“As Pessoas com Deficiência (PcDs) no Brasil totalizam 18,6 milhões de pessoas, o que corresponde a 8,9% da população brasileira, de acordo com o último censo do IBGE (2022). É preocupante que o projeto de Resolução não aponte diretrizes específicas e claras para integrar essa parcela da população à luta da classe trabalhadora, garantindo sua participação ativa e protagonismo.

A identidade das PcDs é naturalmente diversa e fragmentada devido à variedade de condições e manifestações das deficiências. Mesmo quando há maior organização em torno de uma deficiência específica, a luta por direitos e superação ainda é frequentemente cooptada por interesses clientelistas de diversos espectros políticos. Na direita, em particular, há uma tentativa constante de sequestrar a pauta, como ficou evidente no caso das pessoas com deficiência auditiva, que foram instrumentalizadas simbolicamente pela ex-primeira dama Michele Bolsonaro.

O Partido Comunista não pode permanecer inerte diante de um segmento tão numeroso e significativo da sociedade. É essencial compreender as particularidades de cada deficiência – incluindo físicas, sensoriais, intelectuais e mentais – e promover uma tomada de consciência que vá além do discurso anticapacitista. É preciso garantir protagonismo real às PcDs, especialmente àquelas que compõem a força de trabalho, assegurando que sejam agentes ativos na transformação social.

A causa PcD está órfã de organização política autônoma, vítima constante de “padrinhos” oportunistas que buscam capitalizar eleitoralmente em cima dela. Para setores que enxergam nas PcDs uma base eleitoral fértil sob um viés utilitarista, interessa apenas o clientelismo personalista, não a real emancipação e o desenvolvimento da consciência crítica dessas pessoas.

E a esquerda? Como tem tratado a questão?
A causa é transversal e inevitável. O PCdoB, assim como outras forças progressistas, precisa avançar na organização desse segmento e na promoção da conscientização, sob o risco de reproduzir – ainda que por omissão – a mesma lógica clientelista que critica na direita.

Não se trata de disputar o “apadrinhamento” das PcDs, mas de fortalecer sua autonomia e inserção na luta de classes, mostrando como suas demandas específicas dialogam com questões estruturais como acesso ao trabalho, saúde, educação e mobilidade.

É crucial destacar que muitas deficiências – o que fica claro sobretudo nas intelectuais e mentais – envolvem todo um ecossistema de apoio: familiares, cuidadores, responsáveis e redes de convívio. Ou seja, o alcance da causa abrange não apenas 18,6 milhões de PcDs, mas potencialmente o dobro ou triplo desse número, se considerarmos seu entorno imediato. Todas essas pessoas precisam de conscientização, engajamento e integração no projeto civilizatório que é composto pelo ideário comunista.

As sobrecargas impostas pelo cotidiano – tanto para PcDs quanto para suas famílias – são um fator adicional de exclusão política e precisam ser pauta prioritária do partido. Seja pela relevância numérica, seja pela urgência em incluir quem historicamente foi invisibilizado, a causa das pessoas com deficiência é central para qualquer projeto verdadeiramente humanitário, democrático e socialista.”