Luiz Eduardo Soares critica militarização e aponta caminhos para segurança pública
São Paulo (SP), 31/10/2025 – Pessoas na Avenida Paulista durante manifestação contra a operação policial Contenção no Rio de Janeiro. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
A nova edição do Entrelinhas Vermelhas, exibida nesta quinta (27), mergulha na crise da segurança pública no Brasil a partir de uma longa e contundente entrevista com o antropólogo, escritor e ex-secretário nacional de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares. Diante do massacre recente no Rio de Janeiro durante a Operação Contenção, Soares analisa as raízes políticas e institucionais das chacinas recorrentes, desmonta a eficácia da lógica militarizada e aponta caminhos estruturais para superar o ciclo de violência.
Assista a íntegra da entrevista:
Um modelo que falhou — e se repete há décadas
Logo no início da entrevista, Soares não hesita: o que se vê no Rio de Janeiro não é segurança pública. Para ele, se o modelo de violência, ocupações bélicas e chacinas tivesse algum efeito positivo, o estado seria “o paraíso da segurança”, pois a estratégia é reiterada há décadas. No entanto, diz, o resultado é o oposto: organizações criminosas seguem se expandindo, consolidando domínio territorial e aprofundando desigualdades.
As operações policiais — “espetaculosas e politizadas”, segundo ele — produzem mortes, inclusive execuções extrajudiciais, sem alterar de forma duradoura a dinâmica criminal. No dia seguinte às chacinas, as rotinas do crime retornam à normalidade, fortalecidas pela ausência de políticas integradas, inteligência, prevenção e controle institucional.
Governos estaduais repetem a fórmula da truculência
Para Soares, a recente operação no Complexo do Alemão e da Penha teve forte motivação política, vinculada ao julgamento do governador no TSE. Ele aponta ainda o uso instrumental do termo “narcoterrorismo”, alinhado à retórica global da extrema direita e à tentativa de justificar ações de exceção.
Além disso, critica a decisão de permitir que policiais atuassem sem câmeras operacionais, o que, afirma, compromete a transparência, a investigação e qualquer noção de controle democrático.
A máquina que alimenta o crime organizado
Um dos pontos centrais da entrevista é a análise do sistema prisional e seu papel na expansão das facções. Soares lembra que o Brasil tem aproximadamente 832 mil pessoas privadas de liberdade, grande parte presa em flagrante — já que a Polícia Militar não pode investigar e acaba mirando crimes mais visíveis, especialmente o pequeno varejo de drogas em territórios pobres e periféricos.
Esse ciclo institucional, diz ele, é “uma loucura coletiva”: jovens pobres e majoritariamente negros são encarcerados por crimes de baixo impacto e, dentro das prisões, tornam-se presas fáceis para o recrutamento das facções. “Estamos condenando esses jovens a cinco anos de prisão e a uma vida inteira no crime.”
Armas, milícias e a herança do bolsonarismo
A entrevista também aborda o impacto da liberação de armas no governo Bolsonaro. Soares destaca investigações que mostram que armas pesadas usadas por facções no Rio vieram de CACs do interior de São Paulo — resultado direto da flexibilização promovida pelo governo anterior.
Ele descreve um cenário no qual o tráfico incorpora o “modelo de negócios” das milícias, expandindo extorsões, cobranças e controle econômico sobre comunidades inteiras.
A falácia de que a esquerda não tem propostas
O especialista rebate a acusação de que o campo progressista não teria políticas alternativas para a segurança. O problema, diz ele, é que experiências bem-sucedidas foram locais, pontuais e não conseguiram se institucionalizar. Ao mesmo tempo, governos que se reivindicam de esquerda muitas vezes reproduziram políticas conservadoras.
Soares critica a direita por atribuir à esquerda a responsabilidade pela crise, quando, na verdade, o modelo hegemônico de segurança pública no Brasil pós-ditadura sempre esteve nas mãos de governos conservadores.
PEC da Segurança, PL Antifacção e o papel do Congresso
Ao avaliar as propostas recentes em debate no Congresso, Soares afirma que a PEC da Segurança Pública, apresentada pelo ministro Lewandowski, tem limites, mas representa um passo positivo ao tentar criar um Sistema Único de Segurança Pública com coordenação nacional — algo que o país nunca conseguiu estabelecer.
Já sobre o PL Antifacção, ele é categórico: a proposta abre brechas para criminalizar movimentos sociais e até famílias de acusados, além de ameaçar operações sérias como o caso Carbono Oculto, da Polícia Federal.
Reformas profundas: mudar o modelo policial e a arquitetura institucional
O antropólogo defende que o Brasil enfrente seus “tabus constitucionais”, herdados da transição controlada pela ditadura, especialmente os artigos 142 e 144 da Constituição, que preservaram uma estrutura policial militarizada e fragmentada.
Sem reformar a arquitetura institucional — unificando formações, integrando dados, fortalecendo inteligência e submetendo as polícias a controle democrático —, diz ele, não há saída para a crise.
Um futuro possível: prevenção, cidadania e desenvolvimento
Soares afirma que políticas sociais, urbanização, educação, cultura e oportunidades não substituem a segurança pública, mas são parte indissociável dela. Para o avanço do tráfico e das milícias, explica, quanto mais vulnerável for o território, mais fácil é recrutar jovens e controlar comunidades.
Por isso, defende que a segurança pública seja compreendida como política de Estado, articulada com desenvolvimento social e econômico.
Novo livro: “Escolha Sua Distopia ou Pense Pelo Avesso”
Ao final da entrevista, Soares anuncia o lançamento de seu novo livro, Escolha Sua Distopia ou Pense Pelo Avesso, que discute o avanço da extrema direita, os retrocessos democráticos, a crise da segurança pública e o papel das polícias no Brasil contemporâneo. O lançamento em São Paulo ocorre em 4 de dezembro.
por cezar xavier

