Movimento sindical vê avanço com acenos de Lula à jornada menor e PLR isenta
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante a cerimônia de sanção do Projeto de Lei nº 1.087, de 2025, que amplia a faixa de isenção e institui a tributação mínima do Imposto de Renda. Palácio do Planalto – Brasília (DF) Foto: Ricardo Stuckert / PR
A fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a sanção da reforma do Imposto de Renda, nesta quarta-feira (26), recolocou no centro da agenda trabalhista dois temas sensíveis para o movimento sindical: a redução da jornada semanal e a isenção total da Participação nos Lucros e Resultados (PLR). No evento — marcado pela ausência dos presidentes da Câmara e do Senado e pelo clima de tensão entre Planalto e Legislativo — Lula afirmou que o país não pode seguir “com uma jornada de 1943”, em referência à CLT, e defendeu repensar a taxação sobre PLR, considerada injusta.
As centrais sindicais reagiram imediatamente. Para seus dirigentes, o discurso sinaliza sintonia com pautas históricas dos trabalhadores, mas só ganhará força se houver mobilização intensa nos locais de trabalho e pressão política sobre o Congresso. Em declarações ao Portal Vermelho, falaram Adilson Araújo, presidente da CTB; João Carlos Gonçalves, ‘Juruna’, da Força Sindical; e Sérgio Nobre, presidente da CUT.
Lula mira jornada do século XXI e critica escala 6×1
Ao defender que “os métodos são outros” e que a revolução tecnológica exige repensar o tempo de trabalho, Lula retomou bandeiras estruturantes da esquerda: reduzir a jornada sem reduzir salários e extinguir a escala 6×1. Segundo o presidente, o avanço digital exige outro arranjo produtivo e mais justiça social.

Para Adilson Araújo, presidente da CTB, o gesto é mais que simbólico: “O aceno de Lula reforça a luta secular da classe trabalhadora pela redução da jornada e pelo combate à exploração. É uma prioridade estratégica em um mundo acelerado pela tecnologia.”
Araújo afirma que a robotização, a inteligência artificial e o enorme aumento de produtividade tornam “inatual” a jornada atual. Segundo ele, a pauta de reduzir a jornada para 36 horas semanais e abolir o 6×1 precisa “ganhar novo fôlego”, por ter grande apelo popular e potencial de mobilização.
“Trabalhar menos para que todos trabalhem e possam usufruir da vida”, resume.
PLR sem imposto: justiça tributária e pressão sobre o Congresso
Na mesma cerimônia, Lula criticou a cobrança de IR sobre PLR acima de R$ 8.214. “É injusto. Eu recebo dividendos e não pago nada, mas um trabalhador que ganha R$ 10 mil de PLR paga imposto. Temos que repensar isso.”
A fala foi comemorada pelas centrais, embora todas reconheçam que a mudança exigirá forte disputa política.
Adilson Araújo reforça que a isenção é uma luta antiga do sindicalismo: “Não é justo que patrões tenham isenção e só trabalhadores sejam tributados.”

Na Força Sindical, João Carlos Gonçalves, o Juruna, vê sintonia entre governo e base trabalhadora, mas faz um alerta: “Nada avança no Parlamento sem mobilização no local de trabalho. Essas pautas nasceram nas greves e negociações. A fala do presidente ajuda, mas quem empurra é o chão de fábrica.”
Juruna defende ampliar o acesso à PLR — hoje concentrada nas categorias mais organizadas — e menciona outra pauta relevante: a regulamentação do financiamento das entidades sindicais, condição para fortalecer negociações coletivas.
CUT: pauta estratégica inclui jornada, PLR e pressão sobre juros
Para o presidente da CUT, Sérgio Nobre, os acenos de Lula abrem caminho para retomar uma agenda estruturante: “Vamos seguir na luta pela isenção da PLR e pela redução da jornada para 40 horas, com o fim da escala 6×1.”

Nobre aproveitou para ampliar o foco: a CUT convocará atos no dia 9, durante a reunião do Copom, para exigir queda imediata da taxa de juros. “O Banco Central sabota o emprego e o crescimento”, disse.
Ele também defendeu que a proteção trabalhista seja estendida aos trabalhadores de aplicativo, considerada uma das urgências do mundo do trabalho.
Ausência do Legislativo expõe tensão política
A cerimônia também expôs o desgaste entre Executivo e Congresso. Nem o presidente da Câmara, Hugo Motta, nem o do Senado, Davi Alcolumbre, compareceram — gesto interpretado na mídia como represália à indicação de Jorge Messias ao Supremo.
O cenário reforça, segundo os dirigentes sindicalistas, que nenhuma das pautas avançará sem força política organizada. Como sintetiza Juruna, da Força Sindical: “Precisamos mobilizar e eleger mais representantes dos trabalhadores em 2026. Só assim a pauta anda.”
Reforma do IR: alívio para milhões e nova tributação sobre super-ricos
Além dos temas trabalhistas, Lula celebrou o reajuste da faixa de isenção do IR para quem ganha até R$ 5.000 a partir de 2026, promessa de campanha e aposta eleitoral do governo. Cerca de 15 milhões de brasileiros deixam de pagar o imposto.
Para compensar a renúncia, a reforma cria o Imposto de Renda Mínimo para altas rendas — um movimento alinhado ao debate global sobre tributação de super-ricos.
Mobilização como chave do avanço
O discurso de Lula impulsionou pautas históricas, mas o movimento sindical sabe que o cenário político exige pressão constante. As centrais apontam que:
- a redução da jornada demanda mobilização e negociação coletiva;
- a isenção da PLR dependerá de correlação de forças no Congresso;
- e a reconstrução da agenda trabalhista passa por fortalecer o sindicalismo.
Para Adilson Araújo, o momento é decisivo: “A luta pelo trabalho decente voltou ao centro. A tecnologia avançou, a produtividade explodiu — agora é a hora de avançar no tempo de vida do trabalhador.
por cezar xavier

