes sociais como vetor de desestabilização
As plataformas digitais desempenharam papel central nesse processo. Ao mesmo tempo em que romperam o monopólio estatal da informação, facilitaram operações de desinformação, polarização extrema e manipulação emocional em larga escala. A lógica algorítmica premiou o conflito, não a mediação; a ruptura, não a construção. Em todos os países por onde passaram, fortunas foram investidas em impulsionamento de postagens para garantir ampla adesão.
Nesse ambiente, agendas externas encontraram terreno fértil. A promoção seletiva da “democracia” coincidiu com o enfraquecimento de regimes nacionalistas historicamente menos alinhados a Washington, enquanto monarquias (autoritárias, religiosas, violentas e corruptas) do Golfo — politicamente estáveis, economicamente centrais e estrategicamente aliadas dos EUA — emergiram como novos polos de poder regional.
Golfo fortalecido, capitais históricas esvaziadas
O saldo geopolítico da Primavera Árabe foi claro: o centro de gravidade do mundo árabe deslocou-se do Cairo, Damasco e Bagdá para Doha, Abu Dhabi e Riad. As monarquias do Golfo não apenas sobreviveram aos protestos como ampliaram sua influência econômica, diplomática e midiática, muitas vezes financiando forças políticas e militares em países desestabilizados.
Esse rearranjo favoreceu uma ordem regional mais alinhada aos interesses norte-americanos, baseada na contenção do nacionalismo árabe, no enfraquecimento de Estados laicos fortes e na gestão permanente da instabilidade como ferramenta de controle.
Extremismo, medo e o pretexto da ordem
O caos gerado pelas quedas de regime também abriu espaço para grupos como o Estado Islâmico, cuja ascensão serviu de justificativa para intervenções militares, estados de exceção e a suspensão de liberdades civis. A promessa de “ordem” passou a legitimar o autoritarismo, enquanto as causas estruturais — desigualdade, corrupção e dependência econômica — permaneceram intactas ou agravadas.
No Egito e na Tunísia, as lições aprendidas pelos regimes foram claras: controlar a internet, criminalizar protestos e impedir qualquer repetição do ciclo mobilizador de 2011. A repressão preventiva tornou-se política de Estado.
Síria, Gaza e o futuro incerto
A queda de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024, reacendeu o debate sobre uma possível “segunda Primavera Árabe”. No entanto, a ascensão do Hayat Tahrir al-Sham, com raízes extremistas, e a fragmentação territorial síria evidenciam os riscos de repetir o mesmo roteiro: derrubar sem reconstruir, mobilizar sem organizar.
No pós-guerra de Gaza, a região segue marcada por conflitos não resolvidos, circulação de armas e instrumentalização permanente das crises, mantendo o Oriente Médio em estado de ebulição controlada.
Democracia desejada, soberania negada
Pesquisas indicam que a maioria dos árabes continua desejando democracia. O paradoxo é que as experiências recentes associaram “transição democrática” ao colapso estatal, à violência e à perda de soberania. As redes sociais, longe de serem ferramentas neutras de emancipação, mostraram-se armas eficazes de guerra híbrida: capazes de mobilizar multidões, mas incapazes de proteger sociedades do retrocesso autoritário que se seguiu.
A Primavera Árabe não fracassou por excesso de povo nas ruas, mas pela ausência de projetos políticos autônomos diante de um ambiente digital colonizado por interesses externos. A história segue aberta, mas a lição é dura: sem soberania, organização e controle social sobre a tecnologia, a revolta pode ser apenas o primeiro ato da restauração autoritária.
por Cezar Xavier




